Hortas comunitárias em Teresina geram renda e fortalecem vínculos sociais
Como as hortas comunitárias transformam a vida dos agricultores urbanos de Teresina?
Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Huertos comunitarios en Teresina: vidas conectadas en ambientes urbanos”, publicado na revista Ambiente & Sociedade em 19/02/2024.
As hortas comunitárias em Teresina funcionam como espaços de trabalho, geração de renda e convivência social. A cidade possuía 46 hortas com 1.719 lotes, e cerca de 10 mil pessoas viviam direta ou indiretamente da produção de hortaliças nesses espaços. Entrevistas com 12 horticultores mostraram melhoria econômica e fortalecimento de relações sociais, mas também revelaram problemas de infraestrutura, acesso irregular à água, falta de equipamentos, capacitações insuficientes e conflitos relacionados ao uso dos terrenos.
Principais resultados e informações do estudo em resumo
- Teresina possuía 46 hortas comunitárias
- as hortas reuniam 1.719 lotes
- cerca de 10 mil pessoas viviam direta ou indiretamente da produção de hortaliças
- foram entrevistados 12 horticultores de três hortas
- a renda obtida variava de meio a dois salários-mínimos
- falta de equipamentos, água, segurança e capacitação estavam entre as principais limitações
A pesquisa analisou mudanças sociais, econômicas, institucionais e produtivas
O estudo investigou como as hortas comunitárias em Teresina afetam diferentes dimensões da vida dos horticultores. A análise foi organizada em quatro aspectos: sociais, institucionais, econômicos e produtivos.
Na dimensão social, foram considerados os relacionamentos estabelecidos nas hortas e as formas de trabalho coletivo. Na institucional, foram analisados temas como distribuição dos terrenos, capacitações, relação com a Prefeitura e produção orgânica. A dimensão econômica envolveu comercialização, financiamentos e renda, enquanto a produtiva considerou culturas, equipamentos, manejo, água e tratamento do solo.
Os resultados mostraram que as hortas proporcionam benefícios econômicos e sociais importantes, especialmente por oferecerem ocupação, renda e espaços de convivência. Ao mesmo tempo, foram identificadas limitações relacionadas à infraestrutura e à atuação institucional que dificultam o desenvolvimento das atividades.
Doze horticultores de três grandes hortas participaram das entrevistas
A pesquisa foi exploratória e qualitativa, combinando revisão bibliográfica, análise documental e trabalho de campo. Os pesquisadores consultaram documentos da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural, informações do IBGE e outros materiais relacionados às hortas de Teresina.
O trabalho de campo ocorreu entre janeiro e abril de 2021 nas hortas Promorar, Tabuleta e Itararé, que estão entre as dez maiores da cidade e concentram número expressivo de horticultores.
Foram entrevistados 12 horticultores, quatro de cada horta. As idades variavam de 38 a 74 anos. A maioria não havia concluído o Ensino Fundamental, e alguns eram aposentados que utilizavam a atividade como complemento da renda.
Também foi entrevistado um ex-gestor da Superintendência de Desenvolvimento Rural. Os depoimentos foram analisados por meio de análise textual e organizados segundo as dimensões social, institucional, econômica e produtiva.
As 46 hortas reuniam 1.719 lotes e envolviam cerca de 10 mil pessoas
As 46 hortas comunitárias existentes em todas as zonas de Teresina reuniam 1.719 lotes. Segundo os dados apresentados no estudo, cerca de 10 mil pessoas viviam direta ou indiretamente da produção de hortaliças nesses espaços.
A maior era a horta do bairro Itararé, localizada na Zona Sudeste. Criada em 1986, ela possuía aproximadamente cinco quilômetros de extensão.
Parte das hortas foi implantada em terrenos onde passam linhas de transmissão de energia, áreas inadequadas para construção de moradias, mas aproveitadas para produção agrícola. Também foram utilizadas áreas públicas localizadas nas margens dos rios e na periferia da cidade.
As primeiras atividades agrícolas comunitárias foram implantadas a partir da década de 1980 como alternativa de trabalho e renda, especialmente para populações de origem rural que haviam migrado para a capital.
A renda das hortas variava de meio a dois salários-mínimos
A dimensão econômica apareceu de forma marcante nos relatos dos horticultores. A renda proveniente das hortas variava de meio a dois salários-mínimos. Para grande parte dos produtores, a atividade era a principal fonte de renda. Para outros, funcionava como complemento, inclusive após a aposentadoria.
Os produtos eram comercializados diretamente nas hortas, em feiras e por meio de programas governamentais de aquisição de alimentos. Os entrevistados também relataram acesso a pequenos empréstimos bancários e outras formas de financiamento.
O estudo identificou desde pequenas melhorias até mudanças econômicas expressivas entre os participantes. Três casos foram caracterizados pelos pesquisadores como experiências empreendedoras com resultados econômicos superiores.
A quantidade de área disponível também influenciava a possibilidade de ampliar a renda. Horticultores interessados em produzir mais encontravam limitações quando não conseguiam acesso a novos canteiros.
As hortas criaram relações de amizade, mas o trabalho permaneceu predominantemente individual
Os espaços favoreceram relações sociais entre horticultores e consumidores. Reuniões eram realizadas para buscar soluções para problemas comuns, e existiam iniciativas solidárias, como mutirões para limpeza, ajuda a produtores com dificuldades e arrecadação coletiva de recursos para consertar equipamentos.
Os entrevistados também relacionaram as hortas à redução do isolamento, especialmente entre participantes mais idosos. A presença cotidiana de outras pessoas e o contato com consumidores criavam oportunidades de conversa e convivência.
Entretanto, os autores observaram que o trabalho permanecia predominantemente individual. Cada horticultor cuidava de seus próprios canteiros e resultados, e foram encontradas poucas iniciativas efetivamente coletivas.
Também ocorreram conflitos envolvendo repasse informal de terrenos, utilização privada de áreas e furtos. Portanto, as hortas fortaleciam determinados vínculos sociais, mas ainda apresentavam limitações para a consolidação de uma organização comunitária mais ampla.
A infraestrutura insuficiente limita a produção dos horticultores
Entre os principais problemas produtivos estavam a falta de equipamentos e as dificuldades relacionadas ao abastecimento de água. Embora a Prefeitura fornecesse parte da infraestrutura de irrigação, as condições variavam entre as hortas.
Em alguns locais havia poços, aspersores e mangueiras de gotejamento. Em outros, a irrigação ainda precisava ser realizada manualmente. Problemas de manutenção elétrica também eram solucionados, em determinadas situações, com recursos dos próprios horticultores.
Os entrevistados mencionaram ainda falta de bombas e equipamentos que poderiam facilitar o trabalho. Segundo o estudo, havia inclusive equipamentos públicos armazenados que poderiam ser utilizados pelos produtores.
Na comercialização, transporte para escoamento dos produtos e falta de segurança também apareceram entre as dificuldades mais relevantes relatadas pelos horticultores.
Práticas orgânicas e convencionais coexistem dentro das hortas comunitárias
O manejo observado nas hortas não foi exclusivamente orgânico. Os pesquisadores encontraram uma combinação de práticas orgânicas, agroecológicas e convencionais.
O controle de plantas espontâneas era realizado por capina manual, e esterco animal e composto de podas eram utilizados na fertilização. Alguns horticultores também utilizavam adubação química e produtos convencionais para controlar problemas fitossanitários.
Ao mesmo tempo, havia experiências com alternativas de menor impacto. Um curso promovido pelo Banco do Nordeste, por exemplo, abordou controle de pragas com produtos naturais. Entre as práticas mencionadas estavam o uso de nim e outras preparações utilizadas pelos próprios horticultores.
Os autores observaram tendência de aceitação de práticas ambientalmente mais sustentáveis, mas destacaram que a falta de assistência técnica e a irregularidade das capacitações limitavam seu desenvolvimento.
Capacitação e investimento público podem ampliar os benefícios das hortas
Embora as hortas apresentassem resultados sociais e econômicos importantes, os pesquisadores identificaram diversas limitações que poderiam ser enfrentadas com capacitação, investimentos públicos e maior organização coletiva.
Os cursos oferecidos pela Prefeitura eram considerados esporádicos e insuficientes para alcançar todos os horticultores interessados. A assistência poderia contribuir para melhorar o manejo, ampliar práticas orgânicas, aumentar a produtividade e fortalecer a capacidade de gestão.
Também foram identificadas necessidades relacionadas à segurança, distribuição dos terrenos, transporte, equipamentos, água e melhoria da fertilidade do solo.
Os autores concluem que as hortas comunitárias de Teresina apresentam potencial para contribuir com um desenvolvimento local mais sustentável, mas esse potencial depende de políticas públicas, infraestrutura, capacitação e fortalecimento das formas coletivas de organização.
Perguntas que este estudo ajuda a responder
Quantas hortas comunitárias existiam em Teresina?
O estudo informa que Teresina possuía 46 hortas comunitárias distribuídas pelas diferentes zonas da cidade. Juntas, elas reuniam 1.719 lotes. Cerca de 10 mil pessoas viviam direta ou indiretamente da produção de hortaliças desenvolvida nesses espaços. A maior era a horta do bairro Itararé, criada em 1986 e com aproximadamente cinco quilômetros de extensão.
Quanto os horticultores conseguiam ganhar com as hortas?
A renda relatada no estudo variava de meio a dois salários-mínimos. Para grande parte dos horticultores, a atividade constituía a principal fonte de renda. Outros utilizavam os ganhos como complemento, inclusive após a aposentadoria. Os pesquisadores também identificaram casos de maior ascensão econômica entre participantes que ampliaram suas atividades produtivas e comerciais.
A produção das hortas de Teresina era totalmente orgânica?
Não. O estudo encontrou uma mistura de práticas. Capina manual, esterco animal, compostagem de podas e algumas alternativas agroecológicas eram utilizadas, mas também havia adubação química e práticas convencionais de controle de pragas. Os autores identificaram interesse por formas de produção ambientalmente mais sustentáveis, mas apontaram falta de capacitação e apoio técnico para ampliar sua adoção.
Quais eram os principais problemas enfrentados pelos horticultores?
Entre as principais limitações estavam falta de equipamentos, dificuldades ou irregularidade no acesso à água, problemas de segurança, transporte para escoamento da produção, capacitações insuficientes e conflitos relacionados à distribuição e utilização dos terrenos. Os horticultores reconheciam alguns apoios da Prefeitura, como fornecimento de energia para irrigação, mas reivindicavam melhorias na infraestrutura e na manutenção das hortas.
As hortas comunitárias melhoraram a vida dos participantes?
Os relatos analisados indicaram melhorias principalmente nas dimensões econômica e social. As hortas proporcionaram ocupação e renda, inclusive como complemento para aposentados, e criaram espaços de convivência capazes de reduzir o isolamento e fortalecer relações de amizade. Alguns participantes relataram mudanças econômicas expressivas. Os autores ressaltam, porém, que os benefícios coexistem com problemas de infraestrutura, conflitos e uma organização coletiva ainda limitada.
Sobre o estudo original
- Título científico
- Huertos comunitarios en Teresina: vidas conectadas en ambientes urbanos
- Autores
- Tiago Luís da Silva Soares (University of Valle Taquari); Jane Márcia Mazzarino (University of Valle Taquari)
- Revista
- Ambiente & Sociedade
- Publicado em
- 19/02/2024
- DOI
- 10.1590/1809-4422asoc20220172vu2023l4oa
Fonte e atribuição
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