Estresse hídrico do feijão pode ser identificado pela temperatura das plantas

Publicado no Código Científico em

É possível identificar o estresse hídrico do feijão pela temperatura das plantas, mesmo quando a cobertura vegetal ainda é pequena?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Crop water stress index of beans”, publicado na revista Bragantia em 17/10/2025.

Conclusão principal

A temperatura das plantas pode ajudar a identificar o estresse hídrico do feijão, mas a presença de palhada exige cuidados na medição. Em um experimento realizado em Campinas (SP), pesquisadores desenvolveram uma correção para separar a temperatura do dossel da interferência da palhada. Com esse ajuste, o índice de estresse hídrico apresentou relação com a umidade do solo, inclusive em fases de baixa cobertura vegetal. Os resultados são promissores para o monitoramento da irrigação, embora o índice ainda tenha apresentado valores fora da faixa teórica esperada.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • A palhada interfere na temperatura medida por sensores infravermelhos quando o feijão ainda cobre pouco o solo.
  • A correção proposta permitiu obter curvas de referência coerentes com a teoria do índice de estresse hídrico.
  • A menor cobertura vegetal observada foi de 0,17 na calibração e 0,26 na avaliação do índice.
  • A relação entre o índice e a umidade do solo apresentou R² de 0,75 após tratamento dos dados.
  • O método ainda precisa de aprimoramentos para estimativas quantitativas mais robustas.

O monitoramento do estresse hídrico em feijão com baixa cobertura vegetal

O estudo investigou se o índice de estresse hídrico da cultura, conhecido pela sigla CWSI, poderia ser utilizado no feijão cultivado em plantio direto com palhada, inclusive quando as plantas ainda não cobrem completamente o solo. O índice utiliza a diferença entre a temperatura do dossel e a temperatura do ar, considerando as condições atmosféricas, para avaliar o estado hídrico da cultura.

O problema central é que o sensor infravermelho não enxerga apenas as folhas quando a cobertura vegetal é pequena. Parte da radiação térmica registrada vem da palhada, cuja temperatura pode ser diferente da temperatura das plantas. Isso pode distorcer o cálculo do índice.

Os pesquisadores avaliaram uma forma de corrigir essa interferência, estimando a cobertura vegetal e a diferença de temperatura entre folhas e palhada. Também investigaram se o índice corrigido apresentava relação com o conteúdo de água no solo durante diferentes fases de desenvolvimento do feijão.

Dois ciclos de cultivo permitiram calibrar e avaliar o índice

O experimento foi realizado em Campinas, São Paulo, com feijão carioca cultivado sob plantio direto e irrigação por pivô central. O primeiro ciclo, com a cultivar IAC1850, começou em 7 de agosto de 2023 e durou 91 dias. O segundo, com a cultivar IAC2051, começou em 6 de fevereiro de 2024 e durou 82 dias. O primeiro ciclo foi mantido bem irrigado; no segundo, ocorreram déficits hídricos durante a floração e o enchimento de grãos.

Sensores infravermelhos registraram a temperatura da superfície observada, enquanto sensores instalados a 0,20 m de profundidade acompanharam a umidade do solo. Os pesquisadores também mediram diretamente a temperatura das folhas e da palhada com um termômetro portátil, além de utilizar dados meteorológicos.

A cobertura vegetal foi estimada por imagens RGB no primeiro ciclo e por uma relação com a altura das plantas no segundo. Um modelo estatístico estimou a diferença térmica entre palhada e folhas a partir da radiação líquida e do déficit de pressão de vapor do ar. Com esses dados, a temperatura do dossel foi corrigida. As curvas de referência foram obtidas no primeiro ciclo e utilizadas para calcular o CWSI no segundo, considerando as fases de desenvolvimento, floração e enchimento de grãos.

A correção térmica melhorou o índice, mas ainda houve imprecisão quantitativa

Sem a correção, as medições infravermelhas produziram um comportamento incompatível com a teoria do CWSI nas fases iniciais. A relação entre a diferença de temperatura da superfície e do ar e o déficit de pressão de vapor apresentou inclinação positiva no desenvolvimento e praticamente nula na floração. Após considerar a cobertura vegetal e a temperatura da palhada, todas as fases apresentaram inclinações negativas, como esperado para plantas bem irrigadas.

A menor cobertura observada foi de 0,17 no primeiro ciclo e 0,26 no segundo. O modelo utilizado para estimar a diferença térmica entre palhada e folhas apresentou R² de 0,80 e erro quadrático médio de 3,8 °C após o agrupamento dos dados. A estimativa final da temperatura do dossel, entretanto, foi menos precisa quando a cobertura era pequena: o erro foi de 10 °C no desenvolvimento, 3 °C na floração e 2 °C no enchimento de grãos. Após retirar quatro valores discrepantes, o erro geral passou de 7 °C para 4 °C.

No segundo ciclo, o CWSI acompanhou qualitativamente as condições de água no solo. O índice médio foi menor durante o desenvolvimento, quando a irrigação foi adequada, e maior na floração, quando ocorreu déficit severo. Após filtragem e médias diárias, a relação entre CWSI e umidade do solo apresentou R² de 0,75 e erro de 0,02 m³·m⁻³.

Apesar disso, 18% dos valores do índice foram negativos e 24% ultrapassaram 1, fora da faixa teórica de 0 a 1. Os autores consideram que o resultado demonstra potencial para o monitoramento, mas ainda não representa uma estimativa quantitativa plenamente ajustada.

A temperatura pode complementar o acompanhamento da água no solo

O resultado indica que sensores térmicos podem fornecer informações úteis sobre a condição hídrica do feijão, desde que a temperatura registrada represente adequadamente as plantas. Quando há palhada visível entre as linhas, interpretar a leitura bruta como temperatura do dossel pode produzir conclusões equivocadas, especialmente no início do ciclo.

A correção proposta permite considerar essa mistura de temperaturas e obter um índice que acompanha a variação da umidade do solo. Na prática, isso aponta para uma possibilidade de complementar o monitoramento hídrico com informações da própria cultura, em vez de depender exclusivamente de medições do solo.

O artigo, porém, não estabelece uma regra operacional de irrigação nem demonstra economia de água ou aumento de produtividade. A aplicação quantitativa ainda depende de aprimorar a estimativa da temperatura da palhada e os limites de referência do índice. Os autores propõem, como próximos passos, o uso de um sensor dedicado à palhada e a elaboração de mapas térmicos para estimar a distribuição espacial da água no solo.

O método é especialmente relevante quando a palhada aparece entre as plantas

Os resultados são mais relevantes para o monitoramento de feijão irrigado em plantio direto, sobretudo durante o desenvolvimento e outras situações em que o dossel ainda não cobre toda a superfície observada pelo sensor. Nessas condições, a palhada pode influenciar substancialmente a temperatura registrada.

A pesquisa também interessa ao desenvolvimento de sistemas de sensoriamento infravermelho e ferramentas de irrigação de precisão que utilizem a temperatura das plantas. A evidência, contudo, foi obtida em dois ciclos experimentais em Campinas, com cultivares carioca e condições específicas de manejo. O estudo não demonstra que os mesmos parâmetros possam ser aplicados diretamente a outras culturas, regiões ou sistemas de cultivo.

A pesquisa corrige a interferência da palhada sem exigir cobertura completa

A contribuição central é uma forma de estimar a temperatura do dossel quando o sensor infravermelho observa simultaneamente folhas e palhada. Em vez de depender apenas de medições feitas sobre uma cobertura vegetal quase completa, o procedimento utiliza a proporção de cobertura e um modelo da diferença térmica entre os dois componentes.

O estudo também combina duas formas de estimar a cobertura vegetal, usando imagens RGB e uma relação baseada na altura das plantas, conforme os dados disponíveis em cada ciclo. Essa abordagem permitiu avaliar o CWSI em coberturas inferiores a 0,8, faixa que os autores destacam como um desafio para medições convencionais. A novidade está na correção metodológica e em sua avaliação experimental, não na demonstração de uma tecnologia de irrigação já pronta para uso comercial.

Medir a temperatura correta é essencial para interpretar o estresse hídrico

A principal lição é que uma leitura térmica não representa necessariamente a temperatura das plantas. Em cultivos com baixa cobertura vegetal, o sensor registra uma combinação das superfícies presentes em seu campo de visão. No feijão com palhada, essa interferência foi suficiente para alterar o comportamento das curvas utilizadas no cálculo do índice de estresse hídrico.

Ao corrigir a contribuição da palhada, os pesquisadores conseguiram recuperar o comportamento esperado das curvas de referência e observar uma relação entre o CWSI e a umidade do solo. Isso reforça a importância de considerar a estrutura do cultivo ao desenvolver métodos de sensoriamento.

Ao mesmo tempo, os valores fora da faixa teórica e os erros de estimativa mostram que a correção ainda precisa ser aperfeiçoada. O estudo oferece uma base experimental para avançar no monitoramento térmico do feijão, mas não define um índice universal nem um limite de irrigação aplicável a qualquer lavoura.

O resultado amplia as possibilidades de monitoramento nas fases iniciais

O CWSI depende de uma estimativa confiável da temperatura do dossel. Em culturas que deixam o solo ou a palhada expostos, essa exigência dificulta a utilização do método durante parte do ciclo. A pesquisa mostra que é possível reduzir essa interferência e obter informações coerentes com a condição hídrica do feijão mesmo com cobertura vegetal relativamente baixa.

A relevância está em avançar uma etapa necessária para ferramentas de monitoramento que possam acompanhar a cultura desde fases mais precoces. A relação observada com a umidade do solo sustenta esse potencial, enquanto os erros quantitativos indicam quais aspectos ainda precisam ser desenvolvidos antes de uma aplicação operacional mais ampla.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

Por que a palhada interfere na medição do estresse hídrico do feijão?

Porque o sensor infravermelho registra a temperatura das superfícies presentes em seu campo de visão. Quando o feijão ainda cobre pouco o solo, parte da leitura vem da palhada, que pode estar mais quente ou mais fria que as folhas. Assim, a temperatura medida não corresponde exclusivamente ao dossel. No experimento, essa interferência alterou as curvas de referência do índice, especialmente durante o desenvolvimento e a floração. A correção proposta considera a proporção de cobertura vegetal e a diferença térmica entre folhas e palhada para estimar a temperatura das plantas.

O que significa um CWSI próximo de zero ou de um?

Na definição teórica utilizada pelo artigo, o CWSI varia de 0 a 1. Valores próximos de zero representam uma condição bem irrigada, enquanto valores próximos de um correspondem a déficit hídrico severo, associado ao limite de ausência de transpiração. O índice é calculado a partir da diferença entre a temperatura do dossel e do ar, normalizada por limites de referência. No experimento, entretanto, parte dos valores ficou fora dessa faixa, indicando que os limites e a estimativa térmica ainda precisam de aprimoramento para uma interpretação quantitativa confiável.

Em qual fase do feijão o índice indicou maior estresse hídrico?

A floração apresentou o maior CWSI médio no segundo ciclo experimental, quando ocorreu déficit hídrico severo. Durante o desenvolvimento, a irrigação foi considerada adequada e o índice médio foi o menor. No enchimento de grãos, o déficit foi classificado como leve. Essa correspondência entre o índice e as condições de água no solo foi observada nas condições específicas do experimento em Campinas e não estabelece, por si só, valores universais de CWSI para cada fase do feijão.

O índice de estresse hídrico pode estimar diretamente a umidade do solo?

O estudo encontrou uma relação entre o CWSI e a umidade do solo, mas ainda não validou uma ferramenta operacional para estimá-la diretamente em qualquer condição. Após filtragem e médias dos dados, a relação apresentou R² de 0,75 e erro de 0,02 m³·m⁻³. Os autores propõem desenvolver mapas de CWSI com câmera termográfica e, a partir deles, estimar mapas de conteúdo de água no solo. Essa aplicação é apresentada como uma etapa futura, dependente do aprimoramento dos limites de referência e da estimativa da temperatura do dossel.

Por que o CWSI apresentou valores negativos ou superiores a um?

Os autores apontam que valores negativos podem indicar um limite inferior de referência excessivamente alto, enquanto valores superiores a um podem indicar um limite superior excessivamente baixo. No experimento, 18% dos valores foram negativos e 24% ultrapassaram um. Uma possível explicação é a diferença entre as condições dos períodos utilizados para calibrar e avaliar o índice: as curvas de referência foram obtidas entre agosto e outubro, enquanto a avaliação ocorreu entre fevereiro e abril. O artigo não estabelece uma causa definitiva para essas discrepâncias.

Sobre o estudo original

Título científico
Crop water stress index of beans
Autores
Juliana de Almeida Góes (Instituto Agronômico); Dijaina Ferreira Sardinha Prado (Universidade Paulista); Regina Célia de Matos Pires (Instituto Agronômico); Alisson Fernando Chiorato (Instituto Agronômico); Jane Maria de Carvalho Silveira (Instituto Agronômico)
Revista
Bragantia
Publicado em
17/10/2025
DOI
10.1590/1678-4499.20240235

Fonte e atribuição

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