Abastecimento vertical reduz em 3,5 horas o tempo para pernil suíno atingir -18°C
Como mudanças na embalagem, no abastecimento e na ventilação de um túnel contínuo podem melhorar o congelamento de pernil suíno?
Este conteúdo foi elaborado com base no artigo científico “Industrial strategy to reduced hold time of pork shank in continuous freezing tunnel”, publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências em 19/12/2025.
Usar somente a embalagem primária e mudar o abastecimento do túnel de horizontal para vertical melhorou o congelamento do pernil suíno nas condições estudadas. Com embalagem primária, o abastecimento vertical reduziu em 3,5 horas o tempo necessário para atingir -18°C. A retirada da embalagem secundária reduziu a taxa de reprocessamento de 0,47% para 0,04%, e a posterior adoção do abastecimento vertical reduziu essa taxa para 0,01%. Correções na ventilação também tornaram a temperatura mais uniforme entre os níveis do túnel.
Principais resultados e informações do estudo em resumo
- Com apenas a embalagem primária, o abastecimento vertical reduziu em 3,5 horas o tempo para o pernil atingir -18°C.
- A retirada da embalagem secundária reduziu a taxa de reprocessamento de 0,47% para 0,04%, equivalente a uma redução relativa de cerca de 91%.
- A mudança posterior do abastecimento horizontal para o vertical reduziu o reprocessamento de 0,04% para 0,01%, uma redução relativa de aproximadamente 78%.
- Após correções na ventilação, a diferença máxima de temperatura entre níveis durante a operação normal caiu de 9,4°C para 2,4°C.
- Nas condições testadas, a embalagem secundária aumentou a resistência à transferência de calor e dificultou que o produto atingisse -18°C dentro do tempo de retenção avaliado.
Embalagem, movimentação das caixas e ventilação foram avaliadas no congelamento do pernil
A investigação buscou estratégias industriais para reduzir o tempo de permanência de pernis suínos em um túnel contínuo de congelamento e diminuir o reprocessamento de produtos que não alcançavam -18°C. Foram utilizados pernis com aproximadamente 10 kg e até 10% de gordura superficial.
Os pesquisadores avaliaram dois fatores diretamente ligados à transferência de calor: a presença ou retirada de uma embalagem secundária de polietileno de baixa densidade e a forma de abastecer o túnel, comparando os sistemas horizontal e vertical. Também monitoraram diferentes níveis do equipamento para verificar a distribuição das temperaturas e os efeitos do degelo. Essa etapa permitiu identificar problemas no sistema de ventilação e avaliar mudanças destinadas a tornar o congelamento mais uniforme.
Temperaturas foram acompanhadas em diferentes embalagens, posições e níveis do túnel
O estudo foi realizado em um túnel industrial contínuo com 32 níveis, sendo um deles destinado ao retorno, e capacidade total para 12.896 caixas. Os pernis tinham aproximadamente 10 kg e eram acondicionados individualmente em embalagem primária de polietileno de baixa densidade. Em parte dos testes, foi acrescentada uma embalagem secundária do mesmo material, e as peças eram colocadas em caixas de papelão ondulado.
Foram comparados os abastecimentos horizontal e vertical. Sondas inseridas no centro das peças acompanharam a evolução da temperatura do produto. Para avaliar o funcionamento do túnel, sete sondas foram posicionadas nos níveis 1, 7, 13, 18, 23, 28 e 31, com leituras a cada 10 minutos durante 54 horas, incluindo avaliações com e sem a etapa de degelo.
Os dados também foram analisados por controle estatístico do processo, utilizando gráficos de média e amplitude. Depois da identificação de problemas na ventilação, foram implementadas ações corretivas e realizado um novo monitoramento de 54 horas.
Abastecimento vertical e retirada da embalagem secundária melhoraram o desempenho do congelamento
No abastecimento horizontal, os pernis acondicionados somente na embalagem primária atingiram -18°C após aproximadamente 27 horas no ponto de menor troca térmica. Já os produtos com embalagem primária e secundária não alcançaram -18°C mesmo após 36 horas.
Com apenas a embalagem primária, mudar o abastecimento de horizontal para vertical reduziu em 3,5 horas o tempo necessário para atingir -18°C, correspondendo a um ganho de 12,5% no tempo de congelamento. No abastecimento vertical, o produto atingiu -18°C em 24 horas e 30 minutos. Após 29 horas, chegou a -27,9°C.
Os dados de reprocessamento mostraram outra mudança importante. Com embalagem primária e secundária e abastecimento horizontal, a taxa era de 0,47%. Após retirar a embalagem secundária e manter o abastecimento horizontal, caiu para 0,04%. Posteriormente, com apenas a embalagem primária e abastecimento vertical, chegou a 0,01%. Em termos relativos, os autores descrevem reduções de aproximadamente 91% e 78% nessas duas etapas, respectivamente.
As intervenções no sistema de ventilação também melhoraram a distribuição térmica durante a operação normal do túnel: a diferença máxima observada entre os níveis avaliados caiu de 9,4°C para 2,4°C.
Menos barreiras térmicas e melhor exposição ao ar frio ajudam a explicar os resultados
Nas condições avaliadas, a embalagem secundária acrescentava uma barreira à transferência de calor. Além dela, o calor precisava atravessar a embalagem primária e as próprias estruturas do produto até alcançar seu centro térmico. Os autores também apontam que bolsas de ar no interior das embalagens podem atuar como isolantes.
O abastecimento vertical, por sua vez, modificou a posição das caixas durante sua passagem pelo túnel e favoreceu a exposição às regiões de maior troca térmica. Com isso, os pernis acondicionados apenas na embalagem primária atingiram -18°C mais rapidamente.
Os resultados indicam, portanto, que o desempenho do congelamento não depende somente da temperatura programada para o túnel. Embalagem, posição das caixas e funcionamento da ventilação também interferem na transferência de calor e no tempo necessário para resfriar o centro do produto.
Os resultados são diretamente aplicáveis ao processo industrial avaliado
Os achados são especialmente relevantes para agroindústrias que utilizam túneis contínuos para congelar cortes suínos e precisam assegurar que o centro do produto alcance a temperatura estabelecida sem prolongar desnecessariamente sua permanência no equipamento.
O trabalho mostra que, no sistema estudado, alterações relativamente simples na embalagem e no fluxo das caixas reduziram o tempo de congelamento e o reprocessamento. Os autores apontam ainda potencial de aplicação do abastecimento vertical em outras linhas de produção de carnes, como bovina e de aves, mas ressaltam que devem ser respeitadas as características físicas e térmicas de cada produto.
O estudo avaliou mudanças operacionais diretamente em um túnel industrial
A contribuição do trabalho está em avaliar conjuntamente fatores de embalagem, movimentação das caixas e funcionamento do sistema de ventilação em condições industriais. Em vez de analisar apenas a temperatura nominal do túnel, o estudo acompanhou quanto tempo o centro do pernil levava para atingir -18°C e como a temperatura se distribuía entre diferentes níveis do equipamento.
O monitoramento permitiu identificar um problema no bloco central de ventilação. Entre as ações adotadas estiveram a substituição do equipamento danificado, a instalação de um sensor para sinalizar falhas, a aquisição de um ventilador reserva e a solicitação de aumento da demanda de energia da unidade. Após as intervenções, o túnel foi novamente monitorado.
O desempenho do congelamento depende de todo o caminho térmico até o centro do produto
A principal interpretação do estudo é que atingir a temperatura desejada no centro de uma peça de carne depende de mais fatores do que simplesmente manter o ar do túnel em baixa temperatura. As embalagens criam resistências à transferência de calor, enquanto a posição das caixas influencia sua exposição ao fluxo de ar frio.
Nas condições testadas, os pernis com embalagem secundária não atingiram -18°C dentro dos tempos de retenção avaliados, tanto no abastecimento horizontal quanto no vertical. Já com apenas a embalagem primária, a mudança para o abastecimento vertical permitiu atingir essa temperatura 3,5 horas mais cedo.
O monitoramento dos níveis do túnel também mostrou que problemas mecânicos de ventilação podiam gerar diferenças de temperatura. A identificação e correção dessas falhas reduziu a diferença máxima entre níveis durante a operação normal, mostrando a importância de avaliar não apenas o produto, mas também a uniformidade térmica do equipamento.
Menos reprocessamento significa menos caixas retornando ao túnel
Antes da mudança de embalagem, a taxa de reprocessamento era de 0,47%. Após a retirada da embalagem secundária, caiu para 0,04%, o que corresponde à redução relativa de aproximadamente 91% relatada pelos autores. Depois, com a mudança do abastecimento horizontal para o vertical, a taxa caiu novamente, de 0,04% para 0,01%, equivalente a uma redução relativa de aproximadamente 78%.
Essa redução é relevante porque caixas que não atingem a temperatura necessária precisam retornar ao processo, ocupando novamente espaço e tempo do túnel. Os autores também discutem que as flutuações de temperatura associadas ao reprocessamento podem prejudicar características do produto. Assim, as mudanças testadas reduziram o retrabalho e melhoraram o aproveitamento do processo industrial.
Perguntas que este estudo ajuda a responder
Quanto tempo o pernil suíno levou para atingir -18°C?
Com apenas a embalagem primária, o tempo dependeu da forma de abastecimento. No sistema horizontal, no ponto de menor troca térmica, o pernil atingiu -18°C após aproximadamente 27 horas. No abastecimento vertical, essa temperatura foi alcançada em 24 horas e 30 minutos. O estudo relata uma redução de 3,5 horas no tempo necessário para atingir -18°C com a mudança do abastecimento.
A embalagem secundária atrapalhou o congelamento do pernil suíno?
Nas condições avaliadas, sim. No abastecimento horizontal, os pernis somente com embalagem primária atingiram -18°C em aproximadamente 27 horas, enquanto aqueles com embalagem primária e secundária não alcançaram essa temperatura mesmo após 36 horas. No abastecimento vertical, o produto somente com embalagem primária atingiu -18°C em 24 horas e 30 minutos, enquanto aquele com as duas embalagens não chegou a -18°C após 29 horas. Os autores atribuem esse resultado ao aumento da resistência à transferência de calor causado pela embalagem adicional.
Quanto a retirada da embalagem secundária reduziu o reprocessamento?
A taxa de reprocessamento caiu de 0,47% para 0,04% após a retirada da embalagem secundária. Isso corresponde à redução relativa de aproximadamente 91% relatada pelos autores. Em números absolutos apresentados no estudo, a média passou de 1.192 para 109 caixas reprocessadas por mês.
O abastecimento vertical também reduziu o reprocessamento?
Sim. Considerando os pernis já acondicionados somente na embalagem primária, a taxa de reprocessamento caiu de 0,04% com abastecimento horizontal para 0,01% com abastecimento vertical. O artigo descreve essa mudança como uma redução relativa de aproximadamente 78%. A média de caixas reprocessadas passou de 109 para 24 por mês.
As correções na ventilação deixaram a temperatura do túnel mais uniforme?
Sim. Durante a operação normal, sem considerar o período de degelo, a diferença máxima entre os níveis avaliados caiu de 9,4°C antes das correções para 2,4°C depois das intervenções. Entre as medidas adotadas estiveram a substituição de um bloco central de ventilação danificado, a instalação de um sensor para sinalizar falhas e a aquisição de um ventilador reserva. O controle estatístico ainda mostrou pontos fora dos limites de controle, indicando que o processo não havia se tornado totalmente estável, embora a uniformidade térmica tivesse melhorado.
Sobre o estudo original
- Título científico
- Industrial strategy to reduced hold time of pork shank in continuous freezing tunnel
- Autores
- SILMARA ZANDONAI (Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões); CARINA C.G. TOMALOK (Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões); CLARICE STEFFENS (Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões); GECIANE T. BACKES (Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões); JULIANA STEFFENS (Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões)
- Revista
- Anais da Academia Brasileira de Ciências
- Publicado em
- 19/12/2025
- DOI
- 10.1590/0001-3765202520240076
Fonte e atribuição
Esta página é uma explicação editorial original do estudo científico identificado acima e não substitui a leitura do trabalho original. Os dados, resultados e conclusões apresentados têm como fonte o artigo original, que permanece vinculado pelo DOI e/ou pela página da publicação.
