Feiras agroecológicas fortalecem famílias assentadas e aproximam produtores e consumidores

Publicado no Código Científico em

Qual é o papel das feiras agroecológicas na vida das famílias de assentamentos da reforma agrária na Região Metropolitana de Porto Alegre?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Occupy, resist and produce: settled families and agroecological markets in the metropolitan region of Porto Alegre”, publicado na revista Revista de Economia e Sociologia Rural em 2024.

Conclusão principal

As feiras agroecológicas são mais do que pontos de venda para famílias assentadas da Região Metropolitana de Porto Alegre. A pesquisa mostra que a comercialização direta ajuda na reprodução social dessas famílias e cria relações de confiança com os consumidores. Nesse sistema, os próprios agricultores produzem e vendem os alimentos, participam da certificação e da organização coletiva e constroem vínculos que ultrapassam a simples relação comercial.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • 41 feiras agroecológicas funcionavam semanalmente na Região Metropolitana de Porto Alegre
  • 80 famílias de nove assentamentos estavam envolvidas na comercialização
  • mais de 70 itens eram vendidos, entre frutas, legumes, verduras, condimentos e sucos
  • a confiança entre agricultores e consumidores aparece como um dos pilares das feiras
  • produção, certificação e comercialização estão ligadas a formas de organização coletiva

As feiras foram estudadas como parte da vida econômica e social dos assentamentos

A pesquisa investigou como famílias assentadas da reforma agrária participam das feiras agroecológicas da Região Metropolitana de Porto Alegre e como esse canal de comercialização se relaciona com suas estratégias de reprodução social. O interesse não ficou restrito à venda dos alimentos: os pesquisadores buscaram compreender a história das feiras, a organização das famílias, as relações construídas com consumidores e a maneira como os próprios agricultores percebem sua atuação. Também foram considerados desafios, oportunidades e perspectivas desse sistema. Um ponto importante é que os assentados desempenham simultaneamente os papéis de produtores e vendedores, comercializando diretamente alimentos obtidos segundo os padrões da produção orgânica. Assim, as feiras agroecológicas aparecem no estudo como espaços econômicos, mas também de organização coletiva e interação social.

57 entrevistas ajudaram a revelar como funcionam as feiras e os assentamentos

A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa e realizou trabalho de campo de forma intermitente em 2021 e 2022, com as entrevistas concentradas entre junho e novembro de 2022. Foram feitas 57 entrevistas em profundidade com roteiro semiestruturado: 37 agricultores-feirantes, cinco consumidores, sete integrantes de equipes técnicas e de assessoramento, cinco pessoas ligadas à direção do MST e três vinculadas à Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap). As entrevistas ocorreram nas casas das famílias e durante inserções nas feiras agroecológicas da Região Metropolitana de Porto Alegre. Os pesquisadores também utilizaram documentos, informações secundárias e registros fotográficos. A seleção dos entrevistados seguiu a técnica conhecida como “bola de neve”, na qual participantes indicam outras pessoas até que os relatos deixem de acrescentar elementos substancialmente novos. As entrevistas foram transcritas e examinadas por análise de conteúdo, organizando as informações em temas relacionados às questões centrais da pesquisa.

41 feiras conectavam 80 famílias de nove assentamentos aos consumidores

A pesquisa identificou 41 feiras agroecológicas semanais na Região Metropolitana de Porto Alegre. Delas, 26 ocorriam em Porto Alegre, sete em Canoas, duas em Viamão, duas em Charqueadas e uma em cada um dos municípios de Nova Santa Rita, Eldorado do Sul, São Jerônimo e São Leopoldo. Nesse sistema estavam envolvidas 80 famílias de nove assentamentos, responsáveis pela comercialização de mais de 70 itens, incluindo frutas, legumes, verduras, condimentos e sucos.

As feiras funcionavam em diferentes tipos de espaço. Os locais abertos, como ruas e praças, representavam 43,9% delas. Órgãos públicos e associações de classe reuniam 26,8%; instituições de ensino, 19,5%; e espaços privados, 9,8%.

Mais importante que essa dimensão numérica, porém, foi a relação identificada entre agricultores e consumidores. Os autores apontam a confiança como um dos pilares da experiência. Os próprios produtores comercializam os alimentos e participam de estruturas coletivas relacionadas à certificação, produção e venda. A maioria dos feirantes entrevistados estava nos assentamentos havia 28 anos, indicando uma trajetória prolongada de participação nessas comunidades. A pesquisa também registrou capacidade de adaptação durante a pandemia, quando as restrições às feiras estimularam alternativas como entregas e outros canais de comercialização.

A venda direta transforma a feira em um espaço de renda, organização e confiança

Na prática, os resultados mostram que a importância das feiras não pode ser entendida apenas pelo volume de alimentos comercializados. Para as famílias estudadas, produzir e vender diretamente cria uma ligação entre a atividade agrícola, a geração de renda, a organização coletiva e o contato com quem compra os alimentos. A confiança ganha importância porque o consumidor encontra na feira os próprios agricultores responsáveis pela produção. Ao mesmo tempo, as famílias participam de grupos de certificação e de outras estruturas coletivas que organizam diferentes etapas do processo. A experiência relatada também mostra a importância da capacidade de adaptação: durante a pandemia, quando as feiras foram interrompidas, as famílias recorreram a entregas e buscaram diversificar os canais de venda. O estudo interpreta essas relações como parte de uma rede agroalimentar que ultrapassa uma simples transação entre vendedor e comprador.

Os resultados ajudam a entender mercados locais ligados à agricultura familiar e à reforma agrária

Os resultados são especialmente relevantes para compreender experiências em que agricultores familiares comercializam diretamente sua produção e dependem da organização coletiva para manter esses mercados. O caso estudado envolve famílias de assentamentos da reforma agrária que produzem alimentos orgânicos e participam das etapas de comercialização e certificação. A pesquisa também é útil para entender mercados de proximidade nos quais a relação entre produtor e consumidor tem importância central. Como a investigação é qualitativa e se concentra na Região Metropolitana de Porto Alegre, seus resultados descrevem e interpretam essa experiência específica, em vez de representar estatisticamente todos os assentamentos ou feiras do Brasil.

O estudo mostra a feira a partir da experiência de quem produz e também vende

A contribuição do trabalho está em examinar as feiras a partir das estratégias de reprodução social das famílias assentadas, considerando conjuntamente produção, comercialização, organização coletiva e relações com consumidores. Em vez de tratar a feira somente como local onde alimentos mudam de mãos, a pesquisa mostra como ela integra uma rede de relações construída ao longo do tempo. Os agricultores não aparecem como fornecedores distantes: são simultaneamente produtores e vendedores e participam das estruturas de organização e certificação. Essa configuração ajuda os autores a interpretar a experiência da Região Metropolitana de Porto Alegre como uma “rede agroalimentar cívica”, marcada por cooperação, participação e relações de confiança.

A continuidade das feiras depende de relações que vão além da compra e venda

A principal lição é que mercados locais de alimentos podem desempenhar funções econômicas e sociais ao mesmo tempo. No caso pesquisado, as feiras agroecológicas contribuem para a reprodução social das famílias assentadas enquanto aproximam diretamente produtores e consumidores. Essa proximidade favorece uma relação de confiança sustentada pelo fato de os vendedores serem também responsáveis pela produção dos alimentos. A dimensão coletiva também aparece na certificação, nas cooperativas e nos grupos responsáveis por organizar diferentes atividades. Ao mesmo tempo, a experiência enfrenta desafios. A pesquisa registra dificuldades provocadas pela pandemia, problemas relacionados à contaminação por agrotóxicos provenientes do entorno dos assentamentos e preocupação das famílias com o envelhecimento dos agricultores e a sucessão nos estabelecimentos rurais.

A confiança ajuda a sustentar um sistema que reúne produção, venda e organização coletiva

O resultado é relevante porque mostra como a comercialização direta pode integrar diferentes dimensões da vida das famílias assentadas. Nas feiras, os agricultores não apenas encontram um mercado para seus produtos: eles mantêm contato com consumidores, participam da organização coletiva e precisam preservar a reputação associada aos alimentos que oferecem. Para os autores, a confiança construída ao longo do tempo é um dos pilares dessa experiência. As 41 feiras identificadas, envolvendo 80 famílias de nove assentamentos, mostram que essa rede alcançou uma estrutura que conecta diferentes municípios e espaços de comercialização da Região Metropolitana de Porto Alegre.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

Quantas feiras agroecológicas foram identificadas na Região Metropolitana de Porto Alegre?

A pesquisa registrou 41 feiras agroecológicas semanais na Região Metropolitana de Porto Alegre. Porto Alegre concentrava 26 delas e Canoas, sete. Viamão e Charqueadas tinham duas cada, enquanto Nova Santa Rita, Eldorado do Sul, São Jerônimo e São Leopoldo tinham uma feira cada. Esses mercados envolviam 80 famílias vinculadas a nove assentamentos e ofereciam mais de 70 itens.

Por que a confiança dos consumidores é tão importante nessas feiras?

A confiança é apontada pelos autores como um dos pilares das feiras porque os alimentos são comercializados pelas próprias pessoas que os produzem. Isso aproxima consumidores e agricultores e torna a reputação das famílias particularmente importante. O estudo mostra que essa relação não se resume à compra de um produto: ela foi construída ao longo dos anos e está associada aos compromissos assumidos pelos produtores, inclusive em relação aos padrões da produção orgânica.

As feiras servem apenas para gerar renda para os agricultores?

Não. A comercialização é importante para a reprodução social das famílias, mas a pesquisa identifica outras dimensões. As feiras aproximam produtores e consumidores, fortalecem relações de confiança e estão ligadas a formas coletivas de organização, cooperação e certificação. Os agricultores também se percebem como participantes ativos tanto da produção quanto da comercialização. Por isso, os autores interpretam essas feiras como parte de uma rede agroalimentar cívica, e não simplesmente como pontos de venda.

O que aconteceu com essas famílias durante a pandemia?

A interrupção das feiras durante a pandemia afetou uma fonte importante de renda das famílias e exigiu mudanças na comercialização. O estudo relata forte crescimento das entregas em determinado período e a busca por outros canais, como armazéns de bairro e lojas. Essa experiência reforçou entre os entrevistados a percepção de que era necessário diversificar as formas de venda, embora alternativas como as entregas também aumentassem a carga de trabalho.

Quais desafios podem afetar o futuro dessas feiras e dos assentamentos?

A pesquisa aponta diferentes desafios. Entre eles estão o envelhecimento dos agricultores e a preocupação com a sucessão das propriedades. O estudo também relata conflitos relacionados à pulverização de agrotóxicos em propriedades próximas aos assentamentos, incluindo episódios de contaminação que impediram a comercialização da produção atingida. Apesar dessas dificuldades, os entrevistados relatam um processo de aprendizagem e organização coletiva construído ao longo de décadas.

Sobre o estudo original

Título científico
Occupy, resist and produce: settled families and agroecological markets in the metropolitan region of Porto Alegre
Autores
Jacir João Chies (Universidade Federal de Pelotas); Flávio Sacco dos Anjos (Universidade Federal de Pelotas)
Revista
Revista de Economia e Sociologia Rural
Publicado em
2024
DOI
10.1590/1806-9479.2023.283305

Fonte e atribuição

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