Alimentos orgânicos em Florianópolis custaram R$ 5,80/kg em modelo de venda direta
A venda direta pode tornar alimentos orgânicos mais acessíveis e, ao mesmo tempo, beneficiar agricultores familiares?
Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Organic markets social construction: the case of Responsible Consumer Cells in Florianópolis-SC”, publicado na revista Revista de Economia e Sociologia Rural em 2021.
Os alimentos orgânicos em Florianópolis comercializados pelas Células de Consumidores Responsáveis (CCR) tinham preço médio de R$ 5,80/kg, abaixo dos R$ 9,67/kg das feiras, R$ 12,82/kg das lojas especializadas e R$ 23,00/kg dos supermercados no comparativo utilizado pelo estudo. Ao eliminar intermediários e trabalhar com cestas encomendadas e pagas antecipadamente, a iniciativa também oferecia venda garantida aos agricultores familiares. Em um ano, a CCR da UFSC Trindade passou de 27 para 143 cestas.
Principais resultados e informações do estudo em resumo
- A CCR UFSC Trindade passou de 27 para 143 cestas em um ano
- o preço médio nas CCR era de R$ 5,80/kg
- o comparativo registrou R$ 9,67/kg nas feiras e R$ 23,00/kg nos supermercados
- 34 de 39 respondentes disseram ter mudado hábitos alimentares após aderir à CCR
- a venda antecipada dava maior previsibilidade aos agricultores
As Células foram estudadas como alternativa para aproximar quem produz de quem consome
A pesquisa analisou as Células de Consumidores Responsáveis (CCR), iniciativa desenvolvida pelo Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar da Universidade Federal de Santa Catarina (LACAF-UFSC). O objetivo foi entender como esse modelo contribuía para construir um mercado de alimentos orgânicos e agroecológicos em Florianópolis.
O funcionamento é diferente de uma compra convencional. Os consumidores fazem pedidos e pagamentos antecipadamente e recebem semanalmente cestas fechadas, compostas conforme a disponibilidade e a sazonalidade da produção. Agricultores e consumidores também assumem responsabilidades compartilhadas na organização das Células.
Entre as dez CCR existentes no período analisado, os pesquisadores concentraram a investigação na CCR-UFSC Trindade, a primeira criada no modelo de venda direta por pedido antecipado e aquela com maior número de consumidores. A pesquisa examinou não apenas preços e comercialização, mas também confiança, proximidade, mudanças no consumo e organização entre agricultores e consumidores.
Questionários, entrevistas e participação direta permitiram acompanhar o funcionamento da iniciativa
A pesquisa combinou diferentes fontes de informação. Os autores realizaram revisão bibliográfica, analisaram documentos e dados do LACAF, entrevistaram agricultores, examinaram materiais audiovisuais e fizeram observação participante junto a consumidores e produtores envolvidos nas Células.
Para aprofundar a análise, selecionaram a CCR-UFSC Trindade entre as dez Células existentes. Questionários online foram enviados aos seus 99 consumidores. Os dados foram coletados e tabulados entre fevereiro e julho de 2018. Foram obtidas 23 respostas sobre o perfil socioeconômico e 39 respostas sobre as motivações para participar do projeto. Também foram utilizadas atas de reuniões, anotações e diários de campo.
O estudo acompanhou ainda a evolução da iniciativa e utilizou dados de preços de alimentos orgânicos no varejo de Florianópolis para comparar o modelo das CCR com feiras, lojas especializadas e supermercados. Essa combinação permitiu observar aspectos econômicos e também as relações sociais construídas pelo sistema de comercialização.
As cestas cresceram mais de cinco vezes e custavam menos por quilo que outros canais comparados
A CCR-UFSC Trindade começou com 27 cestas e chegou a 143 entre 23 de novembro de 2017 e 22 de novembro de 2018. A procura chegou a gerar uma lista de espera de aproximadamente 15 pessoas, porque o grupo de agricultores não conseguia atender toda a demanda. Os autores também registraram aumento da arrecadação das famílias que abasteciam três CCR.
O preço foi outro resultado importante. No comparativo utilizado pelo estudo, entre junho e setembro de 2018, os alimentos orgânicos custavam em média R$ 9,67/kg nas feiras, R$ 12,82/kg nas lojas especializadas e R$ 23,00/kg nos supermercados. Nas CCR, o valor médio era de R$ 5,80/kg.
Usando como referência uma cesta orgânica de 8,4 kg, os autores calcularam R$ 48,72 pelo preço médio das CCR, ante R$ 81,28 nas feiras, R$ 107,68 nas lojas especializadas e R$ 196,20 nos supermercados. A diferença em relação ao supermercado chegava a R$ 147,32 nessa comparação.
O modelo também estava relacionado a mudanças declaradas pelos consumidores: 34 dos 39 respondentes afirmaram ter modificado seus hábitos alimentares depois de aderir à CCR.
Menos intermediação permitiu combinar preços menores com venda garantida aos agricultores
Na prática, o modelo mostra como uma organização diferente da comercialização pode beneficiar os dois lados da relação. Para os consumidores, os alimentos orgânicos em Florianópolis oferecidos pelas CCR tinham preço médio inferior aos demais canais utilizados na comparação do artigo. Para os agricultores, o pedido e o pagamento antecipados ofereciam maior previsibilidade de venda e permitiam organizar a produção de acordo com a demanda.
Isso era possível porque o sistema reduzia a intermediação. Em vez de percorrer uma cadeia comercial longa, os alimentos eram entregues semanalmente pelos produtores em pontos próximos dos consumidores, como universidades, escolas, locais de trabalho e residências.
Há uma contrapartida: a cesta é fechada. O consumidor não escolhe antecipadamente cada produto e recebe alimentos disponíveis conforme a época do ano. O modelo depende, portanto, de confiança e de aceitação da sazonalidade, além da participação de produtores e consumidores na organização das Células.
O modelo interessa a agricultores familiares e consumidores urbanos de produtos orgânicos
Os resultados são especialmente relevantes para situações em que agricultores familiares precisam acessar diretamente consumidores urbanos e estes procuram alimentos orgânicos a preços mais acessíveis. No caso estudado, os produtos eram frescos e produzidos regionalmente, em um raio de até 160 km, caracterizando um circuito curto de comercialização.
A experiência também depende de consumidores dispostos a aceitar uma lógica diferente da compra convencional. As cestas seguem a sazonalidade e são entregues fechadas, enquanto os pagamentos são antecipados. Em troca, o sistema oferece preços fixos e pontos de retirada próximos aos participantes. Os resultados apresentados dizem respeito à experiência de Florianópolis, com análise aprofundada da CCR-UFSC Trindade, e não representam automaticamente todos os mercados de orgânicos.
A iniciativa transforma consumidores em participantes da organização do mercado
O diferencial das CCR não está somente em vender alimentos diretamente. Agricultores e consumidores participam de responsabilidades e decisões coletivas, com reuniões de construção e avaliação e processos de autogestão. O consumidor deixa de aparecer apenas como comprador no final da cadeia e passa a participar de uma relação baseada também em confiança, reciprocidade e conhecimento sobre a origem dos alimentos.
Os autores interpretam essa experiência como parte de uma rede de cidadania agroalimentar. Nesse modelo, a organização do abastecimento envolve agricultores, consumidores, universidade, organizações sociais e outras instituições. Assim, preço, oferta e demanda continuam importantes, mas não são os únicos elementos que estruturam o mercado: entram também aspectos como proximidade, cooperação, consumo responsável e participação na governança do sistema alimentar.
Comprar diretamente pode mudar tanto a comercialização quanto a relação das pessoas com os alimentos
A experiência mostra que aproximar produtores e consumidores pode produzir efeitos que ultrapassam a redução do preço. Os agricultores passam a ter maior previsibilidade porque sabem antecipadamente o que foi encomendado, enquanto consumidores recebem alimentos diretamente da produção regional e conhecem melhor sua procedência.
O crescimento de 27 para 143 cestas em um ano mostra a expansão da procura na CCR-UFSC Trindade. Ao mesmo tempo, 34 dos 39 consumidores que responderam à questão sobre hábitos alimentares declararam mudanças depois de ingressar na iniciativa.
A principal lição do estudo é que circuitos curtos podem reorganizar as relações entre produção e consumo. No caso analisado, preço acessível, venda garantida, confiança, sazonalidade, participação coletiva e proximidade faziam parte do mesmo arranjo, em vez de serem tratados como questões independentes.
O modelo conseguiu combinar acesso a orgânicos, renda agrícola e relações de proximidade
A relevância está na capacidade demonstrada pela experiência de construir um mercado diferente do varejo convencional. As CCR ofereciam alimentos orgânicos e agroecológicos diretamente aos consumidores, com preços inferiores aos canais comparados pelo estudo, enquanto os agricultores contavam com venda antecipadamente definida e menor custo de logística.
A iniciativa também criou relações de confiança e proximidade entre quem produz e quem consome. Para os autores, esses elementos, associados à autogestão, solidariedade, reciprocidade e cooperação, fazem das CCR uma experiência de rede de cidadania agroalimentar. O estudo conclui que a tecnologia social apresenta potencial de expansão em Florianópolis diante da demanda por alimentos orgânicos, saudáveis e de origem conhecida.
Perguntas que este estudo ajuda a responder
Como funcionavam as Células de Consumidores Responsáveis?
Os consumidores pagavam antecipadamente e recebiam toda semana uma cesta fechada de alimentos orgânicos e agroecológicos. Havia dois tamanhos: a cesta pequena tinha aproximadamente 4,5 kg e custava R$ 29, enquanto a grande tinha cerca de 9 kg e custava R$ 53. A diversidade variava de nove a 13 itens. O conteúdo não era escolhido previamente pelo consumidor, pois dependia da sazonalidade e da disponibilidade nas propriedades. Agricultores e consumidores também compartilhavam responsabilidades na organização das Células.
Os alimentos orgânicos eram realmente mais baratos nesse modelo?
No comparativo apresentado pelo artigo, sim. As CCR trabalhavam com preço médio de R$ 5,80/kg. Entre junho e setembro de 2018, o levantamento utilizado pelos pesquisadores registrava R$ 9,67/kg nas feiras, R$ 12,82/kg nas lojas especializadas e R$ 23,00/kg nos supermercados. Para uma cesta de referência de 8,4 kg, os autores calcularam custo de R$ 48,72 usando o preço das CCR, comparado a R$ 196,20 no supermercado. Esses valores correspondem ao período e ao mercado analisados pelo estudo.
O que os agricultores ganhavam participando das Células?
Uma das principais vantagens era ter a venda definida antecipadamente. Como os consumidores faziam pedidos e pagamentos antes da entrega, as famílias conseguiam planejar melhor sua produção e reduzir a incerteza sobre a comercialização. O artigo também registrou aumento da arrecadação das famílias que abasteciam três CCR ao longo do período analisado. A venda direta ainda reduzia custos de logística e diminuía a intermediação entre produtores e consumidores. Para os autores, esse arranjo favorecia uma remuneração mais justa aos agricultores e fortalecia a agricultura familiar agroecológica regional.
Os consumidores mudaram a alimentação depois de entrar no projeto?
Entre os 39 consumidores que responderam à pesquisa sobre participação, 34 afirmaram que modificaram seus hábitos alimentares após aderir à CCR-UFSC Trindade. As cestas eram compostas por produtos disponíveis conforme a sazonalidade agroecológica, o que colocava os participantes em contato regular com alimentos da época. O estudo também registrou que 24% dos entrevistados haviam começado a consumir orgânicos havia entre um e seis meses, período correspondente à existência da CCR naquele momento. Os autores relacionam a iniciativa à ampliação do acesso e à sensibilização para formas de consumo responsável.
Por que as cestas eram entregues fechadas, sem escolher cada produto?
A cesta fechada permitia que a oferta acompanhasse a produção disponível em cada época do ano. Em vez de exigir dos agricultores uma lista fixa de produtos, o conteúdo variava conforme a sazonalidade, mantendo um acordo sobre diversidade mínima, peso aproximado e preço. O sistema também ajudava as famílias produtoras a planejar a produção de acordo com a demanda previamente conhecida. Para o consumidor, isso significava aceitar que os produtos recebidos mudariam ao longo do ano e estabelecer uma relação de confiança com quem produzia os alimentos.
Sobre o estudo original
- Título científico
- Organic markets social construction: the case of Responsible Consumer Cells in Florianópolis-SC
- Autores
- Dayana Lilian Rosa Miranda (Universidade Federal de Santa Catarina); Isadora Leite Escosteguy (Universidade Federal de Santa Catarina); Oscar José Rover (Universidade Federal de Santa Catarina); Carlos Alberto Cioce Sampaio (Universidade Federal do Paraná)
- Revista
- Revista de Economia e Sociologia Rural
- Publicado em
- 2021
- DOI
- 10.1590/1806-9479.2021.220071
Fonte e atribuição
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