Húmus no morango orgânico: proporção 60:40 favoreceu produção e proteína dos frutos

Publicado no Código Científico em

Qual proporção de húmus e solo é mais adequada para produzir morango orgânico?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Efeito de substratos feitos de húmus e solo sobre parâmetros de produção e qualidade do morango orgânico”, publicado na revista Horticultura Brasileira em 30/03/2020.

Conclusão principal

O estudo com morango orgânico da cultivar Camarosa mostrou que o aumento da proporção de húmus no substrato elevou nutrientes e matéria orgânica, favoreceu o crescimento das plantas e aumentou a produção até sua estabilização a partir da proporção 60:40 de húmus:solo. Nessa proporção, o teor de proteína dos frutos chegou a 0,50%, sem diferença estatística em relação às proporções com ainda mais húmus. Por isso, os autores recomendaram 60% de húmus e 40% de solo.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • Foram testadas seis proporções de húmus:solo, de 0:100 a 100:0
  • o experimento utilizou morangueiros Camarosa cultivados em ambiente protegido
  • maior proporção de húmus elevou N, P, K, pH e matéria orgânica do substrato
  • massa fresca e seca da parte aérea aumentaram com a adição de húmus
  • a produção de frutos estabilizou a partir da proporção 60:40
  • proteína dos frutos passou de 0,35% sem húmus para 0,50% em 60:40
  • potássio nos frutos aumentou significativamente já a partir de 20:80
  • açúcares redutores aumentaram a partir de 20:80
  • acidez titulável atingiu o grupo de maior valor a partir de 60:40
  • os autores recomendaram a proporção 60:40 para evitar excesso de nutrientes e obter maior produção e qualidade nutricional

Seis proporções de húmus e solo foram comparadas

O experimento avaliou diferentes substratos para o cultivo de morango orgânico da cultivar Camarosa. Foram utilizadas seis proporções de húmus de minhoca e solo: 0:100, 20:80, 40:60, 60:40, 80:20 e 100:0.

O húmus foi produzido por vermicompostagem durante 60 dias, utilizando resíduos orgânicos domésticos, como cascas de frutas, restos de vegetais e borra de café, juntamente com minhocas Eisenia andrei.

Posteriormente, o material foi misturado ao solo nas diferentes proporções e utilizado no cultivo dos morangueiros em ambiente protegido da Universidade do Vale do Taquari, em Lajeado-RS.

O delineamento foi em blocos casualizados, com seis tratamentos e quatro repetições. O estudo utilizou 25 plantas por tratamento, totalizando 150 mudas.

Mais húmus aumentou a disponibilidade de nutrientes no substrato

A caracterização química mostrou que o aumento da quantidade de húmus foi acompanhado por maiores concentrações de nitrogênio, fósforo e potássio no substrato.

Também foram observados aumentos do pH e do teor de matéria orgânica conforme a participação do húmus aumentava.

Os autores relacionam esses resultados às características do vermicomposto, que apresenta nutrientes disponíveis para as plantas e pode favorecer seu desenvolvimento.

Entretanto, o artigo também chama atenção para um possível limite dessa resposta. Quantidades excessivas de húmus podem resultar em concentração elevada de sais minerais no substrato e prejudicar o crescimento vegetal. Por esse motivo, a recomendação final não foi utilizar 100% de húmus, mas identificar uma proporção capaz de combinar os benefícios nutricionais com menor risco de excesso.

A produção de morangos estabilizou a partir de 60% de húmus

A adição de vermicomposto aumentou as massas fresca e seca da parte aérea dos morangueiros, indicando maior desenvolvimento vegetativo.

Na produção de frutos, calculada pelo número médio de morangos por planta durante o período de colheita de 15 dias, os autores observaram estabilização a partir da proporção 60:40 de húmus:solo.

Também foi observado visualmente que os frutos produzidos a partir dessa condição apresentavam coloração mais avermelhada e maior tamanho.

Segundo a interpretação apresentada no artigo, o húmus utilizado já fornecia, nessa proporção, quantidades suficientes de nitrogênio, fósforo e potássio para as plantas. Assim, aumentar ainda mais sua participação no substrato não proporcionou incremento correspondente na produção.

Teor de proteína aumentou de 0,35% para 0,50% na proporção 60:40

O teor de proteína dos frutos apresentou resposta clara à quantidade de húmus. Morangos cultivados sem húmus apresentaram 0,35% de proteína.

Com 20% de húmus, o valor aumentou para 0,42%, enquanto a proporção 40:60 apresentou 0,41%.

Na proporção 60:40, o teor chegou a 0,50%. Com 80% e 100% de húmus, foram observados 0,53% em ambos os tratamentos.

Entretanto, a partir da proporção 60:40 não houve diferença estatística entre os tratamentos. Assim, aumentar a quantidade de húmus acima de 60% não proporcionou ganho estatisticamente comprovado no teor de proteína.

Os autores relacionam esse comportamento à maior disponibilidade de nitrogênio no substrato contendo húmus.

Potássio dos frutos aumentou já com 20% de húmus

Os frutos produzidos sem húmus apresentaram 4,70% de potássio. Com a inclusão de 20% de húmus, o valor passou para 7,26%, diferença estatisticamente significativa em relação ao tratamento sem vermicomposto.

Nas demais proporções, foram encontrados 6,12% em 40:60, 7,04% em 60:40, 7,49% em 80:20 e 6,33% no substrato composto exclusivamente por húmus.

Esses cinco tratamentos com húmus não diferiram estatisticamente entre si. Dessa forma, para o potássio dos frutos, o principal ganho ocorreu com a inclusão do húmus no substrato, sem evidência de aumento contínuo conforme sua proporção se aproximava de 100%.

A concentração de sódio, por outro lado, não apresentou diferença significativa entre os tratamentos e permaneceu próxima de 1%.

Açúcares e acidez dos morangos também responderam ao substrato

Os açúcares redutores foram menores no tratamento sem húmus, com 2,41 mg/100 g. Com 20% de húmus, o valor aumentou para 3,55 mg/100 g.

As proporções seguintes apresentaram 3,23 mg/100 g em 40:60, 3,16 mg/100 g em 60:40, 3,39 mg/100 g em 80:20 e 3,62 mg/100 g em 100:0. Todos os tratamentos contendo húmus ficaram no mesmo grupo estatístico.

A acidez titulável foi de 1,52 mg/100 g sem húmus e aumentou para 2,03 e 1,92 mg/100 g nas proporções 20:80 e 40:60, respectivamente.

A partir de 60:40, foram registrados os maiores valores estatísticos: 2,11 mg/100 g em 60:40, 2,05 mg/100 g em 80:20 e 2,07 mg/100 g em 100:0.

Nem todas as características dos frutos foram alteradas pelo húmus

Apesar dos efeitos sobre produção e alguns componentes nutricionais, várias características dos frutos permaneceram estatisticamente semelhantes entre os substratos.

O pH variou de 3,59 a 3,95, sem diferença significativa. A umidade permaneceu entre 91% e 92% em todos os tratamentos.

O sódio também não apresentou diferença estatística, variando de 0,84% a 1,13%.

O teor de cinzas apresentou comportamento diferente. O tratamento sem húmus registrou 0,45%, enquanto o substrato exclusivamente com húmus apresentou 0,29%, o menor valor observado. De maneira geral, o teor de cinzas diminuiu à medida que aumentou a quantidade de húmus.

A proporção 60:40 equilibrou produção, nutrientes e risco de excesso

Os resultados levaram os autores a recomendar um substrato composto por 60% de húmus e 40% de solo para o cultivo avaliado.

Essa proporção marcou a estabilização da produção de frutos e também foi suficiente para atingir o grupo de maior teor de proteína e de acidez titulável.

Utilizar proporções superiores de húmus não proporcionou ganhos estatísticos adicionais para diversos parâmetros avaliados. Além disso, o artigo destaca que concentrações excessivas de nutrientes e sais no substrato podem prejudicar o desenvolvimento das plantas.

Assim, a principal contribuição do estudo não é simplesmente mostrar que mais húmus sempre melhora o morangueiro, mas identificar 60:40 como uma proporção adequada nas condições experimentais para conciliar produção, desenvolvimento das plantas e características nutricionais dos frutos.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

Qual proporção de húmus e solo foi recomendada para o morango orgânico?

Os autores recomendaram a proporção de 60% de húmus e 40% de solo. A produção de frutos estabilizou a partir dessa condição, e o teor de proteína atingiu 0,50%, sem diferença estatística em relação às proporções com 80% e 100% de húmus.

Usar 100% de húmus aumentou ainda mais a produção de morangos?

O estudo não demonstrou ganho adicional de produção que justificasse recomendar 100% de húmus. A produção estabilizou a partir da proporção 60:40, e os autores alertam que o excesso de nutrientes e sais no substrato pode prejudicar o crescimento das plantas. Por isso, recomendaram 60% de húmus e 40% de solo.

O húmus aumentou o teor de proteína dos morangos?

Sim. O teor de proteína foi de 0,35% sem húmus, 0,42% com 20%, 0,41% com 40%, 0,50% com 60% e 0,53% com 80% e 100% de húmus. Estatisticamente, os tratamentos a partir de 60% de húmus ficaram no mesmo grupo.

O húmus alterou os açúcares dos morangos?

Os açúcares redutores aumentaram de 2,41 mg/100 g no tratamento sem húmus para 3,55 mg/100 g com 20% de húmus. Os tratamentos contendo de 20% a 100% de húmus não diferiram estatisticamente entre si, indicando estabilização do efeito a partir da primeira proporção com húmus.

Todas as características dos frutos melhoraram com o aumento do húmus?

Não. pH, umidade e concentração de sódio não apresentaram diferenças significativas entre as seis proporções. Além disso, vários parâmetros deixaram de aumentar antes de atingir 100% de húmus. Por isso, o estudo indica que o benefício não depende simplesmente de utilizar a maior quantidade possível, mas de encontrar uma proporção adequada entre húmus e solo.

Sobre o estudo original

Título científico
Efeito de substratos feitos de húmus e solo sobre parâmetros de produção e qualidade do morango orgânico
Autores
Lucélia Hoehne (Universidade do Vale do Taquari); Taciélen Altmayer (Universidade do Vale do Taquari); Maira C Martini (Universidade do Vale do Taquari); Jordana Finatto (Universidade do Vale do Taquari); Débora T Brietzke (Universidade do Vale do Taquari); Daniel Kuhn (Universidade do Vale do Taquari); Ytan A Schweizer (Universidade do Vale do Taquari); Gabriela Vettorello (Universidade do Vale do Taquari); Sabrina G Cordeiro (Universidade do Vale do Taquari); Eduardo M Ethur (Universidade do Vale do Taquari); Elisete M de Freitas (Universidade do Vale do Taquari); Wolmar A Severo Filho (Universidade de Santa Cruz do Sul)
Revista
Horticultura Brasileira
Publicado em
30/03/2020
DOI
10.1590/s0102-053620200116

Fonte e atribuição

Esta página é uma explicação editorial original do estudo científico identificado acima e não substitui a leitura do trabalho original. Os dados, resultados e conclusões apresentados têm como fonte o artigo original, que permanece vinculado pelo DOI e/ou pela página da publicação.

Como este conteúdo foi preparado: esta página apresenta uma versão descomplicada e estruturada do estudo científico original, mantendo a referência ao trabalho de origem. O Código Científico organiza os achados para facilitar a leitura e a busca; para detalhes metodológicos completos, consulte o artigo original pelo DOI ou pela fonte indicada.