Consumidores de alimentos orgânicos ainda confundem confiança pessoal com garantia formal
Como os consumidores decidem se um alimento é realmente orgânico?
Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Trust relationships involving organic food consumers: a case study in Sorocaba (in the state of São Paulo)”, publicado na revista Revista de Economia e Sociologia Rural em 2022.
Consumidores de alimentos orgânicos de Sorocaba utilizavam tanto mecanismos institucionais, como selos e certificações, quanto relações pessoais com produtores e vendedores para estabelecer confiança. No levantamento on-line, 47% indicaram o selo ou certificado como forma de reconhecer produtos orgânicos e 40% mencionaram a credibilidade do vendedor. Entretanto, apenas 46% acreditavam que produtos orgânicos passavam por algum processo de certificação, revelando conhecimento limitado sobre os mecanismos formais de reconhecimento.
Principais resultados e informações do estudo em resumo
- O levantamento on-line reuniu 452 participantes válidos
- 363 eram moradores de Sorocaba
- 90 consumidores foram entrevistados posteriormente
- 47% associaram o reconhecimento do orgânico ao selo ou certificado
- 40% mencionaram a credibilidade do vendedor
- apenas 46% acreditavam que produtos orgânicos passavam por algum processo de certificação
O estudo investigou como consumidores constroem confiança nos alimentos orgânicos
A pesquisa analisou as formas de confiança utilizadas por consumidores de alimentos orgânicos em Sorocaba, no estado de São Paulo. O interesse central estava em compreender como as pessoas decidem se um produto é realmente orgânico e qual é o papel da informação nesse processo.
O estudo diferencia duas formas principais de confiança. Uma delas é institucional e se apoia em mecanismos formais de reconhecimento, como certificações e selos. A outra é interpessoal e se desenvolve a partir da proximidade entre consumidores e produtores ou vendedores.
Os resultados mostram que as duas formas coexistem no mercado de alimentos orgânicos. Em cadeias mais longas, mecanismos institucionais assumem maior importância. Em espaços de comercialização direta, especialmente nas feiras, conversas, troca de informações e relações pessoais podem desempenhar papel central na construção da confiança.
Um levantamento com 452 participantes foi complementado por 90 entrevistas
A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas. Primeiro, um levantamento on-line exploratório ficou disponível durante fevereiro de 2018. A amostragem foi não probabilística e por conveniência. Foram obtidas 452 respostas válidas, das quais 363 eram de moradores de Sorocaba. Também participaram residentes de Araçoiaba, Iperó, Salto de Pirapora e Votorantim.
Na etapa principal, realizada entre fevereiro e maio de 2019, foram conduzidas 90 entrevistas semiestruturadas com pessoas que procuravam incluir alimentos orgânicos em suas dietas. A seleção considerou diferentes locais e formas de aquisição.
Foram abordados consumidores das cinco feiras orgânicas existentes em Sorocaba naquele período, de uma loja especializada, de uma Comunidade que Sustenta a Agricultura, de entregas domiciliares e de supermercados. As entrevistas investigaram motivações, frequência de consumo, locais de compra, critérios de escolha e dificuldades encontradas para consumir alimentos orgânicos.
Os depoimentos foram transcritos e analisados por meio de análise de conteúdo.
Feiras eram o principal local de compra dos consumidores entrevistados
Entre os participantes do levantamento on-line, 62% compravam alimentos orgânicos em feiras, 47% em supermercados, 26% em lojas especializadas e 9% por meio de cestas. Quanto à frequência, 49% foram classificados como consumidores frequentes e 49% como ocasionais, enquanto 2% declararam não consumir esses alimentos.
Entre as 90 pessoas entrevistadas posteriormente, as feiras apresentaram participação ainda maior: 81% compravam orgânicos nesses espaços. Supermercados foram mencionados por 43%, lojas especializadas por 18% e a Comunidade que Sustenta a Agricultura por 17%.
Verduras e legumes apareceram entre os produtos adquiridos com maior frequência. Frutas foram menos mencionadas, enquanto alimentos processados, grãos e produtos de origem animal tiveram participação ainda menor.
Entre os entrevistados, 79% foram classificados como consumidores frequentes de alimentos orgânicos e 21% como consumidores ocasionais.
Selo e confiança no vendedor são utilizados para reconhecer os produtos orgânicos
O levantamento mostrou duas referências importantes para a confiança do consumidor. Quando questionados sobre o reconhecimento dos produtos orgânicos, 47% dos participantes mencionaram selo ou certificado, enquanto 40% indicaram a credibilidade do vendedor.
As relações pessoais ganharam importância especialmente nas feiras. O diálogo com os feirantes, a possibilidade de obter informações diretamente e até o desenvolvimento de relações de amizade apareciam nas entrevistas como elementos capazes de fortalecer a confiança.
Ao mesmo tempo, os mecanismos institucionais continuam desempenhando papel importante. Eles permitem que a qualidade orgânica seja reconhecida formalmente sem depender exclusivamente da relação pessoal entre quem produz e quem compra.
O estudo mostra, portanto, que a confiança nos alimentos orgânicos pode ser construída por caminhos diferentes e que esses caminhos frequentemente coexistem.
Menos da metade relacionou os produtos orgânicos a um processo de certificação
Quando os participantes do levantamento on-line foram questionados sobre os critérios utilizados para identificar um alimento orgânico, 90% mencionaram ausência de agrotóxicos e 67% apontaram o não uso de fertilizantes industriais. Apenas 46% acreditavam que esses produtos passavam por algum processo de certificação orgânica.
Os autores interpretam esse resultado como indicação de conhecimento limitado sobre o reconhecimento formal da produção orgânica entre parcela dos consumidores pesquisados. A ideia de que um produto orgânico seria essencialmente aquele produzido sem agrotóxicos não contempla integralmente os critérios utilizados para definir formalmente a produção orgânica.
Essa falta de clareza pode dificultar a diferenciação entre produtos formalmente reconhecidos como orgânicos e alimentos comercializados com outras denominações ou alegações relacionadas à forma de produção.
A confiança interpessoal pode fortalecer as feiras, mas não substitui automaticamente a informação
A proximidade entre produtor e consumidor favorece a construção de relações pessoais de confiança. Nas feiras estudadas, conversas, troca de informações e familiaridade com os vendedores apareciam como elementos importantes para a decisão de compra.
Entretanto, o estudo chama atenção para uma diferença fundamental: confiar em uma pessoa não significa necessariamente possuir informações suficientes para verificar se determinado alimento atende aos requisitos da produção orgânica.
Os autores encontraram situações em que consumidores desconfiavam dos mecanismos formais e preferiam confiar diretamente nos produtores. Em um dos casos analisados, um consumidor acreditava comprar alimentos orgânicos de uma horta urbana por confiar no fornecedor, embora a pesquisa tenha constatado que aquela produção não era orgânica.
Assim, relações interpessoais podem ser importantes para o mercado de orgânicos, mas a confiança sem informação suficiente pode produzir interpretações equivocadas sobre a qualidade do produto.
A falta de informação cria espaço para um mercado informal de produtos apresentados como orgânicos
As entrevistas permitiram identificar transações realizadas fora do mercado formal de produtos orgânicos. Entre os exemplos estavam vendedores ambulantes, horticultores urbanos, vizinhos ou familiares com hortas domésticas e vendedores presentes em feiras convencionais.
Nessas situações, a confiança podia ser construída diretamente entre consumidor e fornecedor, mesmo sem mecanismos formais de reconhecimento da produção orgânica.
Os autores destacam que os produtos comercializados nesses circuitos podem eventualmente seguir práticas compatíveis com a produção orgânica, mas também podem não atender aos requisitos necessários. Sem mecanismos de reconhecimento ou informação suficiente, o consumidor encontra dificuldade para distinguir essas situações.
O problema se torna mais relevante quando a confiança pessoal é utilizada como única referência para decidir se um alimento é orgânico.
Informação insuficiente pode favorecer uma confiança pouco reflexiva na compra de orgânicos
O artigo utiliza a ideia de confiança cega para discutir situações nas quais consumidores acreditam na qualidade orgânica de determinado alimento sem possuir informações suficientes para avaliar essa condição.
Os resultados mostram que parte dos consumidores conhecia pouco os mecanismos formais de reconhecimento. Apenas 46% dos participantes do levantamento on-line acreditavam que os produtos orgânicos passavam por algum processo de certificação, enquanto 90% associavam esses alimentos à ausência de agrotóxicos.
Na interpretação dos autores, a falta de informação adequadamente disponível pode criar falsas certezas e favorecer tanto equívocos quanto oportunidades para dissimulações e fraudes.
Por isso, o estudo destaca a importância de ampliar a informação sobre o que caracteriza um alimento orgânico e sobre os mecanismos utilizados para seu reconhecimento formal.
Perguntas que este estudo ajuda a responder
Como os consumidores reconhecem um alimento orgânico?
No levantamento realizado pelo estudo, 47% dos participantes mencionaram o selo ou certificado orgânico como referência para reconhecer esses produtos, enquanto 40% consideravam a credibilidade do vendedor. Outros critérios também apareceram: 90% relacionavam os alimentos orgânicos à ausência de agrotóxicos e 67% ao não uso de fertilizantes industriais. Os resultados mostram que os consumidores utilizavam tanto mecanismos formais quanto características atribuídas aos produtos e relações pessoais com os vendedores.
Os consumidores conheciam bem a certificação orgânica?
Os resultados indicaram conhecimento limitado entre parcela dos participantes. Apenas 46% acreditavam que os produtos orgânicos passavam por algum processo de certificação. Os autores destacam que muitos consumidores entendiam o alimento orgânico principalmente como aquele produzido sem agrotóxicos, uma definição que não contempla integralmente os requisitos relacionados ao reconhecimento formal da produção orgânica.
As feiras eram importantes para a compra de produtos orgânicos?
Sim. Entre os participantes do levantamento on-line, 62% compravam orgânicos em feiras. Entre os 90 consumidores entrevistados posteriormente, esse percentual chegou a 81%. As feiras também funcionavam como espaços de interação entre produtores e consumidores, permitindo conversas, troca de informações e desenvolvimento de relações pessoais que contribuíam para a construção da confiança.
Confiar no produtor garante que um alimento seja orgânico?
Não necessariamente. O estudo mostra que a confiança interpessoal pode ser importante na relação entre consumidores e produtores, mas também identificou situações em que consumidores acreditavam comprar produtos orgânicos apenas por confiarem no fornecedor, sem informação suficiente sobre a produção. Os autores ressaltam que o reconhecimento formal, por certificação ou pelos mecanismos previstos para comercialização direta, é importante para reduzir incertezas sobre a qualidade orgânica.
Qual é o risco da falta de informação sobre alimentos orgânicos?
Segundo o estudo, a falta de informação pode levar consumidores a confundir alimentos formalmente reconhecidos como orgânicos com produtos comercializados informalmente como se fossem orgânicos. Isso cria espaço tanto para produtores que eventualmente seguem práticas orgânicas sem reconhecimento formal quanto para situações de dissimulação. Os autores destacam que ampliar o conhecimento sobre as características dos produtos orgânicos e seus mecanismos de reconhecimento é importante para reduzir essas incertezas.
Sobre o estudo original
- Título científico
- Trust relationships involving organic food consumers: a case study in Sorocaba (in the state of São Paulo)
- Autores
- Rodrigo Brezolin Buquera (Universidade de São Paulo); Paulo Eduardo Moruzzi Marques (Universidade de São Paulo)
- Revista
- Revista de Economia e Sociologia Rural
- Publicado em
- 2022
- DOI
- 10.1590/1806-9479.2021.251225
Fonte e atribuição
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