Alimentos orgânicos de Curitiba: de onde vêm e qual é o impacto ambiental do transporte?
De onde vêm os alimentos orgânicos comercializados na CEASA de Curitiba e como o transporte e a produção contribuem para seus impactos ambientais?
Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Impactos Ambientales de los Teleacoplamientos del Sistema de Consumo Urbano de Alimentos Orgánicos”, publicado na revista Ambiente & Sociedade em 2023.
Os orgânicos comercializados na CEASA de Curitiba vieram principalmente de municípios próximos, o que contribuiu para que os pesquisadores considerassem baixo o impacto ambiental do transporte no sistema analisado. Entre janeiro e outubro de 2020, foram identificados 18 produtos provenientes de 46 cidades e cinco estados. A pesquisa estimou o consumo de energia e as emissões do transporte, além das pegadas energética e de carbono associadas aos alimentos. Os resultados mostram que a origem, a quantidade transportada e as perdas são importantes para compreender o impacto ambiental dos orgânicos.
Principais resultados e informações do estudo em resumo
- Foram identificados 18 produtos orgânicos provenientes de 46 cidades e cinco estados
- a maior parte do abastecimento analisado veio de municípios próximos a Curitiba
- a massa total considerada nos cálculos das pegadas foi de 260,63 toneladas
- a pegada energética estimada foi de 521.522,40 MJ
- a pegada de carbono estimada foi de 65.291,86 kg de CO₂
O caminho dos orgânicos até Curitiba revela impactos que não aparecem na hora da compra
A pesquisa investigou as conexões entre os locais de produção de alimentos orgânicos e a CEASA de Curitiba, no Paraná. O foco foi compreender como os produtos chegam ao mercado urbano e quais impactos ambientais estão associados a esse abastecimento.
Os pesquisadores utilizaram o conceito de teleacoplamento, que descreve as relações entre lugares conectados por fluxos de produtos, recursos e pessoas. No caso dos alimentos, isso significa observar a ligação entre o município produtor e o local onde a mercadoria é recebida.
A investigação considerou as quantidades comercializadas, as cidades de origem, as distâncias percorridas e as perdas de alimentos. Também estimou a energia consumida e as emissões geradas pelo transporte, além das pegadas energética e de carbono dos produtos. O objetivo não foi comparar dietas ou medir diretamente a saúde dos consumidores, mas tornar visíveis os impactos ambientais relacionados ao abastecimento de orgânicos.
Dados de comercialização e distâncias permitiram estimar energia e emissões
Os pesquisadores utilizaram registros do PROHORT, programa ligado à Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), para identificar os alimentos orgânicos comercializados na CEASA de Curitiba entre janeiro e outubro de 2020. Os dados informavam os produtos, as quantidades em quilogramas e os municípios de procedência.
As distâncias entre as cidades de origem e Curitiba foram levantadas com o Google Maps. As perdas foram estimadas com base em referências sobre comercialização de hortifrutícolas. Para calcular o consumo energético do transporte, foi adotado um coeficiente de caminhão pesado a diesel, considerando a massa transportada e a distância percorrida. As emissões foram estimadas por meio de fatores de emissão de poluentes.
As pegadas energética e de carbono foram calculadas separadamente, utilizando coeficientes por quilograma de alimento obtidos na literatura científica. Como havia escassez de dados nacionais, parte desses coeficientes veio de estudos internacionais. Os fluxos de origem e destino também foram representados em mapas com o software QGIS. Assim, os resultados são estimativas construídas a partir de dados de comercialização e parâmetros técnicos, e não medições diretas de cada caminhão ou propriedade.
A proximidade dos fornecedores reduziu as distâncias do abastecimento analisado
Foram identificados 18 tipos de alimentos orgânicos, provenientes de 46 cidades distribuídas pelo Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo. Os municípios de Colombo, Piraquara, Mandirituba, Morretes e São José dos Pinhais se destacaram no envio de produtos. A predominância de origens próximas a Curitiba levou os autores a considerar baixo o impacto ambiental do transporte no sistema estudado.
Os cinco produtos com maiores quantidades registradas foram alface, tomate, vagem, abobrinha e rúcula. A alface liderou o volume, com 98.061 kg, seguida pelo tomate, com 40.940 kg, e pela vagem, com 28.108 kg. A massa total considerada nos cálculos das pegadas, incluindo as perdas estimadas, foi de 260,63 toneladas.
A pegada energética total foi estimada em 521.522,40 MJ. A alface apresentou a maior contribuição, com 30,48% desse total. A pegada de carbono foi estimada em 65.291,86 kg de CO₂, sendo a vagem responsável pela maior contribuição individual, de 27,55%.
O cálculo específico das emissões do transporte resultou em 315.105,27 g de CO₂, além de estimativas para outros poluentes. Esses valores não devem ser confundidos com a pegada de carbono dos produtos, pois representam componentes distintos da análise. Os autores observaram que maiores quantidades, perdas e distâncias estavam relacionadas a maiores impactos estimados.
Comprar orgânicos também envolve considerar a origem e o caminho percorrido
O resultado mostra que a forma de produção não é o único aspecto relevante para avaliar o impacto ambiental de um alimento. A distância até o mercado, a quantidade transportada e as perdas também fazem parte dessa avaliação.
No abastecimento analisado, a presença de fornecedores próximos a Curitiba contribuiu para um resultado considerado favorável pelos autores. Isso reforça a importância de conhecer a procedência dos produtos e de organizar cadeias de distribuição que evitem deslocamentos desnecessários.
Para o consumidor, a principal implicação é que a origem pode acrescentar uma informação útil à escolha de alimentos orgânicos. Para produtores e comerciantes, o estudo destaca a relevância da logística, da conservação e do planejamento das entregas. A pesquisa, porém, não estabelece que todo alimento local tenha necessariamente menor impacto ambiental que qualquer alimento vindo de longe; ela apresenta estimativas para um sistema específico de abastecimento.
Os resultados ajudam consumidores e gestores a compreender o abastecimento regional
Os achados são especialmente relevantes para quem compra orgânicos em Curitiba e deseja compreender a procedência dos alimentos, além de produtores, comerciantes e responsáveis pela distribuição de hortifrutícolas na região.
Também oferecem informações para gestores públicos que planejam mercados de abastecimento, políticas de produção regional e estratégias de redução de impactos ambientais. O levantamento permite observar quais municípios participam do fornecimento e como as distâncias se relacionam com os volumes comercializados.
A aplicação direta dos números, entretanto, corresponde à CEASA de Curitiba e ao período de janeiro a outubro de 2020. Outros mercados, cidades ou períodos podem apresentar origens, volumes e condições logísticas diferentes.
A pesquisa acrescenta emissões do transporte ao estudo das conexões entre cidades
A contribuição do trabalho está em transformar as conexões entre produção e consumo em estimativas ambientais concretas. Em vez de apenas identificar de onde vêm os alimentos, os pesquisadores relacionaram volumes, distâncias e perdas ao consumo de energia e às emissões do transporte.
A abordagem também incorporou pegadas energética e de carbono dos produtos e representou espacialmente os fluxos de abastecimento. Os autores destacam que estudos quantitativos sobre teleacoplamentos urbanos, especialmente envolvendo alimentos orgânicos, ainda eram pouco frequentes na literatura.
O estudo oferece, portanto, um procedimento que pode servir de referência para avaliações em outras localidades, desde que sejam utilizados dados e coeficientes adequados a cada contexto.
A sustentabilidade dos alimentos depende também da organização da cadeia de abastecimento
A principal lição é que o impacto ambiental de um alimento não termina na propriedade rural. O transporte até o mercado, as distâncias percorridas e as perdas fazem parte do sistema que permite ao consumidor encontrar o produto.
No caso da CEASA de Curitiba, o abastecimento predominantemente regional contribuiu para que as emissões do transporte fossem consideradas de baixo impacto pelos autores. Ao mesmo tempo, os resultados mostram que produtos movimentados em maiores quantidades podem representar parcelas importantes das pegadas totais.
Isso sugere que conhecer a origem e melhorar a logística são caminhos relevantes para compreender e administrar os impactos do abastecimento. A pesquisa também demonstra a utilidade de reunir dados de comercialização e indicadores ambientais para tornar essas relações mais transparentes, sem presumir que a certificação orgânica elimine todos os impactos.
O estudo torna mensurável uma parte pouco visível do consumo de orgânicos
A relevância está em mostrar que decisões de abastecimento conectam diferentes municípios e produzem impactos ambientais que não são percebidos diretamente no ponto de venda. Ao estimar energia e emissões, a pesquisa oferece informações que podem apoiar o planejamento da distribuição e a avaliação de cadeias regionais de alimentos.
Os autores também destacam a dificuldade de encontrar coeficientes nacionais adequados para esse tipo de cálculo. Por isso, o trabalho contribui para o desenvolvimento de métodos e para a identificação de necessidades de dados mais específicos sobre a realidade brasileira. Seus resultados constituem uma referência inicial para comparações futuras, e não uma medida universal do impacto de todos os orgânicos.
Perguntas que este estudo ajuda a responder
Os alimentos orgânicos vendidos em Curitiba vêm de perto ou de longe?
Na CEASA de Curitiba, a maior parte dos orgânicos analisados veio de municípios próximos à cidade. A pesquisa identificou fornecedores de 46 cidades em cinco estados, mas destacou a importância de Colombo, Piraquara, Mandirituba, Morretes e São José dos Pinhais no abastecimento. Isso significa que a cadeia estudada tinha uma forte participação regional, embora também recebesse produtos de outras partes do Brasil. Os dados correspondem a janeiro a outubro de 2020 e não representam necessariamente todos os locais onde os consumidores de Curitiba compram orgânicos.
Um alimento orgânico pode causar impacto ambiental mesmo sendo produzido sem agrotóxicos?
Sim. A pesquisa explica que os alimentos orgânicos também estão associados a impactos ambientais ao longo da cadeia de produção e consumo. O transporte utiliza energia e gera emissões, enquanto as perdas de alimentos e os processos de produção também entram na avaliação das pegadas ambientais. Por isso, a certificação orgânica não significa ausência de impacto. O estudo não questiona os atributos da produção orgânica, mas acrescenta uma dimensão importante: compreender como o alimento chega até o consumidor e quais recursos são utilizados nesse percurso.
Quais orgânicos tiveram maior peso nos resultados da pesquisa?
A alface, o tomate, a vagem, a abobrinha e a rúcula foram os cinco produtos com maiores quantidades registradas na comercialização analisada. A alface liderou o volume, com 98.061 kg, e também apresentou a maior contribuição para a pegada energética total, de 30,48%. Já a vagem teve a maior participação na pegada de carbono estimada, com 27,55%. Esses resultados consideram as quantidades movimentadas e os coeficientes utilizados pelos pesquisadores. Eles não significam que esses produtos sejam necessariamente os mais poluentes por quilograma em qualquer sistema de produção.
Por que a distância entre a fazenda e o mercado importa?
Porque o deslocamento dos alimentos exige energia e gera emissões. No método utilizado pela pesquisa, o consumo energético do transporte foi estimado a partir da massa transportada, da distância percorrida e de um coeficiente de consumo de caminhão pesado a diesel. Assim, percursos mais longos podem aumentar o impacto estimado, especialmente quando envolvem grandes quantidades de produtos. Os autores observaram que a proximidade de boa parte dos fornecedores contribuiu para o resultado de baixo impacto do transporte na CEASA de Curitiba. Isso não permite afirmar que a distância seja o único fator ambiental relevante, mas mostra por que ela deve ser considerada.
O que o consumidor pode aprender com essa pesquisa na hora de comprar orgânicos?
A procedência do alimento é uma informação importante para compreender seu impacto ambiental. O estudo mostra que a origem, o transporte e as perdas fazem parte da cadeia de abastecimento, além da forma como o produto é cultivado. Para quem compra orgânicos, conhecer a região de produção pode ajudar a entender melhor o caminho percorrido até o mercado. A pesquisa também reforça a importância de sistemas de distribuição bem organizados e de informações transparentes sobre a origem. Ela não estabelece uma regra universal de compra, mas oferece evidências de que a logística deve fazer parte da discussão sobre sustentabilidade alimentar.
Sobre o estudo original
- Título científico
- Impactos Ambientales de los Teleacoplamientos del Sistema de Consumo Urbano de Alimentos Orgánicos
- Autores
- Anelise Schmitz (Universidade Federal do Paraná); Elaine Jordan (Universidade Tecnológica Federal do Paraná); Tatiana Maria Cecy Gadda (Universidade Tecnológica Federal do Paraná)
- Revista
- Ambiente & Sociedade
- Publicado em
- 2023
- DOI
- 10.1590/1809-4422asoc20220018r2vu2023l2ao
Fonte e atribuição
Esta página é uma explicação editorial original do estudo científico identificado acima e não substitui a leitura do trabalho original. Os dados, resultados e conclusões apresentados têm como fonte o artigo original, que permanece vinculado pelo DOI e/ou pela página da publicação.
