Plantas de cobertura no plantio direto orgânico aumentam biomassa e favorecem cucurbitáceas

Publicado no Código Científico em

Quais plantas de cobertura são mais indicadas para o plantio direto orgânico de abobrinha e pepino japonês?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Plantas de cobertura para sistemas de plantio direto de hortaliças como estratégia de mitigação da crise climática na produção orgânica de Cucurbitáceas”, publicado na revista Pesquisa Agropecuária Tropical em 13/12/2024.

Conclusão principal

As plantas de cobertura no plantio direto orgânico apresentaram diferenças importantes na produção e permanência da biomassa e no desempenho das cucurbitáceas. O centeio atingiu 8,97 t/ha de matéria seca em uma das áreas, enquanto a ervilhaca apresentou os menores valores, próximos de 1,2 t/ha. Para a abobrinha, a maior produtividade ocorreu após aveia-preta. Para implantação do sistema, os autores recomendam principalmente os consórcios aveia-preta + ervilhaca + nabo-forrageiro ou centeio + ervilhaca + nabo-forrageiro.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • Centeio produziu até 8,97 t/ha de matéria seca
  • nenhum tratamento alcançou as 10 t/ha de biomassa recomendadas para o sistema
  • gramíneas apresentaram maior produção e permanência da biomassa que a ervilhaca
  • aveia-preta proporcionou a maior produtividade de abobrinha
  • os autores recomendam os consórcios aveia-preta + ervilhaca + nabo-forrageiro ou centeio + ervilhaca + nabo-forrageiro

O estudo testou coberturas de inverno para hortaliças em sistema orgânico

O estudo avaliou plantas de cobertura no plantio direto orgânico destinado à produção de abobrinha italiana e pepino japonês. O objetivo foi identificar espécies e consórcios capazes de produzir biomassa, manter cobertura sobre o solo e contribuir para o desempenho das hortaliças cultivadas posteriormente.

Foram comparados cultivos solteiros de aveia-preta, centeio e ervilhaca, além dos consórcios aveia-preta + ervilhaca, aveia-preta + ervilhaca + nabo-forrageiro e centeio + ervilhaca + nabo-forrageiro. O pousio de inverno com vegetação espontânea também foi avaliado.

Além da quantidade de matéria seca produzida, os pesquisadores acompanharam a velocidade de decomposição da biomassa e sua meia-vida sobre o solo. Posteriormente, avaliaram produtividade, peso médio e comprimento dos frutos de abobrinha e pepino japonês.

Dois experimentos foram conduzidos em um assentamento rural do Rio Grande do Sul

Os experimentos foram realizados em 2020 no assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, Rio Grande do Sul. Duas áreas foram utilizadas: uma recebeu posteriormente abobrinha italiana cultivar Caserta e a outra, pepino japonês cultivar Soldier.

O delineamento experimental foi em blocos casualizados, com três repetições. Os tratamentos foram aveia-preta, centeio e ervilhaca em cultivo solteiro; aveia-preta + ervilhaca; aveia-preta + ervilhaca + nabo-forrageiro; centeio + ervilhaca + nabo-forrageiro; e pousio de inverno.

A matéria seca das coberturas foi determinada antes do manejo das plantas. Para avaliar a decomposição, amostras da biomassa foram colocadas em bolsas sobre o solo e recuperadas aos 15, 30, 45 e 60 dias após o transplantio das hortaliças. A partir desses dados, foram calculados o coeficiente de decomposição e a meia-vida da biomassa.

Na etapa seguinte, foram determinados peso médio, comprimento médio e produtividade total dos frutos das duas cucurbitáceas.

Centeio e consórcios produziram mais biomassa que ervilhaca e pousio

Na área cultivada posteriormente com abobrinha, centeio + ervilhaca + nabo-forrageiro produziu 5,61 t/ha de matéria seca, centeio solteiro 5,60 t/ha e aveia-preta + ervilhaca + nabo-forrageiro 5,03 t/ha. Esses três tratamentos formaram o grupo com maior produção de biomassa nessa área.

Aveia-preta solteira produziu 2,76 t/ha e aveia-preta + ervilhaca, 2,71 t/ha. Os menores resultados foram observados no pousio de inverno, com 1,52 t/ha, e na ervilhaca solteira, com 1,11 t/ha.

Na área destinada ao pepino japonês, o centeio apresentou o maior resultado, com 8,97 t/ha. Aveia-preta + ervilhaca + nabo-forrageiro produziu 5,61 t/ha, centeio + ervilhaca + nabo-forrageiro 5,52 t/ha, aveia-preta 5,23 t/ha e aveia-preta + ervilhaca 4,81 t/ha. Novamente, pousio e ervilhaca apresentaram os menores valores, com 2,47 e 1,19 t/ha, respectivamente.

Apesar das diferenças, nenhum tratamento alcançou as 10 t/ha de biomassa mencionadas no artigo como quantidade recomendada para sistemas de plantio direto de hortaliças.

Gramíneas mantiveram a cobertura vegetal por mais tempo sobre o solo

Além de produzir biomassa, uma planta de cobertura precisa permanecer tempo suficiente sobre o solo para desempenhar sua função no plantio direto. Nesse aspecto, as gramíneas apresentaram vantagem sobre a ervilhaca.

Na área da abobrinha, o centeio apresentou meia-vida estimada de 102,55 dias. A aveia-preta atingiu 78,26 dias. A ervilhaca apresentou 47,52 dias, indicando decomposição mais rápida.

Na área do pepino japonês, a meia-vida foi de 80,66 dias para centeio, 73,83 dias para aveia-preta e 47,83 dias para ervilhaca. Os consórcios apresentaram valores intermediários.

Os pesquisadores relacionam esse comportamento às diferenças na composição da biomassa. Gramíneas apresentam características que favorecem decomposição mais lenta, enquanto a biomassa de leguminosas como a ervilhaca tende a desaparecer mais rapidamente. Os consórcios permitem combinar características das diferentes famílias de plantas.

A aveia-preta apresentou a melhor resposta para a produtividade da abobrinha

Na produção da abobrinha italiana, a sucessão à aveia-preta apresentou a maior produtividade e o maior peso médio dos frutos. O comprimento médio dos frutos, por outro lado, não apresentou diferença significativa entre os tratamentos.

Esse resultado ocorreu mesmo com produção de biomassa da aveia-preta inferior à recomendação mencionada para o sistema. Os autores destacam que sua biomassa ficou 72% abaixo desse valor de referência, mas ainda assim proporcionou a melhor resposta da abobrinha.

Para o pepino japonês, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os tratamentos com plantas de cobertura nas variáveis analisadas. Entretanto, esses tratamentos apresentaram desempenho superior ao pousio de inverno.

Os autores ressaltam que o desempenho do pepino pode ter sido afetado pela ocorrência de tombamento de mudas e por características do solo, incluindo a disponibilidade de fósforo.

Os consórcios combinam produção de biomassa, diversidade e permanência da cobertura

Os resultados não indicaram uma única espécie superior em todas as características. O centeio apresentou elevada produção de matéria seca e maior persistência da biomassa. A aveia-preta, por sua vez, destacou-se pelo efeito observado sobre a produtividade da abobrinha. Já a ervilhaca solteira apresentou baixa produção de biomassa e decomposição mais rápida.

Os consórcios permitem combinar plantas com características diferentes. Na área da abobrinha, centeio + ervilhaca + nabo-forrageiro e aveia-preta + ervilhaca + nabo-forrageiro ficaram entre os tratamentos de maior produção de matéria seca.

A associação entre gramíneas, leguminosas e nabo-forrageiro também aumenta a diversidade do sistema. Por isso, considerando conjuntamente os resultados e os princípios do plantio direto de hortaliças, os autores recomendam os consórcios com aveia-preta ou centeio associados à ervilhaca e ao nabo-forrageiro.

Deixar apenas a vegetação espontânea produziu menos biomassa que as melhores coberturas cultivadas

O pousio de inverno apresentou desempenho inferior aos tratamentos de maior produção de biomassa nas duas áreas experimentais. Foram obtidas 1,52 t/ha de matéria seca na área da abobrinha e 2,47 t/ha na área do pepino japonês.

Na vegetação espontânea predominava Lolium multiflorum, acompanhada por espécies como Bidens pilosa, Conyza bonariensis, Cynodon dactylon e Daucus pusillus.

Os resultados reforçaram, nas condições do experimento, a importância da introdução planejada de plantas de cobertura no plantio direto de hortaliças. Tratamentos com espécies cultivadas, particularmente centeio e alguns consórcios, produziram quantidades substancialmente maiores de biomassa que o pousio.

A diferença é importante porque a formação de cobertura vegetal sobre o solo constitui um dos componentes fundamentais para implantação e manutenção desse sistema de produção.

Os autores recomendam dois consórcios para o plantio direto orgânico de hortaliças

Considerando produção de biomassa, decomposição, diversificação do sistema e desempenho das hortaliças, os autores recomendam principalmente duas combinações: aveia-preta + ervilhaca + nabo-forrageiro e centeio + ervilhaca + nabo-forrageiro.

O estudo também mostrou que as características do solo influenciaram significativamente a produção e a decomposição da biomassa. As duas áreas apresentavam baixos teores de matéria orgânica, de 1,30% e 1,00%, e diferenças de solo e ambiente contribuíram para respostas distintas entre os experimentos.

Os resultados reforçam que a escolha das plantas de cobertura deve considerar não apenas quanto de matéria seca cada espécie produz, mas também sua velocidade de decomposição, sua interação com outras espécies e os efeitos sobre a cultura cultivada posteriormente.

Para os autores, integrar plantas de cobertura ao plantio direto orgânico de hortaliças representa uma estratégia para tornar esses agroecossistemas mais diversificados, resilientes e alinhados a práticas agrícolas sustentáveis.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

Qual planta de cobertura produziu mais biomassa?

O maior valor observado foi para o centeio solteiro na área destinada ao pepino japonês, com 8,97 t/ha de matéria seca. Na área da abobrinha, os maiores resultados foram obtidos com centeio + ervilhaca + nabo-forrageiro, com 5,61 t/ha; centeio, com 5,60 t/ha; e aveia-preta + ervilhaca + nabo-forrageiro, com 5,03 t/ha. Esses três tratamentos não diferiram estatisticamente entre si nessa área.

Qual cobertura apresentou maior permanência da biomassa sobre o solo?

O centeio apresentou os maiores valores de meia-vida entre os tratamentos avaliados, alcançando 102,55 dias na área da abobrinha e 80,66 dias na área do pepino japonês. A ervilhaca apresentou valores de 47,52 e 47,83 dias, respectivamente. Os resultados mostram a maior persistência da biomassa das gramíneas em comparação com a ervilhaca.

Qual planta de cobertura proporcionou maior produtividade de abobrinha?

A aveia-preta apresentou a melhor resposta para a abobrinha italiana, proporcionando a maior produtividade e o maior peso médio dos frutos entre os tratamentos. Não houve diferença significativa no comprimento médio dos frutos. O resultado ocorreu mesmo com a quantidade de biomassa da aveia-preta ficando abaixo do valor de referência mencionado para o plantio direto de hortaliças.

As plantas de cobertura também beneficiaram o pepino japonês?

Os tratamentos com plantas cultivadas não apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre si nas variáveis avaliadas para o pepino japonês. Entretanto, tiveram desempenho superior ao pousio de inverno. Os autores ressaltam que o experimento com pepino sofreu ocorrência de tombamento de mudas e que características do solo também podem ter influenciado seu desempenho.

Quais consórcios são recomendados para o plantio direto orgânico?

Os autores recomendam os consórcios aveia-preta + ervilhaca + nabo-forrageiro ou centeio + ervilhaca + nabo-forrageiro. Essas combinações associaram produção de biomassa à diversificação de espécies, reunindo plantas de diferentes famílias e características de decomposição. O estudo conclui que esses consórcios são alternativas adequadas para implantação do plantio direto orgânico de hortaliças nas condições avaliadas.

Sobre o estudo original

Título científico
Plantas de cobertura para sistemas de plantio direto de hortaliças como estratégia de mitigação da crise climática na produção orgânica de Cucurbitáceas
Autores
Fernanda Timm (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); Tatiana da Silva Duarte (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); Paulo César do Nascimento (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Revista
Pesquisa Agropecuária Tropical
Publicado em
13/12/2024
DOI
10.1590/1983-40632024v5479612

Fonte e atribuição

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