Fósforo no solo agrícola se acumulou principalmente em formas menos disponíveis às plantas
Como banana, café e cacau alteram as diferentes formas de fósforo nos agregados do solo?
Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Soil-aggregate phosphorus and its correlation with edaphic properties in a mountainous agricultural area of southeastern Brazil”, publicado na revista Revista Brasileira de Ciência do Solo em 06/10/2025.
O fósforo no solo agrícola apresentou distribuição diferente daquela observada na floresta secundária em uma propriedade montanhosa de Ibiraçu-ES. Nas áreas cultivadas com banana, café e cacau, o fósforo total nos agregados chegou a 580 mg/kg na camada de 0–10 cm, enquanto a floresta apresentou 320 mg/kg. Entretanto, a maior parte do nutriente estava acumulada em formas menos disponíveis: o fósforo ocluso representou entre 44% e 55% do fósforo total nos agregados avaliados.
Principais resultados e informações do estudo em resumo
- Foram comparadas áreas de banana, café, cacau e floresta secundária
- 72 amostras foram obtidas nas camadas de 0–10 e 10–20 cm
- o fósforo total na camada superficial foi de 534 mg/kg na banana, 536 mg/kg no cacau, 580 mg/kg no café e 320 mg/kg na floresta
- o fósforo ocluso representou de 44% a 55% do fósforo total
- as frações SOLP, M3P e HClP somadas representaram apenas 3% a 6% do fósforo total
- o café apresentou 152,3 mg/kg de OHPi na camada de 0–10 cm
- floresta e café apresentaram maior adsorção de fósforo
- o cacau esteve associado a maiores valores de fósforo total e ocluso
- os autores recomendam mudanças na fertilização fosfatada e maior diversificação vegetal nas áreas cultivadas
Banana, café e cacau foram comparados com uma área de Mata Atlântica
O estudo avaliou o fósforo no solo agrícola de uma propriedade localizada em Ibiraçu, no Espírito Santo, em região de relevo ondulado a montanhoso.
Foram estudadas áreas cultivadas com banana, café Conilon e cacau, além de fragmentos de floresta secundária da Mata Atlântica utilizados como referência. Para cada cobertura foram selecionadas três subáreas, totalizando 12 unidades de amostragem.
As bananeiras eram cultivadas havia pelo menos 25 anos, o café havia pelo menos 30 anos e o cacau havia no mínimo oito anos. A cultura anterior nas áreas de cacau era a banana. As três culturas eram manejadas convencionalmente, sem mecanização entre o plantio e a colheita.
A coleta foi realizada em dezembro de 2020 nas camadas de 0–10 e 10–20 cm. No total, foram obtidas 72 amostras, e o estudo concentrou as análises nos agregados de solo com tamanho entre 4 e 8 mm.
Áreas cultivadas apresentaram mais fósforo total que a floresta
Na camada de 0–10 cm, os agregados das áreas cultivadas apresentaram 534 mg/kg de fósforo total na banana, 536 mg/kg no cacau e 580 mg/kg no café. Na floresta secundária, o valor foi de 320 mg/kg.
Na camada de 10–20 cm, foram encontrados 491 mg/kg na banana, 506 mg/kg no cacau, 490 mg/kg no café e 314 mg/kg na floresta.
Estatisticamente, as três áreas cultivadas formaram o grupo com maior fósforo total nas duas profundidades, enquanto a floresta apresentou valores menores.
Os autores relacionam esse resultado principalmente ao histórico de sucessivas aplicações de fertilizantes fosfatados nas áreas agrícolas. A adubação aumentou os estoques de fósforo, mas parte considerável desse nutriente passou a integrar reservatórios de menor disponibilidade imediata para as plantas.
De 44% a 55% do fósforo estava na fração oclusa
O fósforo ocluso, classificado como uma fração não lábil, foi o principal reservatório do nutriente nos agregados estudados.
Na camada de 0–10 cm, essa fração representou 54% do fósforo total na banana, 47% no cacau, 49% no café e 44% na floresta.
Na camada de 10–20 cm, representou 55% na banana, 48% no cacau, 51% no café e 50% na floresta.
Em valores absolutos, a camada superficial apresentou 291,8 mg/kg de fósforo ocluso na banana, 289,5 mg/kg no cacau, 259,5 mg/kg no café e 151,2 mg/kg na floresta.
Essa forma possui baixa disponibilidade imediata porque está associada a ligações químicas muito estáveis. Assim, uma parcela expressiva do fósforo acumulado no sistema não constitui uma fonte de curto prazo facilmente acessível às plantas.
As formas mais prontamente disponíveis representaram pequena parcela do fósforo total
A soma das frações SOLP, M3P e HClP correspondeu a apenas 3% a 6% do fósforo total nos agregados das duas profundidades.
A fração SOLP representa o fósforo presente na solução e fracamente adsorvido, sendo uma das formas de disponibilidade mais imediata.
Na camada de 0–10 cm, foram encontrados 3,0 mg/kg de SOLP na banana, 3,0 mg/kg no cacau, 3,6 mg/kg no café e 2,4 mg/kg na floresta.
Na profundidade de 10–20 cm, a banana apresentou o maior valor, com 3,5 mg/kg, seguida por cacau, com 2,9 mg/kg; café, com 2,7 mg/kg; e floresta, com 1,4 mg/kg.
Os valores mostram que o aumento do estoque total de fósforo nas áreas cultivadas não significou que uma proporção equivalente desse nutriente estivesse presente nas formas de maior disponibilidade imediata.
O café acumulou mais fósforo inorgânico moderadamente lábil na superfície
A fração OHPi representa uma forma inorgânica moderadamente lábil de fósforo extraída com NaOH. Na camada de 0–10 cm, o café apresentou 152,3 mg/kg dessa fração, equivalente a 26% do fósforo total.
O cacau apresentou 112,7 mg/kg, ou 21%; a banana, 85,3 mg/kg, ou 16%; e a floresta, 67,2 mg/kg, correspondentes a 21%.
Os autores relacionam o maior acúmulo observado no café ao longo histórico de cultivo e de fertilização da área, que era manejada com a cultura havia pelo menos 30 anos.
Na análise multivariada, a área de café também apresentou forte associação com OHPi nas duas profundidades. Segundo o estudo, essa fração constitui um importante reservatório de fósforo, embora seja quimicamente mais estável do que as formas lábeis.
Floresta e café apresentaram maior capacidade de adsorver fósforo
A porcentagem de fósforo adsorvido também variou de acordo com a cobertura vegetal e a profundidade.
Na camada de 0–10 cm, a floresta apresentou 54% de fósforo adsorvido e o café 53%. Os valores foram significativamente maiores que os 44% observados na banana e os 45% no cacau.
Na camada de 10–20 cm, a floresta apresentou 62%, o café 57%, o cacau 50% e a banana 47%.
A adsorção representa a retenção do fósforo nos sítios de reação do solo. Características como quantidade e tipo de argila, óxidos de ferro e alumínio, acidez e matéria orgânica podem influenciar esse processo.
O estudo encontrou diferentes relações entre essas propriedades e as frações de fósforo, mostrando que a dinâmica do nutriente depende conjuntamente do manejo e das características do solo.
O cacau esteve mais associado ao fósforo total e ao fósforo ocluso
A análise de componentes principais permitiu avaliar simultaneamente as formas de uso do solo, as frações de fósforo e diferentes propriedades dos agregados.
Na camada de 0–10 cm, os conteúdos de fósforo total, SOLP e fósforo ocluso apresentaram associação mais forte com a área de cacau, enquanto OHPi esteve mais relacionado ao café.
Na camada de 10–20 cm, fósforo total e fósforo ocluso também foram mais associados ao cacau. SOLP e OHPo ficaram posicionados entre as áreas de banana e cacau, enquanto a floresta esteve principalmente associada à argila, ao carbono da fração ácido fúlvico e à diferença de pH.
As duas primeiras componentes principais explicaram conjuntamente 59,4% da variação na camada de 0–10 cm e 56,4% na camada de 10–20 cm.
Entre os componentes da matéria orgânica avaliados, o carbono da fração ácido fúlvico foi a propriedade que apresentou o maior número de correlações com as diferentes frações de fósforo.
O estudo recomenda rever a adubação fosfatada e diversificar as áreas agrícolas
Os resultados mostram que a fertilização fosfatada sucessiva, combinada às características dos solos das áreas cultivadas, aumentou o fósforo total e favoreceu o acúmulo do nutriente em formas moderadamente lábeis e não lábeis.
O predomínio do fósforo ocluso é particularmente importante porque essa fração representou entre 44% e 55% do fósforo total e não está prontamente disponível para as plantas. Assim, um estoque elevado de fósforo no solo não significa necessariamente elevada disponibilidade imediata do nutriente.
Os autores destacam a necessidade de modificar o tipo de fertilização fosfatada e adotar uma matriz agrícola com maior diversidade de espécies vegetais, citando sistemas agroflorestais como alternativa.
Também recomendam monitorar a dinâmica do fósforo e sua interação com as propriedades do solo, especialmente em agroecossistemas tropicais de regiões montanhosas. A atenção à área de café é destacada no artigo devido ao histórico prolongado de cultivo e ao acúmulo observado de formas mais estáveis de fósforo.
Perguntas que este estudo ajuda a responder
As áreas agrícolas tinham mais fósforo que a floresta?
Sim. Na camada de 0–10 cm, o fósforo total foi de 534 mg/kg na banana, 536 mg/kg no cacau e 580 mg/kg no café, enquanto a floresta apresentou 320 mg/kg. Na camada de 10–20 cm, os valores foram de 491, 506 e 490 mg/kg nas áreas cultivadas e 314 mg/kg na floresta.
Todo o fósforo acumulado nas áreas cultivadas estava prontamente disponível às plantas?
Não. A maior fração foi o fósforo ocluso, que representou entre 44% e 55% do fósforo total. Essa forma é considerada não lábil e possui baixa disponibilidade imediata. Além disso, SOLP, M3P e HClP somados corresponderam a apenas 3% a 6% do fósforo total nos agregados avaliados.
Qual cultivo apresentou maior fósforo total na camada superficial?
O café apresentou o maior valor numérico, com 580 mg/kg na camada de 0–10 cm, seguido por cacau, com 536 mg/kg, e banana, com 534 mg/kg. Entretanto, as três áreas cultivadas não diferiram estatisticamente entre si para fósforo total e todas apresentaram valores superiores aos 320 mg/kg encontrados na floresta.
Por que o café apresentou destaque nas formas mais estáveis de fósforo?
O café apresentou 152,3 mg/kg de fósforo inorgânico moderadamente lábil extraído com NaOH na camada de 0–10 cm, o maior valor entre as coberturas. Os autores relacionam esse resultado ao efeito acumulado das aplicações de fertilizantes e ao longo período de cultivo da área, mantida com café havia pelo menos 30 anos.
Que mudança de manejo os autores sugerem para essas áreas agrícolas?
Os autores recomendam modificar o tipo de fertilização fosfatada, ampliar a diversidade de espécies vegetais nas áreas cultivadas e monitorar a dinâmica do fósforo e sua relação com as propriedades do solo. O artigo cita a adoção de sistemas agroflorestais como estratégia de diversificação, com atenção especial às áreas de café em ambientes tropicais montanhosos.
Sobre o estudo original
- Título científico
- Soil-aggregate phosphorus and its correlation with edaphic properties in a mountainous agricultural area of southeastern Brazil
- Autores
- Silver Rodrigues Zandoná (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro); Luiz Alberto da Silva Rodrigues Pinto (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro); Robert Ferreira (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro); Gabriel Coutinho Oliveira de Lemos (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro); Isabella Silva Lopes (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro); Matheus Corrêa de Oliveira (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro); Eduardo Carvalho da Silva Neto (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro); Marcos Gervasio Pereira (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)
- Revista
- Revista Brasileira de Ciência do Solo
- Publicado em
- 06/10/2025
- DOI
- 10.36783/18069657rbcs20240174
Fonte e atribuição
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