Áreas protegidas cobrem 25% da Bacia Amazônica, mas pressões sobre a floresta continuam crescendo
Até que ponto áreas protegidas e territórios indígenas contribuem para a conservação da Amazônia e quais ameaças colocam essa proteção em risco?
Áreas protegidas ocupavam cerca de 25% da Bacia Amazônica e territórios indígenas aproximadamente 27%, segundo os dados geográficos usados na revisão. Apesar dessa ampla cobertura territorial, a proteção formal não eliminou as pressões sobre a floresta. Entre 2000 e 2018, 87% da área desmatada ocorreu fora dessas duas categorias, mas o desmatamento também avançou dentro delas, com uma tendência de alta a partir de meados da década de 2010. Os autores defendem que conservação, reconhecimento territorial, conectividade ecológica e gestão integrada precisam avançar em conjunto.
Principais resultados e informações do estudo em resumo
- Áreas protegidas abrangiam cerca de 25% da Bacia Amazônica nos dados de 2020.
- Foram identificados 6.443 territórios indígenas, cobrindo aproximadamente 27% da bacia.
- Entre 2000 e 2018, 87% da área desmatada ocorreu fora de áreas protegidas e territórios indígenas.
- Cerca de 51% da extensão das áreas protegidas e 48% dos territórios indígenas estavam submetidos a algum tipo de pressão de atividades extrativas ou infraestrutura.
- Os autores apontam a necessidade de integrar áreas protegidas, territórios indígenas e corredores ecológicos em estratégias de conservação de escala regional.
O estudo em números
Cobertura das áreas protegidas na Bacia Amazônica por país
| País | Número de áreas protegidas | Área protegida sem sobreposição (km²) | Parcela da Amazônia do país protegida |
|---|---|---|---|
| Bolívia | 81 | 216.322 | 30,3% |
| Brasil | 340 | 1.226.241 | 24,3% |
| Colômbia | 39 | 89.091 | 26,0% |
| Equador | 26 | 35.487 | 26,8% |
| Guiana Francesa | 5 | 12.685 | 50,7% |
| Peru | 66 | 203.916 | 21,1% |
| Venezuela | 6 | 23.838 | 46,0% |
| Bacia Amazônica | 563 | 1.819.368 | 24,9% |
A revisão avaliou como a proteção da Amazônia evoluiu e funciona entre países
A investigação examinou a trajetória das políticas de conservação na Bacia Amazônica, com atenção especial às áreas protegidas e aos territórios indígenas. Os autores reconstruíram processos históricos de ocupação, criação de sistemas nacionais de áreas protegidas e reconhecimento dos direitos territoriais indígenas, além de comparar diferenças entre os países amazônicos.
A revisão também avaliou a extensão e as categorias dessas áreas, pressões associadas à expansão agropecuária, mineração e infraestrutura, mudanças no uso da terra e evidências sobre desmatamento. Outro eixo foi a gestão da conservação em escala de paisagem, incluindo a conexão entre áreas protegidas, territórios indígenas e outras áreas conservadas. Para mapas e estatísticas, foram utilizados principalmente dados geográficos da RAISG atualizados até 2020, complementados por literatura científica e análises específicas dos países.
Dados geográficos, literatura e análises nacionais foram reunidos em uma revisão regional
O trabalho é uma revisão científica derivada do capítulo 16 do relatório do Science Panel for the Amazon. Em vez de acompanhar uma população experimental, os autores reuniram evidências históricas, jurídicas, ambientais e territoriais para avaliar as políticas de conservação da Bacia Amazônica.
As delimitações da bacia, das áreas protegidas e dos territórios indígenas foram baseadas na Amazonian Network of Georeferenced Socio-Environmental Information (RAISG). Os mapas e as principais estatísticas territoriais utilizam a base da RAISG por categoria de proteção ambiental atualizada até 2020. A análise foi complementada por revisão da literatura e informações específicas de diferentes países.
Essa abordagem permitiu comparar cobertura territorial, categorias de proteção, reconhecimento de territórios indígenas, evolução histórica das políticas e pressões sobre as áreas conservadas. O artigo também reuniu resultados de pesquisas anteriores sobre desmatamento, carbono, efetividade de gestão e conectividade ecológica. Portanto, os números apresentados não correspondem todos a um único período ou levantamento: cada indicador deve ser interpretado segundo sua fonte e intervalo temporal.
Áreas protegidas e territórios indígenas ocupam parcelas extensas da Amazônia, mas permanecem sob pressão
Os dados de 2020 indicavam 1.819.368 km² de áreas protegidas sem sobreposição na Bacia Amazônica, equivalentes a aproximadamente 25% de sua extensão. A proporção protegida variava bastante entre os países analisados: de 21,1% da porção amazônica do Peru a 50,7% da Guiana Francesa. Do total da superfície protegida, 59,6% estava sob administração nacional.
Para os territórios indígenas, foram identificadas 6.443 unidades, somando 1.968.594 km² e aproximadamente 27% da Bacia Amazônica. Cerca de 89% da superfície das terras indígenas considerada no levantamento tinha reconhecimento oficial, enquanto 6,5% não possuía proteção legal; outras parcelas correspondiam a reservas indígenas ou zonas intangíveis reconhecidas ou propostas.
A presença dessas áreas não significava ausência de pressão. Entre 2001 e 2018, 53.269 km² dentro de áreas protegidas foram convertidos para novos usos agrícolas; 74% dessa superfície tinha cobertura florestal em 2000. Nos territórios indígenas, a conversão atingiu 42.860 km² no mesmo período, dos quais 71% eram florestas em 2000. O desmatamento anual nos territórios indígenas oscilava entre 1.000 e 1.700 km² até 2016, mas chegou a cerca de 2.500 km² em 2017 e 2.600 km² em 2018.
A conservação depende de mais do que delimitar áreas no mapa
Os resultados mostram que áreas protegidas e territórios indígenas formam componentes territoriais importantes para a conservação da Amazônia, mas sua existência legal, isoladamente, não garante proteção efetiva. Entre 2000 e 2018, 87% da área desmatada estava fora dessas áreas e 13% dentro delas, embora áreas protegidas e territórios indígenas reunissem mais da metade das florestas consideradas pelas fontes citadas na revisão.
Ao mesmo tempo, quase metade ou mais da extensão dessas áreas estava sujeita a algum tipo de pressão: 51% das áreas protegidas e 48% dos territórios indígenas apresentavam pressões relacionadas a atividades extrativas e infraestrutura. Por isso, os autores tratam a gestão, a fiscalização, o reconhecimento dos direitos territoriais e a conexão entre diferentes áreas conservadas como partes do mesmo desafio. A implicação prática é que aumentar a extensão oficialmente protegida precisa ser acompanhado por capacidade de gestão e estratégias que funcionem em escala de paisagem.
Os resultados são especialmente relevantes para políticas territoriais e de conservação na Amazônia
As evidências são particularmente relevantes para decisões sobre criação e gestão de áreas protegidas, reconhecimento de territórios indígenas e planejamento territorial nos países amazônicos. Também ajudam a orientar políticas voltadas à expansão agropecuária, infraestrutura e atividades extrativas nas áreas próximas ou internas aos territórios conservados.
A revisão destaca ainda situações em que áreas protegidas e territórios indígenas precisam ser administrados como partes de uma paisagem conectada, inclusive em regiões que atravessam fronteiras nacionais. Para os autores, governos, comunidades indígenas e locais e demais atores envolvidos na gestão territorial precisam participar de estratégias integradas, em vez de tratar cada área protegida como uma unidade isolada.
A revisão conecta proteção ambiental, direitos territoriais e conservação em escala de paisagem
A contribuição do artigo está em reunir numa perspectiva regional a história das políticas de conservação, a expansão das áreas protegidas, o reconhecimento dos territórios indígenas e evidências sobre as pressões que atingem essas áreas. Em vez de considerar apenas a quantidade de território formalmente protegido, os autores discutem como categorias de uso, efetividade da gestão, direitos indígenas e conectividade influenciam a conservação.
A revisão também apresenta iniciativas que ultrapassam limites de uma única unidade ou país. Entre os exemplos estão corredores e mosaicos que procuram conectar áreas protegidas, territórios indígenas e outras áreas conservadas, incorporando dimensões ecológicas e socioculturais à gestão da paisagem amazônica.
Proteger grandes extensões é importante, mas gestão e conectividade também precisam funcionar
A principal lição é que a Amazônia já possui uma extensa base territorial dedicada à proteção ambiental e aos territórios indígenas, mas essa estrutura precisa funcionar de forma integrada para enfrentar pressões que atravessam seus limites. O artigo reúne evidências de que o desmatamento se concentrou principalmente fora dessas áreas entre 2000 e 2018, ao mesmo tempo que registra aumento da pressão e da conversão florestal também dentro delas.
Os autores defendem uma visão de conservação que conecte áreas protegidas, territórios indígenas, outras áreas conservadas e corredores ecológicos. Essa estratégia inclui fortalecer a governança territorial, reconhecer plenamente os territórios indígenas, ampliar a participação de comunidades locais e melhorar recursos e instrumentos de gestão. Assim, o foco deixa de ser apenas quantos quilômetros quadrados estão formalmente protegidos e passa a incluir como essas áreas são administradas e conectadas na paisagem.
A extensão protegida da Amazônia não elimina o avanço de novas pressões
O resultado é relevante porque mostra duas tendências simultâneas. De um lado, áreas protegidas e territórios indígenas ocupam parcelas expressivas da Bacia Amazônica e a maior parte do desmatamento analisado entre 2000 e 2018 ocorreu fora delas. De outro, a conversão de florestas e outras pressões também atingem seus limites internos.
A revisão registra que o desmatamento voltou a crescer depois de atingir um ponto baixo em 2010 e que, nos territórios indígenas, os valores anuais de 2017 e 2018 superaram os anos anteriores considerados. Para os autores, preservar os resultados obtidos pelas políticas de conservação exige fortalecer a gestão e combinar proteção territorial com conectividade ecológica e participação das populações locais.
Perguntas que este estudo ajuda a responder
Quanto da Bacia Amazônica está dentro de áreas protegidas?
Cerca de um quarto da Bacia Amazônica estava em áreas protegidas nos dados utilizados pela revisão. Considerando as áreas sem sobreposição, eram 1.819.368 km², correspondentes a 24,9% da bacia. A proporção variava entre os países: a parcela protegida ia de 21,1% da Amazônia peruana a 50,7% da Guiana Francesa. O levantamento não considerou áreas municipais e reservas privadas nessa comparação devido à disponibilidade limitada das informações e à pequena superfície representada por essas categorias.
Quanto da Bacia Amazônica é coberto por territórios indígenas?
Os 6.443 territórios indígenas identificados pela revisão cobriam aproximadamente 1.968.594 km², equivalentes a 27% da Bacia Amazônica. A distribuição era desigual entre os países. O Brasil concentrava 58,6% da superfície dos territórios indígenas contabilizados na bacia, enquanto Peru, Colômbia e Bolívia respondiam por outras parcelas importantes. Em relação à extensão amazônica de cada país, a proporção reconhecida como território indígena também apresentava grandes diferenças.
O desmatamento ocorre menos dentro de áreas protegidas e territórios indígenas?
No período de 2000 a 2018 considerado pela revisão, 87% da área total desmatada estava fora de áreas protegidas e territórios indígenas, enquanto 13% estava dentro de seus limites. As fontes reunidas pelo artigo indicam que essas áreas, juntas, abrangiam mais da metade das florestas da região. O estudo também cita análises segundo as quais territórios indígenas legalmente reconhecidos apresentaram maior efetividade na redução do desmatamento do que territórios cujo reconhecimento ainda não estava completo. Esses resultados não significam ausência de perda florestal dentro das áreas protegidas.
O desmatamento aumentou dentro dos territórios indígenas da Amazônia?
Os dados reunidos pela revisão mostram uma alta no final do período analisado. Até 2016, o desmatamento anual nos territórios indígenas variava entre aproximadamente 1.000 e 1.700 km². Em 2017, chegou a cerca de 2.500 km² e, em 2018, a aproximadamente 2.600 km², valores superiores aos anos anteriores considerados, inclusive ao pico de 2004. A revisão também informa que o desmatamento em territórios indígenas sem reconhecimento legal aumentou mais de 50% quando se compara 2000–2005 com 2010–2015.
Qual parcela das áreas protegidas e dos territórios indígenas sofre pressão de atividades econômicas e infraestrutura?
A revisão informa que 51% da extensão das áreas protegidas e 48% dos territórios indígenas da Amazônia estavam submetidos a algum tipo de pressão associada a atividades extrativas ou ao desenvolvimento de infraestrutura, incluindo energia e estradas. A intensidade não era igual entre as categorias: nas áreas protegidas predominavam pressões classificadas como moderadas ou baixas, enquanto um terço da área dos territórios indígenas estava sob pressão alta ou muito alta. Os níveis também variavam entre os países amazônicos.
Sobre o estudo original
- Título científico
- Pasado y presente de las políticas de conservación en la cuenca amazónica: estado de las Áreas Naturales Protegidas, Territorios Indígenas y comunidades locales
- Autores
- Silvia de Melo FUTADA (University of Florida); María A. OLIVEIRA-MIRANDA (Wataniba); María Moreno de los Ríos ALMANDOZ (Unión Internacional para la Conservación de la Naturaleza (UICN)); Edel N. Santiago de MORAES (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima); Ermeto TUESTA (Indian Law Resource Center); Martin von HILDEBRAND (Fundación Gaia Amazonas); Carmen JOSSE (Fundación EcoCiencia)
- Revista
- Acta Amazonica
- Publicado em
- 26/09/2025
- DOI
- 10.1590/1809-4392202203100
Fonte e atribuição
Esta página é uma explicação editorial original do estudo científico identificado acima e não substitui a leitura do trabalho original. Os dados, resultados e conclusões apresentados têm como fonte o artigo original, que permanece vinculado pelo DOI e/ou pela página da publicação.
