Transição agroecológica elevou indicadores econômicos e sociais de agricultores familiares na Chapada dos Veadeiros
O que mudou para agricultores familiares após iniciarem a transição da agricultura convencional para sistemas orgânicos e agroecológicos?
Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Transição agroecológica em assentamento rural na Chapada dos Veadeiros”, publicado na revista Revista de Economia e Sociologia Rural em 12/08/2024.
A transição agroecológica foi acompanhada por melhora nos indicadores avaliados entre dez agricultores familiares de Alto Paraíso de Goiás. O Percentual de Impacto das Tecnologias (PIT) foi de 7,70% na dimensão econômica e 7,19% na social, enquanto a dimensão ambiental registrou -3,73%, valor que no método utilizado representa redução dos impactos ambientais. Os resultados foram obtidos a partir da percepção dos próprios produtores sobre as condições anteriores e durante a mudança de manejo.
Principais resultados e informações do estudo em resumo
- O PIT econômico foi de 7,70%
- o PIT social foi de 7,19%
- o PIT ambiental foi de -3,73%, indicando redução dos impactos ambientais
- falta de assistência técnica, recursos financeiros e mão de obra apareceram como obstáculos à transição
Dez agricultores familiares foram avaliados durante a mudança do sistema de produção
A pesquisa avaliou a sustentabilidade da transição de sistemas convencionais para formas de produção orgânica e de base agroecológica entre dez agricultores familiares da região da Chapada dos Veadeiros. As propriedades ficam na bacia do rio Tocantinzinho, em Alto Paraíso de Goiás, e os produtores estavam em processo de transição, ainda sem certificação orgânica.
O foco foi verificar como a transição agroecológica se refletia em três dimensões: ambiental, econômica e social. Para isso, os pesquisadores analisaram 25 critérios relacionados, entre outros aspectos, ao uso de recursos e insumos, qualidade ambiental, renda, emprego, saúde, relação com consumidores, gestão e administração das propriedades. A comparação considerou a situação relatada pelos agricultores quando trabalhavam no sistema convencional e a situação durante a transição para práticas orgânicas e agroecológicas.
Entrevistas compararam a percepção dos agricultores antes e durante a transição
As informações foram coletadas em visitas realizadas às propriedades na primeira metade de novembro de 2021. Cada uma das dez propriedades funcionou como uma unidade de avaliação. Os pesquisadores utilizaram o AMBITEC-AGRO, sistema desenvolvido para mensurar impactos ambientais e socioeconômicos de mudanças e tecnologias empregadas na agricultura.
Os próprios produtores avaliaram as mudanças percebidas em suas propriedades. Primeiro, responderam sobre a situação anterior, quando utilizavam o manejo convencional. Depois, avaliaram a situação durante a transição para sistemas orgânicos e agroecológicos.
O AMBITEC-AGRO transforma essas respostas em índices de impacto. Entre os aspectos ambientais estavam uso de insumos e recursos e qualidade ambiental; a dimensão econômica considerou renda e emprego; e a social incluiu aspectos como consumidor, saúde, gestão e administração. Os pesquisadores também calcularam o Percentual de Impacto das Tecnologias (PIT) e utilizaram o teste estatístico de Wilcoxon para comparar os critérios antes e durante a transição agroecológica.
Indicadores econômicos e sociais melhoraram, enquanto os impactos ambientais diminuíram
Os dez agricultores apresentaram aumento no índice geral de impacto após a mudança de manejo. Na média do grupo, o índice geral passou de 0,95 no sistema convencional para 1,29 durante a transição para a produção orgânica ou de base agroecológica.
Na dimensão econômica, o Percentual de Impacto das Tecnologias foi de 7,70%. Renda, com coeficiente de 3,89, e emprego, com 0,73, estiveram entre os componentes que contribuíram para esse resultado. Na dimensão social, o PIT chegou a 7,19%, com destaque para respeito ao consumidor, com média de 3,74, e saúde, com 2,99.
Na dimensão ambiental, o PIT foi de -3,73%. Nesse componente do método, o valor negativo representa redução dos impactos ambientais. Consumo de água e energia contribuíram para essa diminuição. A conservação da biodiversidade e a recuperação ambiental também apresentaram avaliação positiva durante a transição, com média de 2,5, e os agricultores relataram redução do desmatamento, das queimadas e da abertura de novas áreas.
Nem todos os indicadores evoluíram favoravelmente. A qualidade da água permaneceu com avaliação negativa, e os produtores relataram problemas relacionados à expansão da soja convencional nas propriedades vizinhas.
A mudança de manejo trouxe avanços, mas não eliminou os obstáculos enfrentados pelos agricultores
Os resultados indicam que a transição agroecológica esteve associada, na percepção dos dez agricultores avaliados, a melhores condições econômicas e sociais e à redução de determinados impactos ambientais. A melhora não ocorreu da mesma forma para todos os produtores nem em todos os critérios analisados.
Na prática, a pesquisa mostra que mudar o sistema produtivo envolve mais do que substituir insumos. Os agricultores relataram mudanças relacionadas à renda, emprego, conservação ambiental, saúde e relação com consumidores, mas continuaram enfrentando dificuldades importantes. Entre os gargalos identificados estavam falta de assistência técnica e extensão rural, escassez de recursos financeiros para investimentos e dificuldades para encontrar mão de obra. Problemas relacionados à quantidade e à qualidade da água também permaneceram. Assim, os benefícios observados durante a transição coexistiram com limitações que ainda restringiam o desenvolvimento das propriedades.
Os resultados ajudam a entender a transição em propriedades familiares do Cerrado
Os resultados são diretamente relevantes para agricultores familiares em processo de transição agroecológica ou para sistemas orgânicos semelhantes aos encontrados no assentamento estudado. Também ajudam a compreender situações em que a mudança de manejo precisa ser avaliada simultaneamente pelas dimensões econômica, social e ambiental.
A pesquisa, entretanto, avaliou somente dez produtores de Alto Paraíso de Goiás. Além disso, os indicadores foram construídos a partir das percepções dos agricultores sobre a situação anterior e a situação durante a transição. Por isso, os números descrevem especificamente o grupo e as condições analisadas e não representam automaticamente todos os agricultores familiares ou sistemas agroecológicos.
A sustentabilidade foi medida simultaneamente nas dimensões ambiental, econômica e social
Um aspecto importante da pesquisa é tratar a transição agroecológica como uma mudança que pode produzir efeitos em diferentes dimensões da propriedade rural. Em vez de observar apenas produção ou aspectos ambientais isoladamente, a aplicação do AMBITEC-AGRO permitiu reunir indicadores ambientais, econômicos e sociais.
A comparação também foi feita para cada agricultor entre sua situação anterior, sob manejo convencional, e aquela percebida durante a transição. Isso permitiu identificar tanto avanços quanto pontos que continuavam problemáticos. Enquanto indicadores econômicos e sociais apresentaram resultados positivos e houve redução de impactos ambientais, questões como disponibilidade e qualidade da água, assistência técnica, crédito e mão de obra permaneceram como dificuldades para os produtores.
Sustentabilidade depende de avanços econômicos, sociais e ambientais ao mesmo tempo
A principal lição do estudo é que a mudança para sistemas orgânicos ou agroecológicos deve ser observada para além dos aspectos ambientais. Entre os dez agricultores analisados, a transição agroecológica apresentou resultados positivos nas dimensões econômica e social e redução dos impactos na dimensão ambiental, segundo os indicadores do AMBITEC-AGRO.
Ao mesmo tempo, os resultados mostram que sustentabilidade não significa ausência de dificuldades. As condições diferiram entre os produtores, e alguns problemas permaneceram relevantes. Falta de assistência técnica e extensão rural, dificuldade de acesso a recursos financeiros e escassez de mão de obra foram identificadas como obstáculos. A pesquisa também registrou preocupações dos agricultores com disponibilidade e qualidade da água. Portanto, o processo avaliado reuniu avanços e gargalos que precisam ser considerados conjuntamente.
Os resultados mostram onde a transição avançou e onde ainda existem gargalos
A relevância está em mostrar, com indicadores aplicados às próprias unidades familiares, como diferentes aspectos podem mudar durante a transição de um sistema convencional. Os resultados não se limitaram à dimensão ambiental: o PIT econômico atingiu 7,70% e o social, 7,19%, enquanto o ambiental foi de -3,73%, indicando redução de impactos segundo a metodologia utilizada.
Ao mesmo tempo, o estudo identificou fatores capazes de dificultar a continuidade desse processo. Assistência técnica e extensão rural inexistentes na localidade, limitações financeiras para investimentos e problemas de mão de obra foram apontados como gargalos. Dessa forma, a avaliação ajuda a identificar tanto os benefícios percebidos quanto os pontos que ainda restringem a sustentabilidade das unidades analisadas.
Perguntas que este estudo ajuda a responder
A transição agroecológica melhorou a situação dos agricultores avaliados?
Os indicadores utilizados apontaram avanços. Na dimensão econômica, o Percentual de Impacto das Tecnologias foi de 7,70%, e na dimensão social chegou a 7,19%. Na dimensão ambiental, o resultado foi de -3,73%, que no método empregado significa redução dos impactos ambientais. Além disso, o índice geral médio passou de 0,95 no sistema convencional para 1,29 durante a transição. Esses resultados refletem a avaliação dos dez agricultores estudados sobre as mudanças ocorridas em suas propriedades.
Quantos agricultores participaram da pesquisa?
Foram avaliados dez agricultores familiares de propriedades localizadas na região da bacia do rio Tocantinzinho, em Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros. Eles estavam passando da produção convencional para sistemas integrados de produção orgânica e de base agroecológica. No momento considerado pela pesquisa, os produtores entrevistados ainda não possuíam certificação orgânica.
O que melhorou na parte econômica?
A dimensão econômica apresentou Percentual de Impacto das Tecnologias de 7,70%. Entre os componentes destacados pelo estudo estavam renda, com coeficiente de 3,89, e emprego, com 0,73. Os resultados representam a mudança percebida pelos agricultores entre a situação anterior, no sistema convencional, e o período em que estavam realizando a transição para sistemas orgânicos ou de base agroecológica.
Quais dificuldades continuaram mesmo após a mudança de manejo?
Os agricultores ainda enfrentavam obstáculos importantes. O estudo identificou falta de assistência técnica e extensão rural, recursos financeiros insuficientes para investimentos e dificuldades para encontrar mão de obra. Questões relacionadas à água também apareceram entre os problemas. Os produtores relataram piora na quantidade e na qualidade da água e associaram parte dessas dificuldades à expansão do cultivo convencional de soja nas áreas vizinhas. Esse último ponto corresponde à percepção relatada pelos entrevistados.
Como os pesquisadores mediram os impactos da transição?
Foi utilizado o AMBITEC-AGRO, sistema que reúne indicadores ambientais, econômicos e sociais. Os agricultores responderam sobre sua situação anterior, quando utilizavam manejo convencional, e sobre a situação durante a transição. As respostas foram convertidas em coeficientes e índices de impacto. A pesquisa também calculou o Percentual de Impacto das Tecnologias, usado para comparar as duas situações, e aplicou o teste estatístico de Wilcoxon para avaliar diferenças nos critérios analisados.
Sobre o estudo original
- Título científico
- Transição agroecológica em assentamento rural na Chapada dos Veadeiros
- Autores
- Luciano Ferreira Farias (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); João Paulo Guimarães Soares (Embrapa Cerrados); Ana Maria Resende Junqueira (Universidade de Brasília); Juaci Vitória Malaquias (Embrapa Cerrados)
- Revista
- Revista de Economia e Sociologia Rural
- Publicado em
- 12/08/2024
- DOI
- 10.1590/1806-9479.2023.272017
Fonte e atribuição
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