Certificação orgânica do açaí valoriza o produto, mas ainda beneficia poucos ribeirinhos

Publicado no Código Científico em

A certificação orgânica do açaí consegue valorizar o produto e beneficiar os agricultores ribeirinhos da Amazônia?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Novidades e Ambiguidades na Especificação de um Recurso da Sociobiodiversidade Amazônica: o caso do açaí”, publicado na revista Ambiente & Sociedade em 2024.

Conclusão principal

A certificação orgânica do açaí abriu acesso a mercados diferenciados e está associada a benefícios para agricultores participantes, mas seu alcance ainda é limitado. No caso estudado em Cametá, no Pará, 31 agricultores da associação eram produtores orgânicos em 2020. Agricultores não associados permaneciam fora da assistência técnica e da certificação, embora parte de sua produção chegasse à mesma cadeia por meio de intermediários. O estudo mostra, assim, avanços acompanhados de contradições na valorização do açaí amazônico.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • 31 dos 35 associados eram produtores orgânicos em 2020
  • o açaí orgânico repassado da associação à cooperativa recebia acréscimo de 10% por lata
  • agricultores não associados ficavam fora da assistência técnica e da certificação
  • sistemas sombreados produziam açaí de melhor qualidade e permitiam produção na entressafra
  • a valorização do açaí convive com pressões pela intensificação da produção

A pesquisa investigou quem ganha e quem fica de fora da valorização do açaí

O foco foi entender como diferentes atores do Nordeste Paraense participam da valorização comercial do açaí e quais contradições aparecem nesse processo. Os pesquisadores observaram especialmente a parceria entre uma associação de produtores de Cametá e uma cooperativa de Tomé-Açu, criada para comercializar açaí certificado como orgânico e promover práticas de manejo sustentável.

A certificação orgânica do açaí foi analisada não apenas como um selo aplicado ao produto, mas como parte de uma mudança que envolve agricultores, intermediários, organizações, assistência técnica, formas de manejo e diferentes mercados. A pesquisa também comparou a situação dos agricultores associados com a dos ribeirinhos não associados. Essa comparação revelou uma questão central: enquanto os participantes da associação conseguem acessar certificação, orientação técnica e determinados mercados, outros produtores permanecem dependentes de intermediários, mesmo quando seu açaí acaba entrando nessa cadeia de comercialização.

21 entrevistas revelaram como funciona a cadeia do açaí no Nordeste Paraense

Os pesquisadores realizaram um estudo de caso no Nordeste Paraense, combinando pesquisa bibliográfica e documental com 21 entrevistas semiestruturadas feitas entre agosto e dezembro de 2020. Foram entrevistados 16 agricultores ribeirinhos não associados, três agricultores associados que também atuavam como intermediários e os presidentes de uma associação de produtores de açaí e de uma cooperativa agrícola.

A associação estudada fica em Cametá e a cooperativa parceira, em Tomé-Açu. A pesquisa acompanhou as diferentes formas de produzir e comercializar o fruto, observando tanto o mercado do açaí certificado quanto os canais convencionais e territoriais.

A análise também considerou as diferenças entre sistemas de manejo. De um lado estavam formas mais intensivas, voltadas ao aumento da produtividade; de outro, sistemas com maior presença de vegetação e sombreamento, relacionados no estudo à melhor qualidade do fruto. A partir dessas relações, os autores buscaram identificar as mudanças criadas pelos próprios atores locais e, principalmente, as ambiguidades que acompanham essas transformações.

A certificação avançou entre associados, mas grande parte dos produtores continua fora do sistema

A participação na produção orgânica cresceu dentro da associação estudada. Em 2010, 40% de seus membros eram certificados como produtores orgânicos de açaí. Em 2020, eram 31 associados, correspondentes a 90% dos membros. O alcance territorial, entretanto, continuava pequeno diante dos 12.889 estabelecimentos agropecuários e das mais de 100 ilhas existentes em Cametá.

A comercialização também apresentava diferenças. Na safra de 2021, atravessadores e associados-intermediários pagavam cerca de R$ 30 por lata de açaí. Cada lata corresponde a 14 kg. Quando o açaí orgânico era repassado da associação para a cooperativa, havia acréscimo de 10% por lata. Na feira e nas vendas para batedores artesanais, o acréscimo registrado foi de 33% na safra e de 200% na entressafra.

O manejo também fazia diferença. O estudo relaciona o açaí produzido em sistemas sombreados por outras espécies nativas a maior rendimento de polpa. Esses sistemas ainda conseguiam estender a produção à entressafra, embora com redução produtiva de aproximadamente 70% em relação à safra.

Ao mesmo tempo, agricultores não associados não recebiam a assistência técnica oferecida aos associados e tinham dificuldade para entrar na certificação orgânica. Parte do açaí comprado desses produtores era intermediada por associados e chegava à cooperativa, criando uma das principais contradições identificadas pelos pesquisadores.

Produzir mais açaí pode significar perder qualidade e biodiversidade

Os resultados mostram que aumentar a produção não é necessariamente o único caminho para valorizar o açaí. No território estudado, a intensificação do manejo aumenta a produtividade, mas o artigo a relaciona à redução da biodiversidade e à menor qualidade do fruto. Já os sistemas com maior sombreamento pela vegetação nativa produzem açaí de melhor qualidade e encontram espaço em mercados que reconhecem essa característica.

Isso cria um dilema para os agricultores: buscar maior volume ou preservar sistemas produtivos mais diversificados que favorecem a qualidade. Muitos produtores adotam situações intermediárias entre esses dois extremos.

A certificação orgânica do açaí acrescenta outra dimensão. Ela pode facilitar o acesso a mercados diferenciados e estimular práticas sustentáveis, mas esses benefícios não alcançam igualmente todos os ribeirinhos. No caso pesquisado, distância, falta de infraestrutura, assistência técnica limitada e formas já estabelecidas de intermediação dificultavam a entrada de mais agricultores no sistema.

A situação é especialmente importante para ribeirinhos que dependem do açaí como principal produto comercial

Os resultados são particularmente relevantes para agricultores ribeirinhos do território estudado porque o açaí é seu principal produto comercial. Os associados conseguem combinar diferentes canais de venda e têm acesso à assistência técnica oferecida na parceria entre associação e cooperativa. Os não associados enfrentam uma situação diferente: dependem mais de atravessadores e associados-intermediários e permanecem distantes da certificação. A localização também pesa. Segundo o estudo, quanto mais distante o agricultor vive da sede da associação, menores são suas possibilidades de participação efetiva, em um contexto no qual faltam infraestrutura de transporte e profissionais para ampliar o acompanhamento técnico.

O mesmo sistema que cria um mercado diferenciado também produz exclusões e contradições

O estudo chama atenção para uma característica que pode passar despercebida quando se observa apenas o crescimento do mercado de produtos orgânicos: criar um produto certificado e valorizado não significa que todos os produtores do território consigam participar igualmente desse processo.

A parceria entre associação e cooperativa gerou uma nova organização em torno da certificação, comercialização e manejo do açaí. Entre os associados, houve expansão da produção certificada, assistência técnica e acesso a mercados diferenciados. Ao mesmo tempo, agricultores não associados permaneceram fora de parte desses benefícios. A situação torna-se ainda mais contraditória porque a produção desses agricultores pode ser adquirida por associados-intermediários para atender à demanda existente. Dessa forma, a inovação organizacional convive com mecanismos que limitam a inclusão direta de novos produtores.

Valorizar o açaí exige olhar ao mesmo tempo para mercado, floresta e agricultores

A principal lição é que a valorização econômica de um produto da floresta envolve escolhas que ultrapassam o preço recebido pelo agricultor. No caso do açaí, os pesquisadores encontraram relações entre formas de comercialização, certificação, organização dos produtores, assistência técnica, qualidade do fruto e conservação da biodiversidade.

Os sistemas mais sombreados estavam associados à melhor qualidade do açaí, enquanto a intensificação do manejo aumentava a produtividade, mas era acompanhada por perda de biodiversidade e menor qualidade. A organização coletiva também fazia diferença: agricultores associados tinham acesso a benefícios que não estavam disponíveis da mesma maneira aos não associados. Por isso, o estudo defende a necessidade de formas de governança territorial capazes de envolver atores públicos, privados e associativos e evitar que a valorização comercial estimule práticas produtivas mais intensivas e predatórias.

O crescimento do mercado pode incentivar tanto práticas sustentáveis quanto maior pressão produtiva

A relevância está justamente na coexistência desses dois movimentos. A valorização do açaí cria oportunidades para mercados diferenciados, certificação e práticas de manejo associadas à conservação ambiental. A parceria analisada também favoreceu assistência técnica e ampliação de sistemas agroflorestais entre agricultores associados.

Por outro lado, a demanda crescente pode estimular a intensificação do manejo. No caso estudado, essa intensificação está relacionada à redução da biodiversidade e à perda de qualidade do fruto. Além disso, nem todos os agricultores conseguem acessar diretamente os benefícios proporcionados pela certificação. O trabalho mostra, portanto, que a valorização de um produto da sociobiodiversidade depende não apenas da expansão de seu mercado, mas também da maneira como produção, organizações e acesso às oportunidades são estruturados no território.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

O açaí orgânico dá mais dinheiro ao produtor?

No sistema analisado, havia uma valorização específica do produto certificado. Quando o açaí orgânico era repassado da associação para a cooperativa, recebia acréscimo de 10% por lata. Entretanto, esse não era o único mercado capaz de pagar mais. Em 2021, a feira e as vendas para batedores artesanais apresentaram acréscimos de 33% na safra e 200% na entressafra. Portanto, o estudo não permite afirmar simplesmente que a certificação sempre oferece o maior preço; diferentes canais, períodos do ano e características do produto influenciam sua valorização.

Por que o açaí produzido com mais sombra tem melhor qualidade?

O estudo relaciona a maior qualidade do fruto ao sombreamento proporcionado pela floresta nativa manejada pelos agricultores. O açaí desses sistemas apresenta melhor aparência física, maior rendimento de polpa e maior resistência ao ressecamento. Essa qualidade é reconhecida nos mercados territoriais e ajuda a explicar a preferência pelo produto e o maior valor pago por lata. Já a retirada de outras espécies para intensificar o açaizal aumenta a exposição dos frutos ao sol e está associada à redução da qualidade.

Produzir mais açaí pode prejudicar a floresta?

No caso analisado, a intensificação do manejo dos açaizais estava associada à redução da biodiversidade. Para aumentar a produção, outras espécies vegetais podem ser eliminadas, diminuindo o sombreamento e alterando a paisagem das áreas de várzea. O artigo relaciona esse processo a problemas ambientais e também à menor qualidade do próprio açaí. Os pesquisadores mostram, porém, que existem diferentes graus de manejo, e muitos agricultores trabalham em situações intermediárias entre sistemas mais próximos do monocultivo e sistemas agroflorestais mais diversificados.

Por que nem todos os produtores conseguem ter certificação orgânica?

A pesquisa identifica barreiras organizacionais e de infraestrutura. A associação tinha dificuldades para alcançar diretamente agricultores espalhados pelo território: faltavam uma lancha motorizada e recursos para combustível, e apenas dois técnicos da cooperativa parceira realizavam o acompanhamento dos agricultores associados. Os produtores não associados também ficavam fora das reuniões, palestras e da assistência técnica oferecida pela parceria. Além disso, quanto maior a distância da sede da associação, menores eram as possibilidades de participação efetiva. Esses fatores ajudavam a manter muitos ribeirinhos dependentes de intermediários.

Qual é a principal contradição encontrada na comercialização do açaí?

Uma das principais contradições é que agricultores não associados permanecem fora da certificação e da assistência técnica, mas parte de seu açaí é comprada por associados-intermediários para atender à demanda da cooperativa. O artigo relata que, nessa intermediação, a produção certificada pode acabar misturada ao açaí não certificado, contrariando o acordo entre as organizações e as regras dos sistemas de produtos orgânicos. Ao mesmo tempo, essa intermediação facilita a venda para produtores que vivem longe dos mercados, mostrando por que os autores consideram o processo simultaneamente inovador e ambíguo.

Sobre o estudo original

Título científico
Novidades e Ambiguidades na Especificação de um Recurso da Sociobiodiversidade Amazônica: o caso do açaí
Autores
Renato dos Prazeres Rodrigues (Universidade Federal do Pará, Belém, PA, Brasil.); Monique Medeiros (Universidade Federal do Pará, Belém, PA, Brasil.); Ademir Antonio Cazella (Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.); Marja Zattoni Milano (Instituto Federal Catarinense, Rio do Sul, SC, Brasil.)
Revista
Ambiente & Sociedade
Publicado em
2024
DOI
10.1590/1809-4422asoc01762vu27l5td

Fonte e atribuição

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