Quais são os níveis adequados de nutrientes para produzir kiwi no Sul do Brasil?

Publicado no Código Científico em

Quais concentrações de nutrientes no solo e nas folhas estão associadas à maior produtividade de kiwi em pomares comerciais de Santa Catarina?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Estimation of critical nutrient levels for kiwifruit trees using Bayesian quantile regression models”, publicado na revista Bragantia em 07/11/2025.

Conclusão principal

Pomares comerciais de kiwi no Meio-Oeste de Santa Catarina apresentaram produtividade média de 12,8 toneladas por hectare, com valores entre 0,1 e 30,3 t/ha. A partir de dados de 15 pomares, pesquisadores estabeleceram referências de fertilidade do solo e nutrição foliar associadas ao melhor desempenho produtivo. Entre elas, o nível crítico de fósforo foi de 33 mg/dm³ e o de potássio, 130 mg/dm³. Os resultados oferecem parâmetros específicos para interpretar análises e orientar o manejo nutricional da cultura nas condições estudadas.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • Foram analisados 15 pomares comerciais de Santa Catarina, com dados de 2014 a 2021. A produtividade variou de 0,1 a 30,3 t/ha, com média de 12,8 t/ha. Os níveis críticos no solo foram de 33 mg/dm³ para fósforo e 130 mg/dm³ para potássio. A faixa adequada de saturação por bases foi estimada em 82–88%. As referências propostas diferem de parte dos padrões gerais utilizados para frutíferas.

A pesquisa estabeleceu referências nutricionais específicas para o kiwi

A investigação buscou determinar quais níveis de nutrientes no solo e nas folhas estão associados ao melhor desempenho produtivo do kiwi cultivado no Sul do Brasil. O objetivo foi estabelecer níveis críticos, classes de fertilidade e faixas de suficiência foliar que permitam interpretar análises químicas com maior especificidade para a cultura. Os dados vieram de pomares comerciais do Meio-Oeste de Santa Catarina, com plantas das cultivares Monty e Bruno, enxertadas sobre porta-enxerto Bruno. A pesquisa considerou a relação entre produtividade e disponibilidade de nutrientes, em vez de utilizar apenas referências gerais destinadas a diferentes frutíferas. Essa distinção é importante porque os autores apontam que os padrões existentes nem sempre foram calibrados para as condições brasileiras de cultivo do kiwi. O trabalho procurou preencher essa lacuna com informações obtidas diretamente de áreas produtivas da região.

Os pesquisadores relacionaram produtividade e análises de solo e folhas

A pesquisa utilizou uma base de dados de 15 pomares comerciais, com idades entre três e 13 anos, acompanhados ao longo das safras de 2014 a 2021. As áreas estavam localizadas nas principais regiões produtoras de kiwi de Santa Catarina. As amostras de solo foram coletadas na camada de 0–20 cm, sob a copa das plantas, em quatro safras: 2014, 2016, 2018 e 2020. Cada amostra era composta por dez subamostras. A coleta foliar ocorreu durante oito safras, em fevereiro, aproximadamente 15 semanas após a plena floração, utilizando 50 folhas completas de cerca de 30 plantas. Os pesquisadores relacionaram as concentrações de nutrientes à produtividade relativa dos frutos. Para estimar os níveis críticos, aplicaram o método da linha de fronteira, regressões com platô e modelos de regressão quantílica bayesiana. Em termos simples, o procedimento busca identificar o limite de desempenho produtivo associado a cada concentração de nutriente e o ponto a partir do qual o modelo deixa de indicar aumento de produtividade. As faixas de referência foram estimadas por análise de densidade de frequência, considerando intervalo de confiança de 90%.

A produtividade variou amplamente e permitiu estimar faixas de referência

A produtividade média dos pomares foi de 12,8 t/ha, com valores entre 0,1 e 30,3 t/ha. A safra de 2019 apresentou a maior média, de 22,8 t/ha. As cultivares Monty e Bruno não apresentaram diferença estatística de produtividade, com médias de 12,5 e 13,2 t/ha, respectivamente, razão pela qual os padrões nutricionais foram estabelecidos conjuntamente. No solo, os níveis críticos estimados foram de 33 mg/dm³ para fósforo, 130 mg/dm³ para potássio, 12 cmolc/dm³ para cálcio e 4,2 cmolc/dm³ para magnésio. As respectivas faixas de fertilidade foram de 30–37 mg/dm³, 127–135 mg/dm³, 10–14 cmolc/dm³ e 3,5–5 cmolc/dm³. Para a saturação por bases, o nível crítico foi de 85%, com faixa adequada de 82–88%. Nas folhas, as faixas de suficiência dos macronutrientes foram de 27–31 g/kg para nitrogênio, 1,6–2,2 para fósforo, 18–22 para potássio, 22–25 para cálcio, 4,2–7,5 para magnésio e 2,1–4,2 para enxofre. Os resultados também estabeleceram referências para cobre, ferro, manganês, zinco e boro. A comparação com recomendações anteriores mostrou diferenças importantes, especialmente para cálcio e magnésio no solo e para alguns nutrientes foliares. Os autores interpretam essas diferenças como evidência da necessidade de padrões ajustados à cultura e às condições regionais.

As análises podem orientar um manejo nutricional mais específico

Os resultados oferecem referências para avaliar se os níveis de nutrientes de um pomar estão próximos daqueles associados ao melhor desempenho produtivo observado na pesquisa. Na prática, isso pode auxiliar a interpretação de análises de solo e folhas e apoiar decisões sobre calagem e adubação. Um ponto relevante é que os valores propostos não são iguais aos padrões gerais utilizados para outras frutíferas. Os autores destacam, por exemplo, que as referências de cálcio e magnésio no solo são superiores às apresentadas no manual regional de 2016. A utilização de parâmetros generalizados pode, portanto, levar a interpretações inadequadas das necessidades nutricionais do kiwi. As faixas não representam doses de fertilizantes nem garantem determinada produtividade. Elas são parâmetros de diagnóstico obtidos nas condições dos pomares estudados. A aplicação prática deve considerar as análises químicas, as características do solo, o manejo e as condições de cultivo.

Os parâmetros são mais relevantes para pomares semelhantes aos de Santa Catarina

As referências são especialmente úteis para produtores e profissionais que interpretam análises de solo e folhas de kiwi no Meio-Oeste de Santa Catarina. O conjunto de dados representa pomares comerciais das cultivares Monty e Bruno, com plantas de três a 13 anos e condições de cultivo características da região. Os autores também consideram que a abordagem pode ser relevante para pomares de outras regiões com condições semelhantes. Entretanto, destacam a importância de desenvolver recomendações ajustadas à cultura, à cultivar e ao local de produção. Assim, os valores devem ser utilizados como referências técnicas contextualizadas, e não como padrões universais para qualquer pomar de kiwi.

O estudo apresenta os primeiros padrões de diagnóstico para kiwi no Brasil

A principal contribuição é a proposição de padrões específicos para interpretar análises químicas de solo e folhas de kiwi cultivado no Brasil. Segundo os autores, trata-se do primeiro trabalho a estabelecer esse conjunto de referências para a cultura no país. A pesquisa também utilizou uma abordagem estatística que combina o método da linha de fronteira com modelagem bayesiana. Essa estratégia permitiu estimar níveis críticos e faixas de suficiência a partir de dados de pomares comerciais, considerando a relação entre concentração de nutrientes e desempenho produtivo. O resultado é um conjunto de parâmetros regionais que pode complementar e aperfeiçoar a interpretação de análises, especialmente onde recomendações generalizadas não refletem adequadamente as exigências nutricionais do kiwi.

A nutrição do kiwi exige referências ajustadas às condições de cultivo

A principal lição é que a interpretação da fertilidade do solo e do estado nutricional do kiwi pode ser mais precisa quando utiliza referências construídas com dados da própria cultura e de condições regionais semelhantes. Os resultados mostram que alguns níveis associados ao melhor desempenho produtivo diferem daqueles encontrados em recomendações gerais para frutíferas. Isso não significa que concentrações mais elevadas sejam sempre melhores. Os modelos utilizados identificam pontos críticos e faixas de suficiência, indicando que o aumento de determinado nutriente deixa de estar associado a ganhos adicionais de produtividade após certo limite estimado. O trabalho reforça, portanto, a importância de utilizar análises químicas como instrumentos de diagnóstico e de considerar o conjunto das condições do pomar. Os autores apontam que referências mais específicas podem contribuir para o uso racional de fertilizantes e corretivos, evitando tanto insuficiências quanto excessos nutricionais.

Referências regionais ajudam a interpretar melhor a fertilidade dos pomares

A relevância do estudo está na disponibilidade de parâmetros nutricionais calibrados para uma cultura que ainda possui informações limitadas nas condições brasileiras. A ampla variação de produtividade e de concentrações de nutrientes entre os pomares permitiu estabelecer relações úteis para o diagnóstico da fertilidade. Ao comparar os valores estimados com referências anteriores, os autores identificaram diferenças que podem afetar a interpretação das análises e, consequentemente, as decisões de manejo. O trabalho oferece uma base técnica para recomendações mais específicas e para futuras pesquisas sobre nutrição do kiwi, sem apresentar um experimento de adubação que quantifique ganhos de produtividade decorrentes da adoção desses parâmetros.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

Qual é a faixa adequada de fósforo e potássio no solo para o kiwi?

As faixas estimadas foram de 30–37 mg/dm³ para fósforo e 127–135 mg/dm³ para potássio, com níveis críticos de 33 e 130 mg/dm³, respectivamente. Esses valores foram obtidos a partir da relação entre fertilidade e produtividade em pomares comerciais de Santa Catarina. O fósforo foi determinado pelo método Mehlich-1, e a referência apresentada para ele considera solos da classe textural 3, com 21–40% de argila. Para o potássio, a comparação com o manual regional considera solos com capacidade de troca de cátions de 15,1–30 cmolc/dm³.

Quais são os níveis críticos de cálcio, magnésio e saturação por bases para o kiwi?

Os níveis críticos estimados foram de 12 cmolc/dm³ para cálcio, 4,2 cmolc/dm³ para magnésio e 85% para saturação por bases. As faixas de fertilidade correspondentes foram de 10–14 cmolc/dm³, 3,5–5 cmolc/dm³ e 82–88%. Os autores observaram que as referências de cálcio e magnésio são superiores às faixas gerais apresentadas no manual regional para frutíferas, reforçando a necessidade de interpretar as análises de acordo com as exigências específicas do kiwi.

Em que época e como foram coletadas as folhas para análise nutricional do kiwi?

As folhas foram coletadas em fevereiro, em média 15 semanas após a plena floração. O procedimento utilizou a segunda folha normal localizada após os frutos. Foram amostradas 50 folhas completas, incluindo limbo e pecíolo, de aproximadamente 30 plantas. A coleta ocorreu ao longo de oito safras, entre 2014 e 2021. Esse protocolo é importante para interpretar as faixas de suficiência propostas, pois os valores foram estimados a partir de amostras obtidas nessas condições específicas.

As cultivares Monty e Bruno apresentaram diferenças de produtividade?

Não foi identificada diferença estatística de produtividade entre as duas cultivares avaliadas. A média foi de 12,5 t/ha para Monty e 13,2 t/ha para Bruno. Por esse motivo, os pesquisadores estabeleceram os níveis críticos e as faixas de suficiência foliar conjuntamente, sem separar os padrões por cultivar. O resultado se refere aos pomares e às condições de cultivo incluídos na base de dados.

Por que as referências nutricionais do kiwi diferem das recomendações gerais para frutíferas?

Os autores atribuem as diferenças ao fato de que recomendações gerais são estabelecidas para grupos de frutíferas com exigências nutricionais distintas, enquanto os novos parâmetros foram estimados especificamente para o kiwi. Também destacam que tipo de solo, clima, cultivar e manejo podem influenciar os níveis adequados de nutrientes. No estudo, as referências de cálcio e magnésio no solo foram superiores às do manual regional, e algumas faixas foliares também diferiram das recomendações anteriores. Isso sustenta a necessidade de padrões regionais, sem significar que os valores possam ser aplicados indiscriminadamente a todos os pomares.

Sobre o estudo original

Título científico
Estimation of critical nutrient levels for kiwifruit trees using Bayesian quantile regression models
Autores
Jean Michel Moura-Bueno (Universidade Federal de Santa Maria); Jacson Hindersmann (Universidade Federal de Santa Maria); Leandro Hahn (Empresa de Pesquisa Agropecuária); Antonio João de Lima Neto (Universidade Federal do Ceará); Douglas Luiz Grando (Universidade Federal de Santa Catarina); Fábio Joel Kochem Mallmann (Universidade Federal de Santa Maria); Gustavo Brunetto (Universidade Federal de Santa Maria)
Revista
Bragantia
Publicado em
07/11/2025
DOI
10.1590/1678-4499.20240300

Fonte e atribuição

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