Agricultura familiar: 78% dos municípios analisados no RS têm perfil de baixa produtividade

Publicado no Código Científico em

Por que a agricultura familiar apresenta desempenhos diferentes no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, e quais características estão associadas a melhores resultados econômicos e ambientais?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Taxonomia da Agricultura Familiar no RJ e RS: Desempenho, Sustentabilidade e Produtividade”, publicado na revista Revista de Administração Contemporânea em 2026.

Conclusão principal

A agricultura familiar apresenta diferenças importantes de produtividade, acesso a recursos e sustentabilidade entre municípios do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Com dados do Censo Agropecuário de 2017, os pesquisadores identificaram quatro perfis principais. O grupo de menor desenvolvimento produtivo reúne 78,27% dos municípios analisados no RS e 79,12% no RJ. Já os perfis que conciliam práticas produtivas e sustentabilidade tiveram melhor desempenho econômico. Os resultados também associam a vantagem gaúcha à maior estrutura de crédito, assistência técnica e organização produtiva.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • O perfil incipiente reúne 78,27% dos municípios analisados no RS e 79,12% no RJ
  • Os tradicionais sustentáveis apresentaram o melhor desempenho econômico
  • Os preservadores se destacaram em eficiência produtiva e características ambientais
  • O acesso intenso ao crédito, isoladamente, não garantiu melhor desempenho
  • A comparação indica a importância de assistência técnica, crédito estruturado e políticas adaptadas a cada território

Quatro perfis ajudam a explicar as diferenças da agricultura familiar

A pesquisa investigou como características produtivas, econômicas, ambientais e institucionais se relacionam com o desempenho da agricultura familiar no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O objetivo foi identificar grupos de municípios com características semelhantes e compreender por que alguns apresentam resultados superiores aos de outros.

Os autores consideraram aspectos como produção, área cultivada, acesso ao crédito rural, assistência técnica, práticas de conservação e indicadores de desenvolvimento. A comparação buscou compreender a relação entre esses recursos e a capacidade de produzir, gerar resultados econômicos e manter práticas sustentáveis.

A unidade de análise foi o município, e não cada propriedade individualmente. Assim, os perfis representam padrões municipais da agricultura familiar. O estudo também examinou como as diferenças entre as estruturas institucionais dos dois estados podem estar associadas às desigualdades observadas.

Dados do Censo de 2017 foram agrupados por características semelhantes

Os pesquisadores utilizaram dados municipais do Censo Agropecuário de 2017, do IBGE. A base inicial abrangia 91 municípios do Rio de Janeiro e 497 do Rio Grande do Sul. Municípios com valores extremos de produção e aqueles cuja atividade familiar tinha relevância econômica muito reduzida foram excluídos conforme os critérios descritos no artigo.

Primeiro, os autores reuniram indicadores relacionados em dimensões mais amplas por meio de análise fatorial. Depois, aplicaram técnicas estatísticas de agrupamento para identificar municípios com padrões semelhantes. As análises foram realizadas separadamente para cada estado, utilizando as mesmas variáveis, de modo a respeitar as particularidades regionais.

Por fim, os grupos foram comparados em indicadores econômicos, produtivos e de sustentabilidade, com testes estatísticos para verificar as diferenças. O desenho é observacional e utiliza dados de um único censo. Portanto, permite identificar associações e padrões, mas não demonstra que uma política específica causou determinado resultado.

A maioria dos municípios ficou no grupo de menor desenvolvimento produtivo

O perfil incipiente foi o mais frequente nos dois estados: 78,27% dos municípios analisados no Rio Grande do Sul e 79,12% no Rio de Janeiro. Esse grupo apresentou baixa produtividade, acesso limitado ao crédito e menor nível de tecnificação. No RJ, os autores também destacaram a cobertura mais restrita de assistência técnica e extensão rural.

Os tradicionais sustentáveis corresponderam a 7,85% dos municípios gaúchos e 12,09% dos fluminenses. Eles reuniram características de produção eficiente e práticas de conservação, apresentando o melhor desempenho econômico entre os perfis. O artigo destaca maior valor bruto da produção, participação em mercados institucionais e presença de tecnologias sociais.

Os preservadores representaram 6,44% dos municípios no RS e 2,20% no RJ. Esse perfil mostrou maior orientação à sustentabilidade ecológica, com práticas agroecológicas e menor dependência de insumos químicos. Na comparação dos indicadores, também se destacou em eficiência produtiva, embora não tenha liderado o desempenho econômico.

O grupo tomador, caracterizado pelo uso intenso de crédito rural, reuniu 6,04% dos municípios gaúchos e 1,10% dos fluminenses. Apesar da maior captação de recursos, não apresentou desempenho proporcionalmente superior. Os autores interpretam esse resultado como sinal de que financiamento precisa estar acompanhado de capacidade de gestão e suporte técnico.

Na comparação regional, o Rio Grande do Sul apresentou resultados produtivos mais favoráveis, associados a uma estrutura mais consolidada de crédito, assistência técnica e organização produtiva.

Crédito e assistência técnica precisam responder às necessidades de cada perfil

Os resultados indicam que oferecer o mesmo tipo de apoio a todos os agricultores familiares pode deixar necessidades importantes sem atendimento. Municípios com baixa produtividade e pouco acesso a recursos enfrentam desafios diferentes daqueles que já possuem produção consolidada ou utilizam crédito intensivamente.

Para os grupos incipientes, os autores defendem maior atenção à infraestrutura, capacitação e acesso a políticas públicas. Para os tomadores, o resultado sugere que o financiamento deve ser acompanhado de orientação técnica e gestão financeira, pois captar recursos não significa necessariamente utilizá-los com maior eficiência.

A pesquisa também mostra que práticas sustentáveis e desempenho econômico não precisam ser tratados como objetivos incompatíveis. Os tradicionais sustentáveis apresentaram os melhores resultados econômicos, enquanto os preservadores tiveram destaque em outras dimensões. A implicação é buscar estratégias que considerem simultaneamente produção, conservação e condições locais, sem presumir que uma única solução funcionará em todos os municípios.

Os achados são especialmente úteis para planejar o desenvolvimento rural

A pesquisa é relevante para gestores públicos, serviços de assistência técnica, cooperativas e organizações que planejam ações para a agricultura familiar. A classificação permite distinguir municípios que precisam ampliar sua base produtiva daqueles que já possuem recursos, mas enfrentam dificuldades para convertê-los em melhores resultados.

Também interessa a agricultores e suas organizações ao mostrar que acesso a mercados, orientação técnica, gestão e práticas de conservação podem fazer parte de estratégias produtivas diferentes. Os resultados, porém, descrevem padrões municipais de dois estados com dados de 2017. Eles não devem ser utilizados como diagnóstico automático de uma propriedade específica nem como garantia de que determinada intervenção produzirá o mesmo efeito em outro território.

A pesquisa conecta perfis produtivos, sustentabilidade e instituições

A contribuição do artigo está em comparar a agricultura familiar de dois estados com estruturas produtivas e institucionais distintas, utilizando uma classificação construída a partir de vários indicadores. Em vez de considerar os agricultores familiares como um grupo uniforme, a pesquisa identifica padrões municipais que combinam recursos, práticas e desempenho.

O estudo também relaciona esses perfis a indicadores econômicos e de sustentabilidade, permitindo observar que diferentes estratégias apresentam resultados distintos. A comparação entre RJ e RS acrescenta a dimensão territorial: crédito, assistência técnica, organização produtiva e acesso a políticas são analisados em conjunto com as características locais. Essa abordagem oferece uma base para pensar políticas diferenciadas, em vez de aplicar um modelo único a realidades heterogêneas.

Sustentabilidade e resultado econômico podem caminhar juntos

A principal lição é que a agricultura familiar não possui uma única trajetória de desenvolvimento. Municípios com características semelhantes podem apresentar padrões diferentes de produção, conservação e acesso a recursos, e essas diferenças importam para o desempenho.

Os tradicionais sustentáveis mostraram que práticas produtivas eficientes podem coexistir com estratégias de conservação e melhores resultados econômicos. Os preservadores, por sua vez, destacaram-se em eficiência produtiva e características ambientais, mostrando que o desempenho não deve ser avaliado apenas pelo valor da produção.

Outra lição é que crédito, por si só, não resolve todos os problemas. O grupo que utilizava intensamente financiamento não apresentou resultados proporcionais aos recursos captados. A interpretação dos autores aponta para a necessidade de combinar financiamento, assistência técnica, gestão e condições de mercado. Como a pesquisa é observacional, esses resultados orientam hipóteses e decisões, mas não medem o efeito causal de cada política.

A predominância de municípios incipientes revela desafios para as políticas rurais

A relevância do resultado está na dimensão da heterogeneidade encontrada. Mais de três quartos dos municípios analisados em cada estado foram classificados no perfil incipiente, enquanto grupos menores apresentaram características produtivas e ambientais distintas. Isso indica que políticas formuladas apenas com base no desempenho dos grupos mais estruturados podem não atender à maior parte dos territórios estudados.

A comparação também ajuda a compreender por que a experiência de um estado não deve ser simplesmente reproduzida em outro. Os autores associam os melhores resultados gaúchos a condições institucionais mais favoráveis e defendem que medidas de apoio sejam ajustadas à realidade regional. O estudo oferece evidências para essa orientação, sem estabelecer uma fórmula universal de desenvolvimento rural.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

O que essa pesquisa descobriu sobre a agricultura familiar?

A pesquisa descobriu que os municípios com agricultura familiar apresentam perfis muito diferentes, mesmo dentro de um mesmo estado. O grupo mais frequente foi o incipiente, caracterizado por baixa produtividade, menor tecnificação e acesso limitado ao crédito. Ele representa 78,27% dos municípios analisados no Rio Grande do Sul e 79,12% no Rio de Janeiro.

Outros grupos se destacaram por melhores resultados econômicos, práticas de conservação ou maior uso de financiamento. A principal conclusão é que essas diferenças precisam ser consideradas na elaboração de políticas públicas, pois as necessidades de apoio não são iguais em todos os territórios.

A agricultura familiar sustentável pode ter bons resultados econômicos?

Sim. Nos municípios analisados, o perfil denominado tradicional sustentável apresentou o melhor desempenho econômico entre os grupos identificados. Esse perfil combina características de produção eficiente com estratégias de conservação e apresentou maior valor bruto da produção, participação em mercados institucionais e presença de tecnologias sociais.

O resultado mostra que sustentabilidade e desempenho econômico podem coexistir. Isso não significa que toda prática sustentável aumente a renda ou que o mesmo resultado ocorrerá em qualquer propriedade. A pesquisa compara padrões municipais e não mede o efeito isolado de uma prática específica sobre o lucro de cada agricultor.

Por que a agricultura familiar do Rio Grande do Sul teve desempenho melhor que a do Rio de Janeiro?

Os autores associam o desempenho produtivo superior do Rio Grande do Sul a uma estrutura mais consolidada de crédito rural, assistência técnica e organização produtiva. No Rio de Janeiro, o artigo destaca restrições de acesso ao financiamento e menor cobertura dos serviços de assistência técnica e extensão rural.

Essas diferenças ajudam a interpretar os resultados encontrados nos dois estados. Entretanto, a comparação é descritiva e baseada em dados de 2017. Ela não permite afirmar quanto da diferença de desempenho foi causado por cada fator, nem garante que reproduzir uma política gaúcha produziria o mesmo resultado no contexto fluminense.

Ter mais acesso a crédito rural significa produzir melhor?

Não necessariamente. O grupo chamado tomador, caracterizado pelo uso intenso de crédito rural, não apresentou desempenho proporcionalmente superior nos indicadores avaliados. Esse resultado sugere que a disponibilidade de financiamento, sozinha, não é suficiente para garantir maior eficiência produtiva.

Os autores destacam a importância de associar o crédito à assistência técnica, à capacitação e à gestão financeira. O financiamento pode fornecer recursos para a produção, mas sua utilização depende das condições e capacidades de cada unidade produtiva. A pesquisa não conclui que o crédito seja prejudicial; ela mostra que seus resultados precisam ser considerados em conjunto com outros fatores.

O que significa um município ter perfil incipiente?

Significa que, na classificação estatística da pesquisa, o município pertence a um grupo com menor desenvolvimento produtivo da agricultura familiar. Esse perfil apresentou baixa produtividade, acesso limitado ao crédito e menor nível de tecnificação. No Rio de Janeiro, os autores também identificaram dificuldades relacionadas à menor cobertura de assistência técnica.

O termo não significa que todos os agricultores do município sejam iguais ou que não exista produção relevante em suas propriedades. A classificação resume características municipais e permite identificar territórios com desafios semelhantes. Os autores defendem que esses locais recebam atenção específica em infraestrutura, capacitação, assistência técnica e acesso a políticas de desenvolvimento rural.

Sobre o estudo original

Título científico
Taxonomia da Agricultura Familiar no RJ e RS: Desempenho, Sustentabilidade e Produtividade
Autores
Frederico Pereira Tenchini (Pontifícia Universidade Catolica do Rio de Janeiro, IAG Escola de Négocios, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: fredtenchini@yahoo.com.br; jorge1319@gmail.com; mcohen@iag.puc-rio.br); Jorge Ferreira da Silva (Pontifícia Universidade Catolica do Rio de Janeiro, IAG Escola de Négocios, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: fredtenchini@yahoo.com.br; jorge1319@gmail.com; mcohen@iag.puc-rio.br); Marcos Cohen (Pontifícia Universidade Catolica do Rio de Janeiro, IAG Escola de Négocios, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: fredtenchini@yahoo.com.br; jorge1319@gmail.com; mcohen@iag.puc-rio.br)
Revista
Revista de Administração Contemporânea
Publicado em
2026
DOI
10.1590/1982-7849rac2026250068.en

Fonte e atribuição

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