Arroz orgânico apresentou maior potencial de controle de pragas por insetos aquáticos

Publicado no Código Científico em

Os serviços ecossistêmicos fornecidos potencialmente por insetos aquáticos diferem entre arrozais orgânicos e convencionais?

Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Potenciais serviços ecossistêmicos prestados por insetos aquáticos em arrozais irrigados sob diferentes sistemas de cultivo”, publicado na revista Ambiente & Sociedade em 2025.

Conclusão principal

O arroz orgânico apresentou maior disponibilidade potencial de controle de pragas por insetos aquáticos, enquanto os arrozais convencionais estiveram mais associados à fertilização do solo e à polinização. Foram coletados 680 insetos distribuídos em 16 gêneros: 15 gêneros ocorreram nos arrozais orgânicos e sete nos convencionais. Os resultados mostram que os diferentes sistemas de cultivo estiveram associados a comunidades de insetos com funções ecológicas distintas.

Principais resultados e informações do estudo em resumo

  • Foram coletados 680 insetos aquáticos de 16 gêneros
  • arrozais orgânicos apresentaram 15 gêneros e os convencionais sete
  • insetos predadores estiveram mais associados ao sistema orgânico
  • o controle de pragas teve maior associação potencial com arrozais orgânicos
  • fertilização do solo e polinização estiveram mais associadas aos arrozais convencionais

O estudo comparou três serviços ecossistêmicos potenciais em arrozais orgânicos e convencionais

A pesquisa investigou se arrozais irrigados manejados em sistemas orgânico e convencional diferem quanto aos serviços ecossistêmicos potencialmente fornecidos pelos insetos aquáticos. Foram considerados três serviços: controle de pragas, fertilização do solo e polinização.

A avaliação foi além da identificação dos insetos presentes. Os pesquisadores relacionaram cada grupo a características funcionais, como hábito, forma de alimentação e tolerância a pesticidas. Essas características ajudam a indicar as funções ecológicas que os organismos podem desempenhar no ambiente.

A expectativa inicial era encontrar maior disponibilidade de serviços nos arrozais orgânicos, considerando sua tendência de sustentar maior diversidade de insetos aquáticos. Os resultados, porém, mostraram uma distribuição mais complexa: o arroz orgânico esteve mais associado ao controle de pragas, enquanto os arrozais convencionais apresentaram maior associação potencial com fertilização do solo e polinização.

Quatro arrozais do Rio Grande do Sul foram avaliados durante a safra 2021/2022

O estudo exploratório avaliou quatro arrozais irrigados no Rio Grande do Sul. Dois arrozais convencionais estavam localizados em Cachoeira do Sul. Os dois orgânicos ficavam em Sentinela do Sul e Santa Vitória do Palmar. A seleção considerou áreas convencionais com uso de agrotóxicos e áreas orgânicas sem aplicação desses produtos.

Cada arrozal foi amostrado quatro vezes durante a safra 2021/2022: em outubro, novembro e dezembro de 2021 e março de 2022. Os insetos aquáticos foram coletados no sedimento com puçá e posteriormente separados e identificados em laboratório.

Para estimar os serviços ecossistêmicos, os organismos foram classificados segundo atributos funcionais potencialmente relacionados a controle de pragas, fertilização do solo e polinização. Os pesquisadores compararam estatisticamente as composições taxonômica e funcional dos insetos e a disponibilidade potencial dos serviços entre os sistemas de cultivo, controlando também a variação entre os períodos de coleta.

Arrozais orgânicos apresentaram 15 gêneros de insetos, contra sete nos convencionais

Foram coletados 680 insetos aquáticos pertencentes a 16 gêneros, 13 famílias e seis ordens. Nos arrozais orgânicos ocorreram 15 gêneros, enquanto nos convencionais foram registrados sete. A composição taxonômica diferiu significativamente entre os sistemas.

Também houve diferença significativa na composição funcional. Insetos predadores e grupos com baixa tolerância a pesticidas estiveram associados aos arrozais orgânicos. Os gêneros Sigara e Erythrodiplax apresentaram maior abundância nesses ambientes, e representantes das ordens Odonata e Hemiptera tiveram associação com o sistema orgânico.

Nos arrozais convencionais, apareceram associados insetos com média ou alta tolerância a pesticidas, grupos coletores e organismos de hábitos bentônicos. Chironomus e Tropisternus estiveram entre os gêneros mais abundantes nesses ambientes.

Essas diferenças se refletiram nos serviços ecossistêmicos potenciais. O controle de pragas, relacionado principalmente a Odonata e Hemiptera, apresentou maior associação com arrozais orgânicos. Fertilização do solo, relacionada a grupos como Chironomidae e Elmidae, e polinização estiveram mais associadas aos sistemas convencionais. Portanto, o sistema com mais gêneros não concentrou necessariamente todos os serviços avaliados.

Os sistemas de cultivo favoreceram conjuntos diferentes de funções ecológicas

Na prática, os resultados mostram que contar quantos grupos de insetos vivem em um arrozal não é suficiente para compreender sua contribuição potencial ao funcionamento do agroecossistema. Também importa saber quais funções esses organismos podem desempenhar.

No arroz orgânico, a maior presença de insetos predadores esteve relacionada a maior disponibilidade potencial de controle de pragas. Nos arrozais convencionais, organismos com hábitos bentônicos, coletores ou fragmentadores estiveram associados a processos como movimentação do sedimento, reciclagem da matéria orgânica e fluxos de nutrientes, relacionados à fertilização do solo. A polinização também apresentou maior associação com o sistema convencional.

Esses resultados representam serviços potenciais. A pesquisa estimou as funções a partir da presença, abundância e características dos insetos; não mediu diretamente quantas pragas foram eliminadas, quanto o solo foi fertilizado ou quanto de polinização ocorreu.

Os resultados ajudam a entender como o manejo pode modificar as funções da biodiversidade nos arrozais

Os resultados são especialmente relevantes para a avaliação ambiental de arrozais irrigados e para estratégias que buscam incorporar a biodiversidade ao manejo agrícola. O estudo mostra que diferentes sistemas de cultivo podem estar associados não apenas a diferentes grupos de insetos, mas também a diferentes funções ecológicas potenciais.

A pesquisa avaliou apenas quatro arrozais no Rio Grande do Sul e foi definida pelos autores como exploratória. Portanto, os resultados caracterizam as áreas estudadas e não significam que todos os arrozais orgânicos ou convencionais apresentem exatamente o mesmo padrão.

Os autores recomendam ampliar a frequência das amostragens e a escala espacial das pesquisas para avaliar com maior precisão as diferenças entre os sistemas e investigar a possível relação entre o uso de agrotóxicos e as funções ecológicas dos insetos aquáticos.

A pesquisa avaliou o papel ecológico dos insetos, e não apenas quais grupos estavam presentes

Um diferencial do trabalho foi integrar informações taxonômicas e funcionais. Em outras palavras, os pesquisadores consideraram tanto quais insetos estavam presentes quanto o que esses organismos potencialmente fazem no agroecossistema.

Para isso, cada grupo foi relacionado a características como hábito, alimentação e tolerância a pesticidas. Predadores, por exemplo, foram associados ao controle de pragas, enquanto organismos capazes de movimentar sedimentos ou participar da decomposição da matéria orgânica foram relacionados à fertilização do solo.

Essa abordagem permitiu identificar potenciais compensações entre serviços. O arroz orgânico apresentou maior associação com controle de pragas, enquanto fertilização do solo e polinização tiveram maior associação com arrozais convencionais. Assim, a análise funcional acrescentou informações que uma comparação baseada somente na quantidade ou identidade dos insetos não mostraria.

Mais diversidade de insetos não significou maior potencial para todos os serviços avaliados

A principal lição é que biodiversidade e função ecológica precisam ser consideradas conjuntamente. Os arrozais orgânicos apresentaram 15 dos 16 gêneros registrados no estudo, enquanto os convencionais apresentaram sete. Mesmo assim, todos os serviços ecossistêmicos avaliados não ficaram concentrados no sistema orgânico.

O controle potencial de pragas esteve mais associado ao arroz orgânico, principalmente pela presença de grupos predadores. Fertilização do solo e polinização apresentaram maior associação com os arrozais convencionais.

Os autores interpretam esse padrão como evidência de potenciais compensações entre serviços ecossistêmicos nos diferentes sistemas de cultivo. Isso reforça a utilidade de analisar as funções desempenhadas pela biodiversidade, em vez de considerar somente a quantidade de grupos presentes em determinado ambiente agrícola.

Conhecer as funções dos insetos permite avaliar melhor os serviços associados à biodiversidade agrícola

O estudo é relevante porque demonstra uma forma de transformar informações sobre insetos aquáticos em indicadores do funcionamento potencial dos agroecossistemas. A abordagem permite identificar diferenças entre sistemas agrícolas que não seriam evidentes apenas pela contagem dos organismos presentes.

No arroz orgânico, insetos predadores estiveram relacionados à maior disponibilidade potencial de controle de pragas. Nos sistemas convencionais, outros grupos contribuíram para a maior associação com fertilização do solo e polinização.

Segundo os autores, integrar dados sobre composição biológica e características funcionais pode contribuir para o monitoramento dos serviços ecossistêmicos e para estratégias voltadas à sustentabilidade agrícola. A abordagem também permite identificar possíveis compensações entre diferentes serviços fornecidos pela biodiversidade associada aos sistemas produtivos.

Perguntas que este estudo ajuda a responder

Foram encontrados mais tipos de insetos nos arrozais orgânicos?

Sim. Dos 16 gêneros registrados no conjunto da pesquisa, 15 ocorreram nos arrozais orgânicos e sete nos convencionais. No total, foram coletados 680 insetos distribuídos em 13 famílias e seis ordens. A composição taxonômica também diferiu significativamente entre os sistemas, mostrando que a diferença não estava apenas na quantidade de gêneros, mas também nos grupos que formavam essas comunidades.

Os insetos dos arrozais orgânicos podem ajudar no controle de pragas?

Os resultados indicaram maior disponibilidade potencial desse serviço nos arrozais orgânicos. Esses ambientes estiveram associados a insetos predadores, principalmente representantes das ordens Odonata e Hemiptera. Esses grupos foram relacionados pelos pesquisadores ao controle de pragas. A pesquisa, entretanto, estimou esse potencial a partir da composição e das características funcionais dos insetos. Não houve medição direta da quantidade de pragas eliminadas por esses organismos.

Os arrozais convencionais também apresentaram serviços ecossistêmicos?

Sim. A fertilização do solo e a polinização apresentaram maior associação potencial com os arrozais convencionais. A fertilização esteve relacionada à presença de grupos capazes de participar de processos como movimentação do sedimento, reciclagem da matéria orgânica e fluxos de nutrientes. A polinização também apareceu associada a grupos encontrados nesses ambientes. Portanto, os resultados indicaram diferentes conjuntos de funções nos dois sistemas, e não ausência de serviços nos arrozais convencionais.

Como os pesquisadores determinaram quais serviços os insetos poderiam fornecer?

Os insetos foram classificados de acordo com características funcionais descritas na literatura, incluindo hábito, grupo alimentar e tolerância a pesticidas. Essas características foram relacionadas a controle de pragas, fertilização do solo e polinização. A abundância dos diferentes grupos também foi considerada. Dessa forma, os pesquisadores estimaram quais funções estavam potencialmente mais disponíveis em cada sistema a partir da combinação entre os organismos encontrados, suas características ecológicas e sua abundância.

O estudo mostra que todo arrozal orgânico terá maior controle de pragas?

Não. O trabalho foi exploratório e avaliou dois arrozais orgânicos e dois convencionais no Rio Grande do Sul. Nas áreas estudadas, os arrozais orgânicos apresentaram maior associação com insetos predadores e maior disponibilidade potencial de controle de pragas. Os autores recomendam ampliar as amostragens e as escalas espaciais em pesquisas futuras para verificar se essas diferenças se repetem e investigar com maior precisão os fatores relacionados às diferenças entre os sistemas de cultivo.

Sobre o estudo original

Título científico
Potenciais serviços ecossistêmicos prestados por insetos aquáticos em arrozais irrigados sob diferentes sistemas de cultivo
Autores
Pauline Amanda Vognach (Programa de Pós-graduação em Ambiente e Desenvolvimento, Universidade do Vale do Taquari (UNIVATES), Lajeado, RS, Brasil); Mateus Marques Pires (Programa de Pós-graduação em Ambiente e Desenvolvimento, Universidade do Vale do Taquari (UNIVATES), Lajeado, RS, Brasil); Marina Schmidt Dalzochio (Programa de Pós-graduação em Ambiente e Desenvolvimento, Universidade do Vale do Taquari (UNIVATES), Lajeado, RS, Brasil); Eduardo Périco (Programa de Pós-graduação em Ambiente e Desenvolvimento, Universidade do Vale do Taquari (UNIVATES), Lajeado, RS, Brasil)
Revista
Ambiente & Sociedade
Publicado em
2025
DOI
10.1590/1809-4422asoc01071vu28l1oa

Fonte e atribuição

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