Desperdício de alimentos atinge 53% dos consumidores de cestas sustentáveis em Curitiba

Publicado no Código Científico em

Participar de uma comunidade de consumo sustentável ajuda a evitar o desperdício de alimentos em casa?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Comunidade que Sustenta a Agricultura e o desperdício de alimentos em Curitiba, Paraná”, publicado na revista Ambiente & Sociedade em 2025.

Conclusão principal

O desperdício de alimentos continuou frequente mesmo entre consumidores envolvidos em uma iniciativa de alimentação sustentável em Curitiba: 53% dos participantes declararam desperdiçar alimentos diariamente. A pesquisa com 144 consumidores de Comunidades que Sustentam a Agricultura mostrou ainda que permanecer mais tempo nesses grupos não pareceu eliminar o problema. Apesar disso, 88% demonstraram disposição para repensar o aproveitamento dos alimentos, indicando uma diferença importante entre intenção ambiental e comportamento cotidiano.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • 53% declararam desperdiçar alimentos diariamente
  • 50% disseram consumir todo o conteúdo das cestas recebidas
  • 42% desperdiçavam alguns produtos das cestas
  • 88% demonstraram disposição para repensar o aproveitamento dos alimentos
  • 55% destinavam os resíduos ao lixo comum

A pesquisa investigou se consumidores sustentáveis também desperdiçam alimentos

O estudo investigou os padrões de desperdício doméstico entre consumidores que participavam das Cestas Solidárias, uma modalidade de Comunidade que Sustenta a Agricultura no Núcleo Urbano Central de Curitiba. Nesse modelo, consumidores recebem periodicamente cestas fechadas fornecidas diretamente por agricultores orgânicos e agroecológicos.

Os pesquisadores buscaram entender como essas pessoas administravam a alimentação da família, quais alimentos eram desperdiçados, por que isso acontecia e o que faziam com os resíduos. Também observaram práticas consideradas importantes para reduzir o desperdício de alimentos, como elaborar listas de compras, planejar refeições e aproveitar integralmente os vegetais.

O interesse central estava em verificar o comportamento de um público já inserido em uma iniciativa orientada ao consumo sustentável. As comunidades aproximavam agricultores e consumidores e ofereciam espaços de interação e aprendizagem sobre sustentabilidade, mas a pesquisa procurou saber se esse envolvimento também se refletia nas práticas cotidianas dentro de casa.

144 consumidores de 29 grupos responderam ao questionário

A pesquisa foi exploratória e utilizou um questionário aplicado no primeiro semestre de 2020. Na época, havia 61 grupos de Comunidade que Sustenta a Agricultura registrados no projeto analisado, abastecidos por 25 agricultores. Os pesquisadores selecionaram 29 desses grupos, que reuniam uma população de 401 consumidores.

O questionário foi enviado diretamente aos participantes pelo WhatsApp, com adesão espontânea e anônima. Ao final, foram obtidas 144 respostas válidas. Segundo os autores, a amostra correspondia a 31,91% da população considerada e apresentava margem de erro de 5,51%, com nível de confiança de 90%.

Foram feitas 21 perguntas: 18 de múltipla escolha e três abertas. Elas abordavam três grandes aspectos: características socioeconômicas dos consumidores, gestão do consumo familiar e desperdício de alimentos. Como o método se baseou no que as próprias pessoas declararam, e não na pesagem direta dos resíduos descartados, os resultados descrevem os padrões e comportamentos relatados pelos participantes.

Mais da metade relatou desperdício diário apesar do interesse pelo consumo sustentável

O principal resultado foi a presença do desperdício mesmo em um grupo de consumidores ligado a práticas sustentáveis. Entre os entrevistados, 53% declararam desperdiçar alimentos diariamente. Os itens citados incluíam sobras de comida pronta, indicadas por 34%, partes de vegetais crus em mau estado de conservação, por 31%, e alimentos estragados, também por 31%.

Quando a pergunta se concentrou nos produtos recebidos nas cestas, 50% disseram consumir todo o conteúdo, 42% afirmaram desperdiçar alguns produtos e 8% relataram doar excedentes para evitar o descarte. Apenas 26% declararam ter o hábito de aproveitar integralmente os vegetais.

O problema não parecia decorrer simplesmente da ausência de planejamento. Embora 75% elaborassem listas de compras e 62% planejassem as refeições, apenas 37% dos que faziam listas e 32% dos que planejavam refeições declararam não desperdiçar alimentos.

Entre as causas relatadas estavam esquecer alimentos no armário ou na geladeira, citado por 23%; dificuldade para preparar determinados produtos da cesta, 20%; falta de planejamento, 18%; e ausência de rotina na cozinha, 17%.

Também havia interesse em mudar. Cerca de 88% apontaram a necessidade de repensar o reaproveitamento dos alimentos.

Planejar compras e refeições não foi suficiente para eliminar o desperdício

Os resultados mostram uma diferença entre querer consumir de maneira sustentável e conseguir transformar essa intenção em práticas domésticas consistentes. Os participantes já estavam inseridos em grupos que aproximavam consumidores de agricultores orgânicos e agroecológicos e muitos adotavam medidas como listas de compras e planejamento das refeições. Ainda assim, o desperdício de alimentos permanecia presente.

Problemas cotidianos ajudam a entender essa diferença. Esquecer produtos na geladeira, não saber preparar determinados alimentos da cesta e não ter uma rotina de cozinha estavam entre as razões relatadas para o descarte.

Isso ganha importância no modelo estudado porque as cestas são fechadas: os consumidores recebem produtos e quantidades definidos conforme a sazonalidade e a disponibilidade dos agricultores. Assim, aproveitar o conteúdo exige capacidade de adaptar as refeições aos alimentos recebidos. Os autores defendem que essas comunidades podem intensificar seu papel educativo, compartilhando conhecimentos que ajudem os participantes a transformar intenção sustentável em práticas efetivas.

O resultado é especialmente relevante para quem recebe cestas fechadas de alimentos

Os resultados ajudam principalmente a compreender consumidores que participam de Comunidades que Sustentam a Agricultura e recebem cestas fechadas de produtos orgânicos e agroecológicos. Nesse modelo, normalmente não é o consumidor quem escolhe individualmente cada alimento: as cestas seguem a sazonalidade e a disponibilidade da produção.

Isso exige adaptação da rotina doméstica. Entre os participantes, 20% citaram a dificuldade de preparar alguns itens da cesta como causa de desperdício. O perfil da amostra também deve ser considerado: 71% residiam em Curitiba, 80% eram mulheres e a faixa etária mais frequente era de 31 a 42 anos, representando 41% dos respondentes. Quase 80% declararam renda familiar superior a cinco salários-mínimos.

O estudo revela uma distância entre consciência ambiental e comportamento dentro de casa

A contribuição do estudo está em observar o desperdício entre pessoas que já participavam de uma experiência organizada em torno do consumo sustentável. Em vez de investigar apenas consumidores em geral, os pesquisadores analisaram integrantes de grupos que compravam diretamente de agricultores orgânicos e agroecológicos e tinham oportunidades de conversar sobre sustentabilidade.

Mesmo nesse contexto, o desperdício continuava presente. Os autores identificaram uma aparente desconexão entre práticas conscientes, como fazer listas e planejar refeições, e a redução efetiva do descarte.

O tempo de participação também não pareceu resolver sozinho o problema. Entre os consumidores que estavam nos grupos havia até um ano, 56% afirmaram desperdiçar alimentos; entre aqueles com mais de um ano de participação, a proporção foi de 45%. O artigo interpreta os resultados como evidência da necessidade de fortalecer o papel educativo dessas comunidades.

Ter consciência do problema não significa conseguir mudar os hábitos cotidianos

Uma das principais lições é que o consumo sustentável não termina na escolha de onde comprar o alimento. O que acontece depois da compra — armazenamento, preparo, aproveitamento das sobras e descarte — também determina se os alimentos serão efetivamente utilizados.

Os participantes apresentavam sinais claros de preocupação: 88% demonstraram disposição para repensar o aproveitamento dos alimentos. Ainda assim, 53% declararam desperdício diário. Para os autores, essa diferença ajuda a revelar uma lacuna entre intenção e comportamento.

O estudo também mostra oportunidades práticas dentro das próprias comunidades. Mais da metade dos participantes, 56%, conhecia os agricultores e conversava regularmente com eles. Esses espaços de contato podem servir para compartilhar orientações sobre armazenamento, preparo e aproveitamento dos produtos. Assim, além de fornecer alimentos, as comunidades podem funcionar como ambientes de aprendizagem para reduzir o desperdício de alimentos.

A maioria queria mudar, criando espaço para educação sobre consumo e aproveitamento

O resultado é relevante porque mostra que a preocupação ambiental, sozinha, não garante mudanças no cotidiano. Mesmo entre consumidores envolvidos com uma iniciativa de produção orgânica, agroecológica e comercialização direta, o desperdício continuava ocorrendo.

Ao mesmo tempo, os resultados indicam espaço para mudanças. Além dos 88% dispostos a repensar o aproveitamento dos alimentos, 80% demonstraram interesse em aprender mais sobre compostagem. Na época, 55% ainda destinavam os resíduos ao lixo comum, enquanto 23% praticavam compostagem.

Para os autores, as Comunidades que Sustentam a Agricultura podem aproveitar a interação já existente entre seus membros para ampliar a educação voltada ao consumo sustentável. A pesquisa conclui que o problema exige estratégias adaptadas aos diferentes contextos, e não uma solução única para todos os consumidores.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

Quem participou da pesquisa sobre desperdício de alimentos?

Participaram 144 consumidores vinculados a 29 grupos de Cestas Solidárias do Núcleo Urbano Central de Curitiba. Esses grupos faziam parte de uma população de 401 consumidores considerada pelos pesquisadores. A maioria dos respondentes morava em Curitiba, 80% eram mulheres e a faixa etária mais frequente era de 31 a 42 anos. O levantamento foi realizado no primeiro semestre de 2020 por meio de um questionário enviado pelo WhatsApp, com participação espontânea e anônima.

O que os consumidores mais desperdiçavam?

Entre os participantes que relataram desperdício, apareceram principalmente sobras de comida pronta, indicadas por 34%, partes de vegetais crus em mau estado de conservação, por 31%, e alimentos estragados, também por 31%. Quando os pesquisadores perguntaram especificamente sobre os produtos das cestas, metade dos participantes afirmou consumir tudo, enquanto 42% disseram desperdiçar alguns produtos e 8% relataram doar os excedentes para evitar o descarte.

Por que os alimentos acabavam sendo desperdiçados?

A causa mais citada foi esquecer alimentos no armário ou na geladeira, apontada por 23% dos participantes. Em seguida apareceram dificuldade de preparar alguns itens recebidos na cesta, com 20%; falta de planejamento, com 18%; e ausência de rotina na cozinha, com 17%. Também foram mencionadas falta de uma rotina familiar para as refeições, falta de tempo, imprevistos, alimentos deixados pelas crianças e outras situações domésticas. Os resultados mostram que o desperdício estava relacionado a diferentes aspectos da rotina, e não a uma única causa.

Fazer lista de compras e planejar as refeições evitou o desperdício?

Não necessariamente. Embora 75% dos consumidores afirmassem fazer listas de compras e 62% planejassem antecipadamente as refeições, apenas 37% daqueles que elaboravam listas e 32% daqueles que planejavam as refeições declararam não desperdiçar alimentos. Os autores consideraram que essas práticas, isoladamente, pareciam pouco eficientes para reduzir o desperdício no grupo pesquisado. O resultado ajuda a mostrar que ter uma prática associada ao consumo consciente não significa automaticamente conseguir evitar o descarte de alimentos no cotidiano.

Participar por mais tempo da comunidade reduziu o desperdício?

O estudo não encontrou indicação clara de que permanecer mais tempo nos grupos fosse suficiente para mudar o comportamento. Entre os consumidores que participavam havia até um ano, 56% declararam desperdiçar alimentos. Entre os que estavam nos grupos havia mais de um ano, essa proporção foi de 45%. Os autores afirmam que o maior tempo de participação pareceu não influenciar os hábitos de desperdício e apontam a necessidade de um papel pedagógico mais intenso das comunidades para estimular mudanças efetivas no consumo.

Sobre o estudo original

Título científico
Comunidade que Sustenta a Agricultura e o desperdício de alimentos em Curitiba, Paraná
Autores
Dailey Fischer (Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, PR, Brasil); Roberta Giraldi Romano (Universidade Santa Úrsula, Rio de Janeiro, RJ, Brasil); Mariana Monteiro Kugler Batista (Núcleo de Ecossocioeconomia (NEcos), Curitiba, PR, Brasil); Mario Prokopiuk (Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, PR, Brasil); Valerio Alecio Turnes (Universidade do Estado de Santa Catarina, SC, Brazil); Carlos Alberto Cioce Sampaio (Universidade Regional de Blumenau, Blumenau, SC, Brazil)
Revista
Ambiente & Sociedade
Publicado em
2025
DOI
10.1590/1809-4422asoc00882vu28l4oa

Fonte e atribuição

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