Catucha e Clara foram as cultivares de batata orgânica mais adequadas no Sul do Brasil

Publicado no Código Científico em

Quais cultivares de batata combinam produtividade e menor dano de pragas e doenças no sistema orgânico?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Desempenho de cultivares de batata em sistema orgânico de produção”, publicado na revista Horticultura Brasileira em 03/10/2022.

Conclusão principal

Entre sete cultivares de batata orgânica avaliadas em Guarapuava-PR durante duas safras, Catucha e Clara apresentaram a melhor combinação de produtividade, menor progresso da requeima e menores danos de Diabrotica speciosa. Ágata foi a mais suscetível à requeima, chegando a severidade próxima de 100%, enquanto Eliza esteve entre as mais danificadas pelas larvas de D. speciosa.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • Foram avaliadas sete cultivares durante as safras 2013/2014 e 2014/2015
  • Ágata apresentou severidade de requeima próxima de 100%
  • nas demais cultivares a severidade ficou abaixo de 20% no primeiro ano e entre 20% e 70% no segundo
  • os danos externos de Diabrotica speciosa permaneceram abaixo de 5% em todas as cultivares
  • Eliza apresentou danos externos mais intensos
  • Catucha e Vitória ficaram entre as menos danificadas internamente
  • Catucha apresentou elevada proporção de tubérculos comerciais
  • a análise conjunta indicou Catucha e Clara como as cultivares mais adequadas ao cultivo orgânico entre os materiais estudados

O estudo comparou sete cultivares de batata em sistema orgânico

A pesquisa avaliou cultivares de batata orgânica com o objetivo de identificar materiais que reunissem elevada produção de tubérculos e menor suscetibilidade ou dano causado por dois importantes problemas fitossanitários: Phytophthora infestans, agente causador da requeima, e Diabrotica speciosa, cujas larvas perfuram os tubérculos.

O experimento foi realizado em Guarapuava, Paraná, nas safras 2013/2014 e 2014/2015. Foram avaliadas Ágata, Aracy Ruiva, Vitória, Clara, Eliza, Catucha e Cris.

A escolha dos materiais considerou principalmente os níveis conhecidos de resistência à requeima. Ágata, uma cultivar amplamente utilizada no Brasil, foi incluída como testemunha suscetível.

Os pesquisadores avaliaram a evolução da requeima, os danos externos e internos provocados por D. speciosa e a produção total e comercial de tubérculos.

Os experimentos foram conduzidos em Guarapuava durante duas safras

A área experimental estava localizada em uma estação de pesquisa do atual Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná, em Guarapuava, a 1.029 metros de altitude.

Na primeira safra, o plantio ocorreu em 15 de novembro de 2013. Foram aplicadas 15 t/ha de esterco no sulco, sendo 11,25 t/ha de cama de aviário e 3,75 t/ha de esterco ovino.

Na segunda safra, o plantio foi realizado em 13 de outubro de 2014, com aplicação de 270 kg/ha de fosfato natural e 15 t/ha de esterco ovino. A amontoa foi realizada aproximadamente 30 dias após o plantio nos dois anos.

O delineamento experimental teve quatro repetições. A colheita ocorreu aos 96 dias após o plantio e a produção comercial foi determinada considerando os tubérculos com diâmetro superior a 45 mm.

Ágata apresentou severidade de requeima próxima de 100%

A requeima ocorreu naturalmente nos experimentos e foi mais intensa na segunda safra. Ágata apresentou o pior comportamento nos dois anos, com severidade de Phytophthora infestans próxima de 100% e área abaixo da curva de progresso da doença significativamente superior às demais cultivares.

Nas outras seis cultivares, a severidade permaneceu abaixo de 20% no primeiro ano. No segundo, os valores ficaram entre 20% e 70% de maneira geral.

Clara e Eliza apresentaram severidade inferior a 20% na segunda safra, destacando-se nesse aspecto.

Para a área abaixo da curva de progresso da doença, Clara, Eliza, Catucha, Aracy Ruiva, Vitória e Cris não diferiram entre si, indicando respostas semelhantes e níveis de resistência de campo superiores aos observados em Ágata.

Todas as cultivares sofreram ataque de Diabrotica speciosa

Os pesquisadores encontraram danos causados pelas larvas de Diabrotica speciosa em todas as cultivares, demonstrando que o inseto estava presente na área e conseguiu alcançar os tubérculos.

Apesar disso, os danos externos permaneceram abaixo de 5% em todos os materiais. Segundo a classificação utilizada no estudo, esse nível caracteriza um defeito leve.

Os danos externos e internos foram maiores na segunda safra, mas existiram diferenças entre as cultivares.

Eliza apresentou danos externos mais intensos do que Clara e Catucha. A cultivar também esteve entre as mais danificadas internamente nos dois anos. Catucha e Vitória, por outro lado, permaneceram entre os materiais com menores danos internos.

Catucha apresentou elevada proporção de tubérculos comerciais

A produção de tubérculos foi maior na segunda safra. De maneira geral, Ágata, Clara e Catucha estiveram entre as cultivares com maiores produtividades.

Entretanto, a análise apenas da produção total não foi suficiente para identificar os materiais mais interessantes. Ágata, apesar da elevada produção total, apresentou baixa produção de tubérculos comerciais, especialmente no segundo ano.

Catucha apresentou elevada produtividade nos dois anos e uma proporção elevada de tubérculos comerciais em relação à produção total.

Os autores relacionam a elevada produção de tubérculos comerciais de Catucha, particularmente daqueles com mais de 100 g, à formação precoce e ao rápido crescimento dos tubérculos.

Menor dano de Diabrotica speciosa pode estar relacionado às características dos tubérculos

Os mecanismos que determinam a resistência das cultivares de batata aos insetos que atacam as partes subterrâneas ainda são pouco conhecidos.

O artigo discute características que podem estar envolvidas, como espessura da periderme, textura da polpa, porcentagem de fibras, conteúdo de glicoalcaloides, açúcares solúveis, acidez e concentração de nutrientes e toxinas. A arquitetura da planta e a profundidade de formação dos tubérculos também podem dificultar o acesso dos insetos.

Catucha apresenta baixo conteúdo de açúcares, característica que os autores apontam como uma possível explicação para a menor intensidade de danos internos provocados pelas larvas de D. speciosa.

Entretanto, os mecanismos responsáveis pelos menores danos externos encontrados em Clara e Catucha não foram determinados no experimento. Os autores destacam que a proximidade genética entre essas cultivares pode estar relacionada à resposta semelhante ao inseto.

A análise conjunta separou as cultivares em quatro grupos de desempenho

Os pesquisadores utilizaram análise de componentes principais considerando conjuntamente a progressão da requeima, os danos internos e externos provocados por D. speciosa e a produção comercial de tubérculos.

Dois fatores explicaram 78,81% da variação dos dados. Posteriormente, a análise de agrupamento separou as sete cultivares em quatro grupos.

Ágata formou um grupo isolado, principalmente devido à elevada severidade da requeima. Eliza também ficou isolada, mas seu comportamento foi associado aos maiores níveis de danos provocados por D. speciosa.

Aracy Ruiva, Vitória e Cris formaram um grupo de desempenho intermediário. Clara e Catucha foram agrupadas juntas e se destacaram pela combinação de maior produtividade, menor progresso da requeima e menores percentuais de danos internos e externos provocados pelo inseto.

Catucha e Clara reuniram as características mais favoráveis ao cultivo orgânico

A avaliação conjunta indicou Catucha e Clara como as cultivares de batata orgânica mais adequadas entre os sete materiais estudados. As duas combinaram boa produtividade com menor pressão dos principais problemas fitossanitários avaliados.

O estudo também mostrou que observar somente a produtividade pode levar a conclusões incompletas. Ágata esteve entre as cultivares de maior produção total, mas apresentou severidade de requeima próxima de 100% e baixa produção comercial, principalmente na segunda safra.

Os resultados variaram entre os dois anos, mostrando que condições de solo e clima influenciam o desempenho das cultivares. Por isso, os autores ressaltam que recomendações para sistemas orgânicos devem considerar previamente as condições específicas de cada região.

Mesmo para Catucha e Clara, a ocorrência precoce de requeima ou elevada infestação de D. speciosa pode reduzir a produção, tornando necessário o manejo adequado desses problemas para alcançar produtividades maiores.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

Quais cultivares foram consideradas mais adequadas para produção orgânica de batata?

Catucha e Clara foram indicadas como as mais adequadas entre os sete materiais estudados. Na análise conjunta, as duas apresentaram maior produtividade associada a baixos valores de progresso da requeima e menores percentuais de danos internos e externos causados pelas larvas de Diabrotica speciosa.

Qual cultivar foi mais suscetível à requeima?

Ágata apresentou o pior desempenho diante de Phytophthora infestans. A severidade da doença chegou a valores próximos de 100% nos dois anos e sua área abaixo da curva de progresso da doença foi significativamente superior à das demais cultivares avaliadas.

Qual cultivar sofreu mais danos de Diabrotica speciosa?

Eliza esteve entre as cultivares mais afetadas. Os danos externos provocados pelas larvas foram mais intensos em Eliza do que em Clara e Catucha, e Eliza também ficou entre os materiais com maiores danos internos nos dois anos. Catucha e Vitória estiveram entre as menos danificadas internamente.

Os danos externos de Diabrotica speciosa inviabilizaram os tubérculos?

Nas condições do experimento, os danos externos permaneceram abaixo de 5% em todas as cultivares. Esse nível foi classificado no artigo como defeito leve. Os autores consideraram que, quanto a esse aspecto, os materiais apresentaram condições para cultivo orgânico sem utilização de inseticidas, embora tenham existido diferenças de suscetibilidade entre as cultivares.

Alta produtividade total significa maior produção comercial de batata?

Não necessariamente. Ágata esteve entre as cultivares com maior produção total, mas apresentou baixa produção de tubérculos comerciais, principalmente na segunda safra. Catucha, por outro lado, combinou elevada produtividade com alta proporção de tubérculos comerciais. O estudo mostra que produtividade, qualidade comercial e resistência a pragas e doenças precisam ser consideradas conjuntamente na escolha de cultivares para sistemas orgânicos.

Sobre o estudo original

Título científico
Desempenho de cultivares de batata em sistema orgânico de produção
Autores
Sara Passos (Escola Estadual Técnica em Agropecuária Desidério Finamor); Caroline Rech (Universidade Estadual do Centro Oeste); Jackson Kawakami (Universidade Estadual do Centro Oeste); Nilceu RX Nazareno (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná); Marcos Roberto Barbosa (Universidade Estadual do Centro Oeste); Cristiane Nardi (Universidade Estadual do Centro Oeste)
Revista
Horticultura Brasileira
Publicado em
03/10/2022
DOI
10.1590/s0102-0536-20220304

Fonte e atribuição

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