Conversão do café convencional para orgânico pode elevar o lucro, mas depende do preço

Publicado no Código Científico em

A conversão do café convencional para orgânico é economicamente viável para o produtor?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Análise da maximização do lucro e minimização do custo no processo de conversão do café convencional para o orgânico: um estudo de caso”, publicado na revista Revista de Economia e Sociologia Rural em 2013.

Conclusão principal

A conversão do café convencional para orgânico mostrou potencial de viabilidade econômica no estudo de caso realizado no Sítio Terra Verde, em Espírito Santo do Pinhal, São Paulo. Em um cenário de maximização do lucro, o oitavo ano, já com manejo 100% orgânico, apresentou lucro de R$ 177.101,60 em uma safra de baixa produção, 14,54% superior ao sistema convencional comparado. Entretanto, a viabilidade depende fortemente do preço recebido pelo café orgânico: a simulação considerou um adicional de 30% sobre o preço do produto convencional.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • A conversão foi simulada ao longo de oito anos
  • o período necessário para a propriedade ser considerada orgânica foi de 24 meses
  • o preço do café orgânico foi considerado 30% superior ao convencional
  • no cenário de maximização do lucro, o oitavo ano apresentou lucro de R$ 177.101,60
  • esse lucro foi 14,54% superior ao convencional comparado
  • a viabilidade econômica apresentou forte dependência do diferencial de preço

O estudo avaliou economicamente a transição de uma propriedade de café para o sistema orgânico

A pesquisa analisou a conversão do café convencional para orgânico no Sítio Terra Verde, localizado em Espírito Santo do Pinhal, no estado de São Paulo. O objetivo foi verificar se a mudança poderia ser economicamente viável quando comparada à continuidade do manejo convencional.

Os pesquisadores utilizaram programação linear para construir dois cenários. No primeiro, o objetivo foi maximizar o lucro. No segundo, minimizar o custo de produção. O planejamento acompanhou oito anos e considerou a bienalidade do café, alternando anos de alta e baixa produção.

A conversão foi dividida em três fases de manejo: substituição parcial dos insumos convencionais, período de conversão e produção orgânica. A análise mostrou que o produtor pode enfrentar redução de produção e lucro durante parte da transição, enquanto os resultados econômicos melhoram quando as áreas passam efetivamente ao manejo orgânico e o produto começa a receber o preço diferenciado.

Programação linear foi utilizada para simular dois cenários ao longo de oito anos

Os dados técnicos e econômicos utilizados na modelagem foram obtidos no Sítio Terra Verde a partir das safras 2010/2011 e 2011/2012. A propriedade foi utilizada como estudo de caso para construir uma simulação de conversão que se estendeu da safra 2012/2013 até 2019/2020.

O primeiro cenário teve como função-objetivo maximizar o lucro, enquanto o segundo buscou minimizar o custo para determinados níveis de renda. Em ambos, os resultados foram comparados com a situação hipotética em que a propriedade permanecesse no sistema convencional durante os oito anos.

A simulação considerou um período de 24 meses para que a propriedade pudesse ser considerada orgânica. No primeiro ano, foram previstas substituições parciais dos insumos convencionais pelos orgânicos. A partir do segundo ano, seriam utilizados apenas insumos orgânicos, iniciando o período necessário para a conversão.

O modelo também incorporou alterações esperadas na produtividade, nos custos e no preço. Quando o café atingia a condição de orgânico, seu preço foi considerado 30% superior ao preço do café convencional.

A conversão provocou anos de queda antes de gerar resultados superiores ao sistema convencional

No cenário de maximização do lucro, a produção atingiu seus menores níveis no quinto e sexto anos do planejamento: 777,37 sacas no ano de alta produção e 488,62 sacas no ano de baixa produção.

O quarto ano, correspondente à safra 2015/2016, foi especialmente difícil. Em relação ao sistema convencional utilizado como referência para os anos de baixa produção, a renda caiu 25,09% e o lucro diminuiu 44,36%.

A situação mudou no final do planejamento. No oitavo ano, quando o manejo já era 100% orgânico, o lucro atingiu R$ 177.101,60. Esse valor representou aumento de 14,54% em relação ao sistema convencional comparado. A renda aumentou 5,91%, enquanto o custo ficou 0,84% menor.

Nos anos de alta produção, a safra 2018/2019 também apresentou recuperação: em relação ao convencional, a renda ficou 7,64% maior e o lucro 0,54% superior. Assim, o cenário mostrou perdas relevantes durante a transição, seguidas por melhora econômica quando a produção passou à condição orgânica.

Minimizar custos também levou a lucros superiores quando a área estava em manejo orgânico

No cenário de minimização do custo, a programação linear buscou produzir respeitando determinados níveis de renda com o menor gasto possível. Isso levou a volumes de produção inferiores aos observados no sistema convencional em vários momentos da conversão.

As menores produções ocorreram nas safras 2017/2018 e 2018/2019, com 462,12 e 804,22 sacas, respectivamente. Esses volumes foram 34,5% e 26,8% inferiores aos do sistema convencional utilizado como referência.

Mesmo com essa redução, os resultados econômicos melhoraram quando a propriedade alcançou o manejo orgânico. Na safra 2018/2019, de alta produção, o lucro atingiu R$ 213.279,70, ficando 6,93% acima do sistema convencional comparado. Na safra 2019/2020, de baixa produção, o lucro chegou a R$ 170.926,10, aumento de 10,54%, enquanto a renda ficou 0,68% menor.

Assim, reduzir a produção não significou necessariamente reduzir o lucro, pois o modelo combinou menores custos com o preço diferenciado considerado para o café orgânico.

O período de conversão é o principal desafio econômico para o cafeicultor

Os resultados mostram que a conversão não produz benefícios econômicos imediatos. Durante alguns anos, o cafeicultor pode enfrentar simultaneamente queda de produtividade e redução do lucro.

Um dos momentos mais críticos ocorreu no quarto ano do planejamento, safra 2015/2016. No cenário de maximização do lucro, houve redução de 44,36% no lucro em relação à referência convencional de baixa produção. No cenário de minimização do custo, a queda foi de 44,48%.

Essa fase é particularmente importante porque, durante a conversão, o produtor já precisa seguir o manejo orgânico, mas o café ainda não pode ser comercializado como produto orgânico. Consequentemente, ainda não recebe o adicional de preço considerado para o produto certificado.

Os resultados finais favoráveis precisam, portanto, ser analisados juntamente com as dificuldades financeiras existentes durante a transição.

O adicional de preço é decisivo para a viabilidade econômica do café orgânico

A simulação considerou que, depois de concluída a conversão, a saca de café orgânico seria comercializada por um preço 30% superior ao do café convencional. Esse diferencial foi adotado pelos autores de maneira conservadora a partir das referências utilizadas no estudo.

O preço é fundamental porque a produção orgânica simulada permaneceu abaixo da produção convencional em diferentes anos. No cenário de maximização do lucro, por exemplo, a produção da safra 2019/2020 ficou 18,5% abaixo da referência convencional. Mesmo assim, o lucro foi 14,54% maior.

O ganho econômico ocorreu porque o preço adicional compensou a menor quantidade produzida, juntamente com o comportamento dos custos.

Por isso, a conclusão do artigo não é de que a conversão será economicamente vantajosa em qualquer situação. Os autores ressaltam que a viabilidade do sistema orgânico apresenta extrema dependência do diferencial de preço entre o café convencional e o orgânico.

Oito anos de conversão ainda renderam menos no acumulado dos anos de alta produção

Embora os resultados finais tenham favorecido o sistema orgânico, a análise acumulada mostra a importância de considerar todo o período de transição.

Somando os anos de alta produção dentro dos oito anos analisados, o lucro geral total foi de R$ 554.675,42 no sistema convencional, R$ 430.847,51 no cenário de maximização do lucro e R$ 409.336,05 no cenário de minimização do custo. Portanto, durante esse período, os cenários de conversão acumularam menos lucro.

A vantagem apareceu quando os autores projetaram a continuidade da produção após a conversão. Mantendo o nível de produção orgânica para quatro anos adicionais de alta produção, entre as safras 2020/2021 e 2026/2027, o lucro geral total projetado alcançou R$ 617.978,65 no cenário de maximização e R$ 578.919,85 no cenário de minimização.

Isso mostra que a análise econômica da conversão precisa considerar um horizonte suficientemente longo para incorporar tanto os custos e perdas da transição quanto os resultados posteriores da produção orgânica.

A conversão pode ser viável, mas o resultado depende das condições de cada propriedade

O estudo conclui que a adoção da produção orgânica de café pode ser economicamente viável nas condições simuladas para o Sítio Terra Verde. Nos dois cenários, o final do planejamento apresentou situação econômica superior à manutenção do sistema convencional em termos de lucro.

Essa conclusão, entretanto, não deve ser generalizada automaticamente para qualquer cafeicultor. O modelo foi construído com as características de uma propriedade específica, incluindo seus custos, produtividade, disponibilidade de recursos e condições agronômicas.

Os próprios autores ressaltam que o método pode ser aplicado a outras propriedades, mas os resultados podem mudar conforme suas limitações particulares.

Além disso, a viabilidade encontrada está fortemente vinculada ao diferencial de preço. Sem uma remuneração adicional suficiente pelo café orgânico, a menor produtividade observada durante e após partes do processo de conversão pode alterar significativamente o resultado econômico.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

A conversão do café convencional para orgânico foi economicamente viável?

Nas condições simuladas para a propriedade estudada, os resultados finais indicaram viabilidade econômica. No cenário de maximização do lucro, o oitavo ano apresentou lucro de R$ 177.101,60, 14,54% superior ao sistema convencional comparado. No cenário de minimização do custo, o lucro foi de R$ 170.926,10, aumento de 10,54%. Entretanto, os autores destacam que essa viabilidade depende fortemente do diferencial de preço recebido pelo café orgânico.

Quanto a mais foi considerado no preço do café orgânico?

A simulação adotou um adicional de 30% sobre o preço da saca de café convencional quando o produto alcançava a condição de orgânico. Os autores utilizaram esse percentual como hipótese conservadora com base nas referências analisadas. Esse adicional teve papel fundamental nos resultados, pois ajudou a compensar a redução de produtividade observada em diferentes momentos da conversão.

O produtor perde dinheiro durante a conversão?

O estudo não encontrou prejuízo em todos os anos, mas mostrou reduções expressivas de lucro durante a transição. O quarto ano foi especialmente crítico. Na safra 2015/2016, o lucro caiu 44,36% no cenário de maximização e 44,48% no cenário de minimização em comparação com a referência convencional. Portanto, mesmo que o resultado final seja favorável, o produtor precisa considerar a redução temporária da rentabilidade durante o processo.

Por que o período de conversão é economicamente difícil?

Durante a fase de conversão, o produtor precisa utilizar manejo orgânico, mas o café ainda não é classificado como orgânico para comercialização. Assim, pode enfrentar aumento ou alteração dos custos e redução de produtividade sem receber imediatamente o preço adicional do produto orgânico. Somente após a conclusão do processo o modelo passou a considerar o acréscimo de 30% no preço da saca.

A conversão será rentável para qualquer propriedade de café?

Não é possível concluir isso a partir do estudo. A pesquisa analisou uma propriedade específica em Espírito Santo do Pinhal e os resultados dependem de suas condições de produção, custos, produtividade e restrições. Os autores afirmam que a metodologia pode ser aplicada a outras propriedades, mas os resultados podem ser diferentes. Além disso, a viabilidade econômica encontrada apresentou forte dependência do diferencial de preço entre o café convencional e o orgânico.

Sobre o estudo original

Título científico
Análise da maximização do lucro e minimização do custo no processo de conversão do café convencional para o orgânico: um estudo de caso
Autores
Renato Alves de Oliveira (Universidade Estadual de Ponta Grossa); José Vicente Caixeta Filho (Universidade Estadual de Ponta Grossa)
Revista
Revista de Economia e Sociologia Rural
Publicado em
2013
DOI
10.1590/s0103-20032013000300007

Fonte e atribuição

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