Agricultores orgânicos reconhecem melhor pragas do que inimigos naturais das lavouras

Publicado no Código Científico em

Agricultores orgânicos conseguem diferenciar pragas de insetos que ajudam no controle biológico?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Percepção e conhecimento sobre pragas e inimigos naturais por agricultores orgânicos ou em transição agroecológica”, publicado na revista Brazilian Journal of Biology em 26/05/2025.

Conclusão principal

Agricultores orgânicos reconheceram e identificaram melhor as pragas do que os inimigos naturais das lavouras. Entre 41 produtores orgânicos ou em transição agroecológica do norte do Paraná, pragas como Aphis gossypii e Bemisia tabaci foram corretamente classificadas por 100% dos entrevistados. Entre os insetos benéficos, os menores acertos chegaram a 19,5% para Orius spp. e 17,1% para um percevejo da família Reduviidae, revelando uma lacuna no conhecimento sobre organismos que participam do controle biológico.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • Foram entrevistados 41 agricultores orgânicos ou em transição agroecológica
  • Aphis gossypii e Bemisia tabaci foram corretamente identificadas como pragas por 100% dos produtores
  • Orius spp. foi corretamente identificado por 19,5%
  • um percevejo Reduviidae foi corretamente identificado como inimigo natural por 17,1%
  • escolaridade e assistência técnica não apresentaram diferenças significativas na identificação dos inimigos naturais

A pesquisa avaliou se produtores distinguem pragas de insetos benéficos

A pesquisa investigou o conhecimento de agricultores orgânicos ou em transição agroecológica sobre pragas e inimigos naturais, que são organismos capazes de contribuir para o controle das populações de insetos prejudiciais às culturas. O objetivo também foi verificar se características socioeconômicas dos produtores estavam relacionadas à capacidade de compreender o papel desses insetos no agroecossistema.

Participaram 41 produtores de hortaliças de municípios do norte do Paraná. Cada agricultor recebeu cartões com imagens de sete pragas e sete inimigos naturais. Primeiro, precisava informar se reconhecia o inseto apresentado. Depois, deveria classificá-lo como praga ou inimigo natural.

Os agricultores orgânicos demonstraram maior familiaridade com as pragas. A dificuldade foi maior justamente na identificação dos insetos benéficos, embora esse conhecimento seja importante para práticas de manejo que utilizam ou conservam organismos responsáveis pelo controle biológico.

Quatorze insetos foram apresentados em cartões a 41 produtores do norte do Paraná

A pesquisa foi realizada com 41 produtores de hortaliças certificados como orgânicos ou em processo de transição agroecológica nos municípios de Arapongas, Bandeirantes, Faxinal, Londrina e Sertaneja, no norte do Paraná. As entrevistas presenciais ocorreram entre novembro de 2022 e março de 2023.

Um questionário semiestruturado reuniu informações socioeconômicas, características das propriedades, métodos de manejo e acesso à assistência técnica. Para avaliar o conhecimento sobre insetos, foram utilizados 14 cartões: sete apresentavam pragas e sete, inimigos naturais. Cada cartão continha imagem ampliada, representação em tamanho real com escala e nome comum do inseto.

Os pesquisadores distinguiram reconhecimento de identificação. Reconhecer significava afirmar que já conhecia visualmente aquele inseto. Identificar corretamente exigia classificá-lo como praga ou inimigo natural. Depois, os resultados dos dois grupos foram comparados estatisticamente. Também foram avaliadas possíveis diferenças relacionadas à escolaridade e ao recebimento de assistência técnica.

Pragas tiveram os maiores acertos e inimigos naturais concentraram os menores

Os agricultores apresentaram diferença significativa tanto no reconhecimento quanto na identificação correta de pragas e inimigos naturais. Em média, o desempenho foi melhor para os insetos classificados como pragas.

Aphis gossypii e Bemisia tabaci foram corretamente identificadas como pragas por 100% dos entrevistados. Tuta absoluta alcançou 97,6% de acertos, Frankliniella sp., 95,1%, e Agrotis ipsilon, 92,7%. Assim, os cinco maiores percentuais de identificação correta pertenciam a pragas.

A situação foi diferente entre os inimigos naturais. Lebia concinna e Callida sp. foram corretamente classificadas por 53,7% dos agricultores. Para Allograpta sp., o percentual caiu para 36,6%. Orius spp. foi corretamente identificado por 19,5%, e o menor resultado ocorreu para um percevejo da família Reduviidae: apenas 17,1% dos entrevistados o classificaram corretamente como inimigo natural.

Reconhecer visualmente um inseto também não significou necessariamente compreender sua função. O percevejo Reduviidae, por exemplo, foi reconhecido por 73,2% dos agricultores, mas somente 17,1% o identificaram corretamente como inimigo natural.

A escolaridade não apresentou diferença estatisticamente significativa na identificação correta dos inimigos naturais. Também não houve diferença significativa entre agricultores que recebiam assistência técnica e aqueles que não recebiam.

Reconhecer um inseto não significa saber se ele ajuda ou prejudica a lavoura

Na prática, a pesquisa mostra que o conhecimento necessário para o controle biológico vai além de reconhecer visualmente os organismos encontrados na propriedade. O produtor precisa saber distinguir uma praga de um inimigo natural e compreender sua função no agroecossistema.

Essa diferença ficou evidente entre os agricultores orgânicos entrevistados. Alguns insetos benéficos eram visualmente conhecidos por parcela considerável dos produtores, mas poucos sabiam classificá-los corretamente. O percevejo da família Reduviidae foi reconhecido por 73,2% dos entrevistados, enquanto somente 17,1% o identificaram como inimigo natural.

Essa lacuna é importante porque os inimigos naturais participam do controle das populações de pragas. Os autores defendem que ações de assistência técnica e extensão rural deem maior atenção à identificação desses organismos e ao seu papel ecológico, permitindo que os agricultores compreendam melhor como conservá-los e favorecer sua atuação nas propriedades.

A lacuna de conhecimento é especialmente relevante para quem utiliza controle biológico

Os resultados são diretamente relevantes para produtores orgânicos e agricultores em transição agroecológica, especialmente aqueles que buscam utilizar estratégias de manejo integrado e controle biológico de pragas. Esses sistemas dependem de processos ecológicos e podem se beneficiar da conservação dos organismos que naturalmente atacam as pragas.

A pesquisa avaliou especificamente 41 horticultores de cinco municípios do norte do Paraná. Portanto, os percentuais encontrados descrevem esse grupo e não devem ser automaticamente atribuídos a todos os agricultores orgânicos.

Mesmo dentro dessa amostra, porém, ficou clara a diferença entre o conhecimento sobre pragas e inimigos naturais. Isso indica um tema específico que pode ser abordado em atividades de capacitação e extensão destinadas aos sistemas orgânicos e agroecológicos.

O estudo separou a capacidade de reconhecer o inseto da compreensão de sua função

Um aspecto importante do estudo foi não tratar reconhecimento e identificação como a mesma coisa. O agricultor poderia conhecer visualmente determinado inseto sem saber se ele era uma praga ou um organismo benéfico.

Essa distinção revelou uma lacuna que ficaria menos evidente se a pesquisa perguntasse apenas se os produtores conheciam cada espécie. Orius spp., por exemplo, foi reconhecido por 73,2% dos entrevistados, mas somente 19,5% o classificaram corretamente como inimigo natural. Para o percevejo da família Reduviidae, os percentuais foram 73,2% de reconhecimento e apenas 17,1% de identificação correta.

O estudo também relacionou esses resultados ao perfil dos entrevistados. Mesmo entre produtores com maior escolaridade e amplo acesso à assistência técnica, o conhecimento sobre a função ecológica dos inimigos naturais permaneceu limitado.

O principal desafio está em compreender quais insetos ajudam a controlar as pragas

A principal lição é que familiaridade com os insetos da lavoura não significa necessariamente conhecimento sobre suas funções ecológicas. Os produtores entrevistados demonstraram facilidade para reconhecer e identificar pragas, mas tiveram desempenho inferior com vários inimigos naturais.

Isso é particularmente relevante porque todos eram agricultores orgânicos ou em transição agroecológica, sistemas nos quais o controle biológico pode ter papel importante no manejo. Além disso, 90,2% dos entrevistados recebiam assistência técnica, mas a comparação não encontrou diferença significativa na identificação dos inimigos naturais entre produtores com e sem esse atendimento.

Os resultados levaram os autores a destacar a necessidade de ações de assistência técnica e extensão voltadas especificamente ao conhecimento sobre controle biológico, identificação de inimigos naturais e conservação de habitats capazes de favorecer esses organismos nas propriedades.

Conhecer os inimigos naturais é necessário para aproveitar melhor o controle biológico

O resultado é relevante porque inimigos naturais podem contribuir para controlar populações de pragas, mas seu papel pode ser pouco aproveitado quando os agricultores não conseguem identificá-los corretamente.

Entre os agricultores orgânicos avaliados, os menores percentuais de identificação correta ocorreram justamente entre organismos benéficos. Somente 19,5% classificaram corretamente Orius spp., e 17,1% reconheceram o percevejo Reduviidae como inimigo natural.

Os autores relacionam essa lacuna à necessidade de capacitação específica. A assistência técnica e a extensão rural podem trabalhar não apenas a identificação dos insetos, mas também as relações ecológicas entre pragas e inimigos naturais e práticas capazes de conservar ou criar habitats para esses organismos nas propriedades.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

Os agricultores identificaram melhor as pragas ou os insetos benéficos?

As pragas foram identificadas com maior facilidade. Aphis gossypii e Bemisia tabaci foram corretamente classificadas como pragas por 100% dos 41 agricultores. Tuta absoluta teve 97,6% de acertos e Frankliniella sp., 95,1%. Entre os inimigos naturais, alguns percentuais foram muito menores: Allograpta sp. teve 36,6% de identificação correta, Orius spp., 19,5%, e um percevejo da família Reduviidae, 17,1%.

O agricultor pode conhecer um inseto e não saber que ele é benéfico?

Sim. O estudo diferenciou reconhecimento visual de identificação da função ecológica. Orius spp., por exemplo, foi reconhecido por 73,2% dos agricultores, mas apenas 19,5% o classificaram corretamente como inimigo natural. O mesmo ocorreu com o percevejo da família Reduviidae: 73,2% afirmaram reconhecê-lo, porém somente 17,1% souberam identificá-lo como inimigo natural. Portanto, conhecer visualmente um inseto não significa necessariamente compreender seu papel na lavoura.

Ter mais escolaridade ajudou a identificar os inimigos naturais?

Não foi encontrada diferença estatisticamente significativa entre os níveis de escolaridade avaliados. A análise da identificação correta de inimigos naturais apresentou p-valor de 0,256. Isso significa que, dentro da amostra estudada, os pesquisadores não encontraram evidência de que agricultores com mais anos de estudo identificassem corretamente um número maior de inimigos naturais. O resultado se refere aos 41 produtores avaliados e às categorias de escolaridade utilizadas na pesquisa.

Receber assistência técnica melhorou a identificação dos insetos?

A pesquisa não encontrou diferença estatisticamente significativa na identificação dos inimigos naturais entre agricultores que recebiam assistência técnica e aqueles que não recebiam. Para as pragas, também não houve diferença significativa entre esses grupos. Isso não levou os autores a considerar a assistência técnica desnecessária. Ao contrário, eles defendem que as ações de extensão sejam mais direcionadas ao reconhecimento da função ecológica dos inimigos naturais e às estratégias de controle biológico.

Por que identificar inimigos naturais é importante na agricultura orgânica?

Porque esses organismos ajudam no controle natural das populações de pragas. Para aproveitar essa função, o agricultor precisa saber diferenciar insetos prejudiciais daqueles que atuam como agentes de controle biológico. O estudo mostrou que essa distinção ainda é limitada para alguns inimigos naturais entre os produtores entrevistados. Por isso, os autores destacam a importância de capacitações sobre controle biológico e de práticas que conservem ou criem habitats favoráveis aos insetos benéficos nas propriedades.

Sobre o estudo original

Título científico
Percepção e conhecimento sobre pragas e inimigos naturais por agricultores orgânicos ou em transição agroecológica
Autores
P. L. P. Teixeira (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná); F. A. Spagnuolo (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná); J. M. Ferreira (Universidade Estadual de Londrina); T. S. Telles (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná)
Revista
Brazilian Journal of Biology
Publicado em
26/05/2025
DOI
10.1590/1519-6984.293825

Fonte e atribuição

Esta página é uma explicação editorial original do estudo científico identificado acima e não substitui a leitura do trabalho original. Os dados, resultados e conclusões apresentados têm como fonte o artigo original, que permanece vinculado pelo DOI e/ou pela página da publicação.

Como este conteúdo foi preparado: esta página apresenta uma versão descomplicada e estruturada do estudo científico original, mantendo a referência ao trabalho de origem. O Código Científico organiza os achados para facilitar a leitura e a busca; para detalhes metodológicos completos, consulte o artigo original pelo DOI ou pela fonte indicada.