Produção de tomate orgânico foi viável, mas cultivar Siluet teve risco econômico bem menor
Produzir tomate orgânico em estufa pode ser economicamente viável para pequenos produtores?
Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Custos, viabilidade e riscos da produção de tomate orgânico em ambiente protegido”, publicado na revista Revista Ciência Agronômica em 2018.
A produção de tomate orgânico em ambiente protegido apresentou viabilidade econômica para as duas cultivares avaliadas, mas a Siluet teve desempenho claramente superior. Ela produziu 3,56 kg por planta, contra 2,90 kg da Santa Clara, e alcançou lucro líquido de R$ 1.274,70 no cenário analisado. Na simulação de risco, a probabilidade de VPL negativo foi de apenas 4,48% para Siluet, ante 30,31% para Santa Clara.
Principais resultados e informações do estudo em resumo
- Siluet produziu 3,56 kg por planta e Santa Clara, 2,90 kg
- a produtividade da Siluet foi 22,7% superior
- o lucro líquido foi de R$ 1.274,70 para Siluet e R$ 76,50 para Santa Clara
- o risco de VPL negativo foi de 4,48% para Siluet e 30,31% para Santa Clara
- preço recebido e produtividade foram as variáveis que mais afetaram a rentabilidade
Duas cultivares foram comparadas em uma pequena estufa de produção orgânica
A pesquisa avaliou o desempenho agronômico e econômico das cultivares de tomate de mesa Siluet e Santa Clara sob manejo orgânico e cultivo protegido. O objetivo foi verificar produtividade, custos, rentabilidade e riscos econômicos das duas alternativas pensando em uma pequena unidade produtiva.
O experimento foi realizado em uma estufa de 144 m² da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Além de medir a produção e características dos frutos, os pesquisadores calcularam custos operacionais e totais e indicadores financeiros como Valor Presente Líquido (VPL) e Taxa Interna de Retorno (TIR).
A produção de tomate orgânico foi, portanto, avaliada não apenas pela quantidade de frutos obtida, mas também pela capacidade de remunerar os recursos empregados e pelo risco de o investimento apresentar resultado econômico negativo.
Produção, custos e risco foram avaliados do cultivo à simulação de 10 mil cenários
O experimento agronômico ocorreu entre julho e novembro de 2011, em Campos dos Goytacazes. Foram cultivadas as variedades Siluet e Santa Clara sob manejo orgânico em ambiente protegido. O delineamento experimental teve seis repetições, e 120 plantas — 60 de cada cultivar — compuseram a área utilizada para avaliar o desempenho agronômico. A produtividade e características dos frutos foram comparadas estatisticamente.
Para a avaliação econômica, os pesquisadores consideraram a utilização integral da estufa de 144 m², correspondente a 288 plantas de cada cultivar, e preços médios de produtos, insumos e equipamentos observados no Norte Fluminense entre 2011 e 2013. O fluxo de caixa considerou horizonte de seis meses.
Foram calculados custos de produção, margem bruta, lucro operacional, lucro líquido, VPL e TIR. Uma análise de sensibilidade simulou alterações desfavoráveis de 10% em receitas e despesas. Depois, uma simulação de Monte Carlo com 10 mil repetições estimou a probabilidade de o VPL ficar negativo, permitindo incorporar o risco à comparação econômica.
Siluet produziu 22,7% mais e apresentou resultado econômico muito superior
A diferença começou na produtividade. A Siluet produziu, em média, 3,56 kg por planta, enquanto a Santa Clara alcançou 2,90 kg. O desempenho da Siluet foi 22,7% superior. Ela também apresentou 27 frutos por planta, contra 22 da Santa Clara. Não houve diferença estatisticamente significativa no peso médio dos frutos.
Na avaliação econômica da estufa de 144 m², o custo total foi de R$ 3.851,70 para Siluet e R$ 4.099,50 para Santa Clara. Considerando preço de R$ 5,00/kg, a receita bruta chegou a R$ 5.126,40 na Siluet e R$ 4.176,00 na Santa Clara. O lucro líquido resultante foi de R$ 1.274,70 e R$ 76,50, respectivamente.
A diferença também apareceu na rentabilidade. A TIR foi estimada em 64,10% ao ano para Siluet e 8,20% para Santa Clara. A Siluet manteve VPL positivo em todas as taxas de desconto apresentadas, de 2% a 12% ao ano. Para Santa Clara, o VPL tornou-se negativo a 10% e 12%.
A análise de risco reforçou essa diferença: a probabilidade estimada de VPL negativo foi de 4,48% para Siluet e 30,31% para Santa Clara.
Escolher a cultivar fez grande diferença para o retorno e o risco do produtor
Os resultados mostram que a viabilidade econômica não depende apenas de produzir tomate orgânico em ambiente protegido: a escolha da cultivar pode alterar significativamente o resultado financeiro. Nas condições avaliadas, a Siluet combinou maior produtividade, menor custo total, maior receita e lucro líquido muito superior ao da Santa Clara.
Parte da diferença de custos está relacionada ao manejo. A Santa Clara exigiu operações regulares de desbrota, que elevaram em 8,2% seu custo operacional efetivo. Segundo o estudo, 48% do trabalho utilizado nessa cultivar estava relacionado à desbrota.
A análise também mostra quais fatores merecem atenção no planejamento. Preço recebido e produtividade foram as variáveis com maior influência sobre a rentabilidade, seguidas por embalagem, mão de obra e impostos e encargos. Portanto, mesmo uma alternativa considerada economicamente viável pode se tornar menos atrativa quando essas condições mudam desfavoravelmente.
O resultado interessa especialmente a pequenas unidades que avaliam investir em cultivo protegido
A pesquisa foi estruturada considerando uma pequena área produtiva, por isso seus resultados são especialmente úteis para entender a economia da produção orgânica de tomate em ambiente protegido nessa escala. O cenário econômico considerou uma estufa de 144 m², com capacidade para 288 plantas.
Os valores não devem ser interpretados como estimativas atuais ou automaticamente aplicáveis a qualquer propriedade. O experimento ocorreu em Campos dos Goytacazes e os cálculos econômicos utilizaram valores médios do Norte Fluminense referentes ao período de 2011 a 2013. Assim, a principal informação transferível é a comparação realizada pelo estudo e a identificação dos componentes que mais influenciaram a rentabilidade, e não os valores monetários isoladamente.
A comparação incorporou não apenas lucro, mas a chance de o investimento dar resultado negativo
Um diferencial importante foi avaliar conjuntamente desempenho agronômico, custos, viabilidade financeira, sensibilidade e risco. Isso permitiu mostrar que duas alternativas classificadas como economicamente viáveis podem apresentar níveis bastante diferentes de segurança financeira.
A comparação entre Siluet e Santa Clara deixa isso claro. A primeira apresentou maior produtividade e melhores indicadores econômicos, enquanto a segunda ficou muito mais próxima do limite de viabilidade em alguns cenários.
A simulação de Monte Carlo acrescentou uma medida intuitiva dessa diferença. Depois de 10 mil simulações, a probabilidade estimada de VPL negativo foi de 4,48% para Siluet e 30,31% para Santa Clara. Assim, o trabalho não se limitou a perguntar qual cultivar gerava maior retorno no cenário esperado, mas também estimou a possibilidade de o resultado econômico se tornar negativo.
Produtividade e preço são decisivos para transformar produção em rentabilidade
A principal lição é que bons resultados agronômicos e econômicos estão diretamente conectados. A cultivar Siluet produziu 22,7% mais que a Santa Clara e essa vantagem contribuiu para uma receita maior, enquanto seu custo total foi menor no cenário estudado. O resultado final foi uma diferença expressiva no lucro líquido e no risco econômico.
A análise de sensibilidade reforça essa interpretação: produtividade e preço recebido foram os fatores que mais alteraram a rentabilidade quando submetidos a variações desfavoráveis de 10%. Depois deles apareceram embalagem, mão de obra e impostos e encargos.
Isso significa que avaliar a produção de tomate orgânico apenas pelo custo dos insumos oferece uma visão incompleta. No sistema analisado, a quantidade produzida, o preço efetivamente recebido e a cultivar escolhida tiveram papel central na capacidade de o investimento gerar retorno econômico.
A diferença de risco entre as cultivares mostra por que viabilidade não significa ausência de incerteza
As duas cultivares foram consideradas economicamente viáveis pelos autores, mas apresentaram resultados muito diferentes quando o risco foi incorporado. A Santa Clara teve probabilidade estimada de 30,31% de gerar VPL negativo, enquanto para Siluet essa probabilidade foi de 4,48%.
Essa diferença é relevante porque mostra que uma análise baseada apenas no resultado esperado pode esconder informações importantes para a decisão do produtor. Preço, produtividade e custos podem variar, afetando o retorno final.
Os próprios autores ressaltam que a avaliação realizada se concentrou no risco econômico. Fatores bióticos e abióticos também representam riscos para a atividade, embora o cultivo protegido utilizado no experimento tenha contribuído para minimizar riscos climáticos, de pragas e doenças.
Perguntas que este estudo ajuda a responder
Qual das duas cultivares de tomate apresentou melhor resultado?
A Siluet apresentou o melhor desempenho. Sua produção média foi de 3,56 kg por planta, contra 2,90 kg da Santa Clara, uma diferença de 22,7%. No cenário econômico da estufa de 144 m², a Siluet também alcançou receita bruta de R$ 5.126,40 e lucro líquido de R$ 1.274,70. A Santa Clara apresentou receita bruta de R$ 4.176,00 e lucro líquido de apenas R$ 76,50. Por isso, os autores classificaram a Siluet como agroeconomicamente superior.
Qual era o risco de perder dinheiro com cada cultivar?
A simulação econômica estimou uma diferença expressiva entre as cultivares. Para a Santa Clara, a probabilidade de obter um Valor Presente Líquido negativo foi de 30,31%. Para Siluet, foi de 4,48%. Esse resultado foi obtido por uma simulação de Monte Carlo realizada 10 mil vezes, considerando variações nas principais condições econômicas do projeto. O VPL negativo foi utilizado como indicador de inviabilidade econômica nos cenários simulados.
O que mais afetou a rentabilidade do tomate orgânico?
O preço recebido pelo tomate e a produtividade foram os dois fatores com maior impacto sobre a rentabilidade das duas cultivares. Na análise de sensibilidade, os pesquisadores testaram cenários desfavoráveis com variações de 10% e verificaram como cada mudança afetava os indicadores econômicos. Depois do preço e da produtividade, os componentes mais importantes foram embalagem, mão de obra e impostos e encargos. Isso mostra que tanto o desempenho produtivo quanto as condições de comercialização são fundamentais para o resultado financeiro.
Quanto custava produzir tomate orgânico no cenário analisado?
Na estufa de 144 m² considerada pela análise econômica, o custo total foi de R$ 3.851,70 para a cultivar Siluet e R$ 4.099,50 para Santa Clara. O custo operacional total foi de R$ 3.815,40 e R$ 3.978,80, respectivamente. Esses números correspondem ao cenário histórico analisado pelo artigo, com valores médios do Norte Fluminense referentes ao período de 2011 a 2013. Portanto, não representam custos atuais de produção.
Por que a Santa Clara teve custo maior que a Siluet?
Uma diferença importante estava na necessidade de desbrota da cultivar Santa Clara durante seu desenvolvimento. Segundo o estudo, essa operação aumentou em 8,2% o custo operacional efetivo da cultivar. Considerando toda a mão de obra utilizada da implantação à colheita, 48% dos gastos com trabalho da Santa Clara estavam relacionados à desbrota. Ao mesmo tempo, a cultivar produziu menos que a Siluet. Essa combinação de maior demanda operacional e menor produtividade contribuiu para seu desempenho econômico inferior no sistema avaliado.
Sobre o estudo original
- Título científico
- Custos, viabilidade e riscos da produção de tomate orgânico em ambiente protegido
- Autores
- Andrezza da Silva Machado Neto (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro); Niraldo José Ponciano (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro); Paulo Marcelo de Souza (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro); Geraldo de Amaral Gravina (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro); Rogério Figueiredo Daher (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro)
- Revista
- Revista Ciência Agronômica
- Publicado em
- 2018
- DOI
- 10.5935/1806-6690.20180066
Fonte e atribuição
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